Por que Césio-137 tem brilho azul?

Por que Césio-137 tem brilho azul?
Especialista explicou que o elemento, por si só, não emite luz visível. Brilho azul foi uma das principais características que chamaram atenção durante o maior desastre radiológico da história do país, em 1987.
O brilho azul docésio-137foi uma das principais características que chamaram atenção durante omaior desastre radiológicoda história do país, ocorrido em Goiânia em 1987. Para entender o porquê do intenso brilho azul no escuro, og1entrevistou o professor de química Elias Yuki Ionashiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG).

O professor explicou que o elemento, por si só, não emite luz visível.“O césio não era para emitir essa radiação azul”, afirmou.De acordo com ele, o fenômeno ocorre pela interação da radiação com a água, na forma de umidade do ar, gerando o chamado efeito Cherenkov, responsável pelo brilho azulado.

“É um caso curioso que o brilho azul do césio não é pelo elemento. Os estudos indicam que a interação da radiação emitida pelo césio com o ar gera esse brilho luminoso”, destacou Elias.

No caso do acidente em Goiânia, o especialista pontuou que o césio-137 estava na forma de cloreto de césio, semelhante ao sal de cozinha, o que facilitou sua absorção pelo organismo.

A tragédia ganhou repercussão novamente após o lançamento de uma minissérie na Netflix, intitulada comoEmergência Radioativa, que retrata a contaminação radiológica e os esforços para conter a tragédia.

Elias destacou que a radiação emitida pelo elemento é de alta energia, chamada de radiação ionizante. No corpo humano, ela é capaz de causar queimaduras e alterações no DNA, que aumentam o risco de câncer e podem até ser transmitidas para gerações futuras.

No entanto, há diferença entre radiação e contaminação. A radiação pode ser utilizada de forma controlada, como em exames médicos, mas a contaminação ocorre quando o material radioativo sai do controle e passa a emitir radiação continuamente no ambiente de forma perigosa.

O professor revelou que a UFG estuda a criação de uma disciplina específica sobre o tema no curso de química, com o objetivo de formar professores mais preparados. A iniciativa busca garantir que o episódio continue sendo estudado e que tragédias semelhantes não voltem a acontecer.

O acidente radioativo teve início em13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas doInstituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles levaram a peça para a casa de Roberto, na Rua 57, onde removeram o lacre da cápsula que continha césio-137 na forma de pó, semelhante ao sal de cozinha, mas queemitia um intenso brilho azul no escuro.

Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que ficou encantado com a luminosidade e distribuiu fragmentos da substância para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o material, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.

A suspeita de que o pó era o culpado surgiu com Maria Gabriela, esposa de Devair, que em 28 de setembro levou a cápsula em uma sacola de plástico até a Vigilância Sanitária.

O acidente foi oficialmente identificado no dia seguinte, 29 de setembro, pelofísico Walter Mendes, que confirmou os altos níveis de radiação e iniciou o isolamento das áreas afetadas.

Quem são as vítimas?

De acordo com informações divulgadas pelo Governo de Goiás, na época, um monitoramento realizado no Estádio Olímpicoavaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.

A tragédia resultou em quatro vítimas diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):

A tragédia gerou6 mil toneladas de rejeitos radioativos, que estão armazenados de forma definitiva em depósitos em Abadia de Goiás. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) continua monitorando a saúde das vítimas e de seus descendentes.