Oqueniano Sebastian Sawe entrou para a históriaao completar a Maratona de Londres em 1h59min30s, tornando-seo primeiro a correr 42 km em menos de duas horasem uma prova oficial. O que chamou atenção foi arefeição pré-largada: duas fatias de pão, mel e chá. Mas isso, isoladamente, não explica o feito.
Por trás do recorde, houve uma estratégia nutricional sofisticada, baseada em alto consumo de carboidratos antes e durante a prova, uso de tecnologias para melhorar a absorção intestinal, suplementação planejada ao longo do percurso e até um tênis de 97 gramas com placa de carbono.
Durante a corrida, Sawe ingeriu cerca de 230 gramas de carboidratos — valor bem acima das recomendações tradicionais. A reposição foi feita a cada 5 km, com géis, bebidas, cafeína e um hidrogel desenvolvido para facilitar a absorção sem causar desconforto gastrointestinal.
Nos dias anteriores, ele já vinha consumindo bebidas ricas em carboidratos para maximizar os estoques de glicogênio. Antes da largada, ingeriu bicarbonato. Também tomou um gel energético antes de começar e outro com cafeína na metade do percurso.
O próprio acompanhamento científico do atleta mostrou, por meio de rastreamento com carbono-13 na respiração, que ele chegou a utilizar quase 100 gramas de carboidrato por hora por volta do km 30 — um limite considerado próximo do máximo que o corpo humano consegue sustentar hoje.
O que realmente sustenta quase duas horas nesse ritmo
Nutricionistas explicaram aog1que o pão e o mel funcionam porque são carboidratos simples, de rápida absorção, que evitam desconfortos gástricos. Mas isso só é suficiente porque o atleta já largou com os estoques cheios.
Um maratonista de elite pode ter entre 400 g e 800 g de glicogênio armazenados entre músculos e fígado. Esse estoque é resultado da alimentação dos dias anteriores e não da refeição leve da manhã, explica o nutricionista Eduardo Reis, membro do departamento científico da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE).
Durante a prova, a ingestão contínua de carboidratos é decisiva para manter a glicose no sangue, retardar a fadiga e poupar parte do glicogênio muscular.
Especialistas destacam que, sem essa combinação - de estoques elevados e ingestão durante a corrida - uma refeição leve isolada aumentaria o risco de quebra.
Segundo o Reis, a estratégia adotada por Sawe prioriza o esvaziamento gástrico eficiente aliado à manutenção da glicemia.
“Para um atleta que corre a quase 21 km/h, o conforto gastrointestinal é tão importante quanto a energia disponível”, afirma.
Quando ocorre a quebra
A chamada quebra não tem um quilômetro exato. Ela surge da combinação de redução acentuada do glicogênio; dificuldade de manter a glicose no sangue, desidratação, aumento da temperatura corporal e fadiga neuromuscular,explica a doutora em Ciências Nutricionais e Metabolismo pela Unicamp, Heloisa Castanheira Santo André.
A estratégia de Sawe foi desenhada justamente para impedir que esses fatores se acumulassem.
O risco de queda de energia existe quando a refeição leve é a única estratégia e não há preparo adequado.
No caso de atletas de elite, esse risco é menor por dois fatores principais:
“Um corredor que chega à prova com baixos estoques de glicogênio, que não se alimentou bem nos dias anteriores ou que não consome carboidrato durante a corrida pode ter queda de rendimento. Mas, no caso de um atleta de elite, essa refeição leve é combinada com uma preparação nutricional anterior e com ingestão planejada de carboidratos durante a prova”, destaca Santo André.
Por que carboidratos simples são centrais na estratégia
Pão e mel aparecem na história porque representam uma combinação eficiente de glicose e frutose,que usam transportadores diferentes no intestino e aumentam a capacidade de absorção de energia. Mas,na prática, alimentos como arroz, banana, mingau, bebidas esportivas e géis cumprem o mesmo papel.
O ponto central não é o alimento em si, mas a capacidade do corpo de absorver grandes quantidades de carboidrato sem sofrer com o intestino, algo que exige adaptação durante os treinos, destaca Santo André.
“O pão fornece glicose e o mel oferece glicose e frutose. Essa combinação utiliza diferentes transportadores no intestino, o que maximiza a absorção de energia sem sobrecarregar o sistema digestivo”, acrescenta Reis.
Tecnologia e fisiologia entram na conta
O desempenho também contou com fatores que vão além da nutrição:
Essa eficiência faz com que eles usem menos glicogênio por minuto e consigam transformar melhor o carboidrato ingerido em energia útil.
Quanto carboidrato é necessário
Não existe um valor único, mas recomendações gerais indicam:
Sawe ultrapassou esses valores, chegando perto de 100 g por hora em parte da prova — algo possível apenas com treino intestinal, mistura de glicose e frutose e tecnologia de absorção.
O que a história realmente mostra
A refeição leve antes da largada não foi o segredo. Ela foi apenas a etapa final de uma engrenagem que envolveu:
Sem esse conjunto, pão e mel seriam apenas pão e mel.
Não foi só pão e mel: recorde na maratona envolveu intestino treinado para absorver alto volume de carboidratos
Atleta ingeriu cerca de 230 g de carboidratos durante a prova e chegou a usar quase 100 g por hora, com estratégia que combinou treino intestinal, suplementação e tecnologia para otimizar a absorção.