Levar o celular para o banheiro e passar vários minutos rolando a tela virou um hábito comum e cada vez mais preocupante para médicos. Um estudo publicado na revista científica PLOS One revelou que pessoas que usam o aparelho enquanto estão sentadas no vaso sanitário permanecem mais tempo no banheiro e apresentam aumento de 46% no risco de desenvolver hemorroidas.
Embora o assunto ainda seja cercado de tabu e constrangimento, mais da metade dos adultos já teve ou terá hemorroidas em algum momento da vida. Para especialistas, o uso do celular durante a evacuação se tornou apenas a versão digital de um comportamento antigo: levar revistas, jornais ou livros para o banheiro. A diferença é que, agora, o conteúdo praticamente não tem fim.
Em entrevista ao podcast do Bem-Estar, o proctologista Leonardo Castro explicou que os próprios livros de medicina já alertavam há décadas sobre o hábito de permanecer muito tempo sentado no vaso sanitário.
Na era digital isso se alastrou. Segundo ele, o celular ampliou ainda mais o tempo de permanência no banheiro porque concentra diferentes formas de entretenimento, notícias e redes sociais em um único aparelho.
O que acontece no corpo durante a evacuação?
Segundo Castro, a posição adotada para evacuar altera o ângulo entre o reto e o ânus para facilitar a saída das fezes. Por isso, o vaso sanitário costuma ser mais baixo que uma cadeira convencional.
Apesar dessa adaptação anatômica favorecer a evacuação, ela também aumenta a pressão dentro da pelve e do canal anal, provocando maior congestão dos vasos sanguíneos da região.
“Se você fica mais tempo que o necessário, você está mais suscetível ao aumento dessa congestão venosa, dessa congestão vascular”, explicou o especialista. E é justamente esse aumento da congestão venosa que está relacionado ao desenvolvimento das hemorroidas.
Existe um tempo ideal no banheiro?
O médico afirma que não existe um limite exato universalmente definido para evacuar, mas períodos superiores a quatro ou cinco minutos já podem favorecer danos relacionados à congestão vascular da região anal.
Segundo ele, o mais importante é que a evacuação ocorra de forma completa e sem esforço excessivo.
Castro também chama atenção para pessoas com prisão de ventre, que acabam permanecendo muito tempo tentando evacuar. Nesses casos, o tempo prolongado no vaso pode piorar ainda mais os sintomas intestinais e favorecer crises hemorroidárias.
O que são as hemorroidas?
As hemorroidas são dilatações e congestões das veias localizadas na região anal. Pessoas predispostas podem apresentar quadros mais intensos, com sintomas como:
Segundo o proctologista, a doença está diretamente relacionada aos hábitos intestinais e ao estilo de vida. Prisão de ventre, fezes endurecidas, pouca ingestão de água, alimentação pobre em fibras e sedentarismo podem piorar o quadro.
“O consumo de água, de fibras e a realização de exercícios físicos constantes estão dentro do nosso arsenal de tratamento e cuidados que a gente deve ter com a saúde”, afirmou.
O médico também destacou que fatores como estresse, ansiedade, rotina acelerada e alimentação rica em ultraprocessados e fast food acabam contribuindo para hábitos intestinais inadequados.
Gestação e histórico familiar podem aumentar o risco
Algumas condições aumentam a predisposição ao desenvolvimento de hemorroidas. A gestação, especialmente no último trimestre, é uma delas. Isso acontece devido ao aumento da congestão vascular e venosa da pelve durante esse período.
A condição também é mais frequente em adultos do que em crianças. Além disso, o especialista afirma que muitos pacientes relatam histórico familiar da doença.
Prisão de ventre não causa necessariamente hemorroida
Apesar de a constipação ser um dos principais fatores de piora da doença hemorroidária, o especialista explica que nem toda pessoa com intestino preso desenvolverá hemorroidas.
Por outro lado, quem já apresenta a condição tende a ter mais dor e sangramento quando sofre com prisão de ventre.
Segundo Castro, a primeira recomendação para pacientes com doença hemorroidária é melhorar a saúde intestinal.
“Não há cirurgia, não há procedimento mágico que vá resolver se você não tiver primeiro uma atenção especial com a sua saúde intestinal”, afirmou.
Sangramento pode indicar outras doenças
O sangramento é um dos sintomas que mais preocupam os especialistas. Mas o médico alerta que nem todo sangramento necessariamente é hemorróida.
As hemorroidas internas costumam sangrar com mais frequência, enquanto as externas geralmente provocam mais dor.
Mas o sangue nas fezes também pode indicar doenças mais graves, incluindo câncer intestinal, que tem aumentado entre pessoas jovens.
Fissura e fístula anal podem causar confusão
Outras doenças anais também podem provocar sintomas parecidos com os das hemorroidas, dificultando o diagnóstico sem avaliação médica.
A fissura anal é descrita como um pequeno rasgo ou lesão aberta no canal anal, frequentemente associada a fezes endurecidas e prisão de ventre. Os sintomas mais comuns são dor intensa e sangramento.
Já a fístula anal é uma comunicação anormal entre o canal anal e a pele ao redor do ânus, geralmente causada por infecção.
Segundo Castro, é comum pacientes chegarem ao consultório acreditando ter hemorroida e descobrirem outro diagnóstico após o exame físico especializado.
Hemorroida pode piorar ao longo do tempo
O proctologista afirma que a hemorroida não se transforma em câncer nem evolui para fissura ou fístula. Porém, ela pode aumentar de gravidade com o passar do tempo se não houver tratamento adequado.
A doença é dividida em quatro graus. Casos leves podem ser tratados com mudanças de hábitos e cuidados intestinais. Quadros mais avançados podem exigir procedimentos no consultório ou cirurgia.
Entre os tratamentos citados pelo especialista estão:
Laxantes podem ajudar?
Segundo Castro, laxantes podem ser utilizados por pessoas com prisão de ventre porque ajudam na regularização do intestino.
Mesmo assim, ele reforça que a prioridade deve ser a mudança dos hábitos de vida, com melhora da alimentação, aumento da ingestão de fibras e água e prática de exercícios físicos.
Papel higiênico pode piorar sintomas
Além de reduzir o tempo no banheiro e evitar o celular durante a evacuação, o médico também recomenda evitar o uso excessivo de papel higiênico.
Segundo ele, o ideal é priorizar água e sabão para a higiene da região anal.
Banquinho pode facilitar evacuação
Algumas pessoas utilizam pequenos bancos para elevar as pernas enquanto usam o vaso sanitário. Segundo o especialista, isso pode ajudar determinados pacientes porque aumenta o ângulo entre o reto e o canal anal, facilitando a saída das fezes.
A posição se aproxima da posição de cócoras, considerada mais fisiológica e semelhante à forma como os ancestrais evacuavam antes da existência dos vasos sanitários.
No fim da entrevista, o médico reforçou o principal alerta: sangue nas fezes nunca deve ser ignorado.
Celular no banheiro aumenta em 46% o risco de hemorroidas, aponta estudo
Pesquisa publicada na revista PLOS One mostra que permanecer mais de cinco minutos sentado no vaso sanitário favorece congestão vascular e pode agravar sintomas intestinais.