Caso na Colômbia expõe fenômeno raro: gêmeos podem ter pais diferentes; entenda como isso acontece

Caso na Colômbia expõe fenômeno raro: gêmeos podem ter pais diferentes; entenda como isso acontece
Poliovulação ocorre em cerca de 20% dos ciclos. Casos de irmãos com origens distintas só ocorrem quando há relações sexual próximas no tempo e só são identificados após exame genético.
O caso de umamulher que teve dois filhos gêmeos de pais diferentes na Colômbiachamou a atenção para o quanto nosso corpo é complexo. Apesar de poucos relatos documentados na literatura científica (a estimativa é de cerca de 20 casos), o fenômeno pode ocorrer com mais frequência do que se imagina. Especialistas ouvidos pelog1explicaram os mecanismos fisiológicos por trás do fenômeno chamado desuperfecundação heteropaternal.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e especialista em reprodução humana da Clínica Vida/FertGroup, Paulo Gallo, explica que esses casos costumam ser descobertos apenas quando é feito um teste de paternidade.

Segundo ele, esse tipo de exame em gêmeos geralmente só ocorre em situações de disputa judicial por pensão alimentícia ou quando há diferenças físicas muito marcantes entre as crianças. Características isoladas, como a cor dos olhos, por exemplo, não costumam ser motivo para a realização do teste.

A fecundação e a superfecundação

Para que a fecundação ocorra, é preciso que o óvulo liberado durante o ciclo menstrual encontre um espermatozoide. Em geral, a mulher libera um óvulo por ciclo. Em alguns casos, porém, pode haver a liberação de mais de um óvulo no mesmo período, o que aumenta a chance de uma gestação de gêmeos fraternos.

Esse tipo de ovulação dupla é considerado incomum de forma natural, mas pode acontecer — e é mais frequente em tratamentos de fertilidade que estimulam os ovários.

Quando mais de um óvulo é liberado, há chance de gestação gemelar (de gêmeos).

A incidência de gestação gemelar varia de 1 a 2% das gestações e, de cada 4 gêmeos que nascem, 3 são bivitelinos ou fraternos (gerados de óvulos e espermatozoides diferentes) e um é idêntico ou univitelino (originário do mesmo óvulo e mesmo espermatozoide). Neste caso, um embrião único se divide em dois.

Isso explica por que casais que tentam engravidar podem ser orientados a ter relação sexual antes da ovulação – para que o espermatozoide já esteja na trompa quando o óvulo for liberado.

Dessa forma, uma mulher que tem mais de uma ovulação no mesmo ciclo e tem relação sexual com dois homens - com poucos dias de diferença - pode ter gêmeos (não idênticos), de pais diferentes.

Gallo explica que episódios podem ser mais comuns do que imaginamos porque testes de paternidade não são tão comuns. Geralmente, eles ocorrem após brigas judiciais ou quando um gêmeo é muito diferente do outro.

O médico explica ainda que, na faixa dos 30 anos, apenas cerca de 50% dos óvulos são bons o suficiente para gerar uma gestação. Na faixa dos 40 anos, esse índice cai para 20%.

Logo, para a superfecundação heteropaternal ocorrer, é preciso haver poliovulação, relação com dois homens diferentes em curto intervalo de tempo, e ao menos dois óvulos serem bons o suficiente para haver fecundação.

A professora titular de genética humana e médica do Instituto de Biociências da USP Mayana Zatz acrescenta que já foi descrito também um caso de gêmeos fraternos do mesmo pai, mas com um mês de diferença. Apesar de a mulher estar grávida, ela continuou ovulando e teve um segundo ovulo fecundado já durante a gestação do primeiro feto.

Técnicas de fertilização podem aumentar chance do fenômeno

Apesar de a liberação de mais de um óvulo ocorrer de forma espontânea em apenas 20% das ovulações, tratamentos de fertilização podem estimular a poliovulação.

Medicamentos como o citrato de clomifeno e o letrozol são usados por pacientes com dificuldade de engravidar para indução da ovulação. O primeiro é usado desde 1960 e pode fazer com que a mulher tenha uma ovulação múltipla de dois ou três folículos.

ENTENDA MELHOR O PROCESSO:

Como é feita a análise da paternidade

Metade do material genético da criança é da mãe e a outra metade é do pai. Para que a confirmação da paternidade seja feita, os cientistas analisam fragmentos de DNA da criança, da mãe e do suposto pai. A análise costuma ser feita com amostra de sangue ou com células da bochecha (swab bucal).