Volkswagen abre caminho para converter fábrica desativada para produção de armas

Volkswagen abre caminho para converter fábrica desativada para produção de armas
VW vai vender planta na Alemanha para autoridades estaduais e grupo de investimentos, que em seguida pretendem atuar com firma israelense responsável pelo Domo de Ferro.
AVolkswagenanunciou nesta segunda-feira (07) que uma de suas fábricas naAlemanha, que terá sua produção de automóveis encerrada, serávendida e convertida para a fabricação de armas produzidas por uma empresa israelense.

A medida faz parte de uma ampla reestruturação na maior fabricante de automóveis da Europa, que atravessa uma grave crise.

A empresa anunciou recentemente o maior plano de demissões da história da indústria automotiva global, enquanto se vê pressionada pela concorrência chinesa, tarifas de importação dos Estados Unidos e a baixa demanda dos consumidores por veículos elétricos.

O anúncio também representa a mais recente parceria entre uma automobilística alemã e o setor de defesa.

Um mercado em expansão à medida que vários países reforçam suas Forças Armadas em meio à ameaça cada vez maior representada por conflitos e guerras, em um cenário internacional cada vez mais instável.

O acordo ainda não constitui uma venda definitiva, mas visa estabelecer as bases para as próximas etapas, incluindo a definição de responsabilidades, a determinação da estrutura e a preparação para a transição.

Domo de Ferro e Iron Beam

A fábrica da VW em Osnabrück, no noroeste daAlemanha, serávendida para a empresa de investimentos Aurelius Capital, sediada em Tel Aviv,e para o estado alemão da Baixa Saxônia, um importante acionista da VW, para desenvolver um projeto inicial de defesa para a empresa israelenseRafael Advanced Defence Systems. A produção de automóveis na unidade será encerrada em 2027.

A Rafael, fabricante de sistemas de defesa aérea, mísseis guiados e sistemas de guerra eletrônica, é conhecida pelo Domo de Ferro, o sistema de defesa antiaérea utilizado por Israel.

A empresa também produz o Iron Beam,uma arma a laser projetada para interceptar alvos aéreos. Além disso, fornece o sistema de proteção ativa Trophy, capaz de destruir mísseis e armas antitanque, utilizado nos tanques de guerra Leopard, fabricados naAlemanha.

Sistemas de defesa antiaérea

"Com o acordo de hoje, damos um passo importante para abrir um novo futuro industrial para o local", disse o CEO daVolkswagen, Oliver Blume, assegurando que a empresa "assume sua responsabilidade em relação a Osnabrück".

O acordo garantirá a preservação de pelo menos 1,2 mil dos 1,8 mil empregos na fábrica, segundo o conselho de trabalhadores da VW, após a decisão tomada pela empresa, em 2024, de encerrar a produção de veículos em Osnabrück até 2027.

O projeto com a Rafael estará centrado na possível fabricação de sistemas de defesa aérea e componentes voltados para aAlemanhae outros países europeus, informou a montadora, sem fornecer mais detalhes. O valor da venda também não foi divulgado.

"Estamos construindo uma relação industrial de longo prazo com nossos parceiros alemães, com o objetivo de que a tecnologia seja totalmente produzida naAlemanha, para proteger aAlemanhae a Europa", disse Yoav Tourgeman, presidente e CEO da Rafael.

A unidade de Osnabrück, com 125 anos de história, produz atualmente os veículosT-Roc Cabriolet, bem como os modelosCayman e Boxster para a Porsche, empresa controlada pelo grupoVolkswagen.

Sindicato: VW "não está isenta" de responsabilidade

O futuro a longo prazo de outras quatro fábricas alemãs do grupo VW permanece incerto, enquanto a empresa avança sua estratégia de reduzir custos.

Na semana passada, a direção e os sindicatos concordaram em avaliar "usos alternativos" para essas unidades, ao mesmo tempo em que aprovaram a redução de mais 50 mil postos de trabalho, elevando para 100 mil o total de vagas a serem eliminadas no grupo nos próximos anos.

Até o momento, a gigante automotiva – que engloba dez marcas, incluindo a Audi e a Seat – conseguiu evitar o fechamento de grandes fábricas em seu país de origem ao longo de seus 89 anos de história.

"A medida de hoje abre oportunidades para a unidade, mas não exime aVolkswagenda responsabilidade de criar perspectivas sólidas também para os funcionários restantes", disse Christiane Benner, membro do conselho de supervisão da VW.

VW evita polêmica ao não negociar diretamente com Israel

A venda da fábrica para o estado da Baixa Saxônia e para a Aurelius Capital ajuda a VW aevitar a questão politicamentedelicada de negociar diretamente com uma empresa de defesa israelense.

O Catar, cujo fundo soberano é o terceiro maior acionista da automobilística alemã, não reconhece o Estado de Israel.

O anúncio é a mais recente parceria entre os setores automotivo e de defesa.Em junho, a Mercedes-Benz informou ter fechado um acordo com a fabricante de drones Tytan Technologiespara adaptar algumas de suas vans para operações móveis de defesa contra drones.

Segundo relatos, a Mercedes também manteve conversas com a KNDS – fabricante franco-alemã de tanques e armamentos – sobre a possibilidade de produzir veículos blindados para transporte de pessoal em uma fábrica da empresa.