Vírgula virou 'coisa de IA'? O que explica a polêmica sobre a pontuação nas redes

Vírgula virou 'coisa de IA'? O que explica a polêmica sobre a pontuação nas redes
Debate nas redes associou a pontuação ao ChatGPT, mas especialista diz que explicação está na gramática e nas mudanças provocadas pela comunicação digital.
Depois da polêmica do travessão,que indicaria uso de ChatGPT, agora a vírgula, um dos sinais de pontuação mais utilizados na comunicação escrita, está sob “investigação” de internautas por ser “coisa de IA”.

A polêmica viralizou após uma usuária do X narrar que passou a notar um aumento no uso da vírgula para isolar vocativos (quando chamamos ou falamos com uma pessoa).

Exemplos:Oi, Vanessa / Bom dia, professora / Obrigada, João.

“A vírgula depois do ‘oi’ me incomodava muito e não entendia por que, do nada, todo mundo começou a escrever assim. Até que caiu a ficha: o ChatGPT escreve assim”, dizia a publicação, que foi excluída posteriormente.

A internauta explicou que o estranhamento surgiu porque notou o uso da pontuação em contextos nos quais, antes, a regra era ignorada.

O relato chamou atenção de outros internautas, que se dividiram:

Função da vírgula no vocativo

A vírgula tem diversas funções na gramática:

Mas, nesta reportagem, trataremos da função deisolar o vocativo, que pode ser observado na frase:Letícia, não corra dentro de casa.

Silvia Maria Brandão, especialista em Soluções Educacionais da Arco Educação e doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP, explica que o vocativo sinaliza uma interlocução direta. Ou seja,indica com quem estamos falando.

Na comunicação oral, essa função é marcada pela entonação. Na escrita, a vírgula cumpre a tarefa de indicar como a frase deve ser lida e compreendida.

O elemento é parte da regra padrão da língua e é amplamente utilizado em todas as formas de comunicação que indicam uma fala direta para outra pessoa. Ela aparece, inclusive, na literatura, como mostra o trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis:

Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.– Fique, José Dias.– Obedeço, minha senhora.

O trecho indica uma interação entre a mãe do narrador e um agregado da família e destaca uma interlocução direta entre os dois personagens.

‘Esquecida no churrasco’

A redução do uso da vírgula na comunicação escrita moderna foi uma das mudanças acarretadas pela era digital, caracterizada por umapreferência por abreviações e gírias — e que dispensa o uso de pontuação e acentuação sempre que possível.

Silvia Brandão avalia quea variação informal já está tão disseminada que, em alguns contextos, a falta da vírgula sequer é observada.“Não é raro vermos ‘bom dia mãe/ oi chefe/ oi joão’ — todas estruturas com vocativo, sem vírgula.”

Para ela, a vírgula do vocativo não só foi “esquecida no churrasco”, mas sequer é percebida ou compreendida.

Por este motivo, não é incomum que o aparecimento da vírgula no vocativo cause estranhamento — mesmo que não indique, necessariamente, o uso de inteligência artificial.

Ausência da vírgula pode causar ambiguidade

A especialista avalia que, em alguns contextos, é possível identificar o caráter vocativo de uma oração mesmo sem o uso da vírgula. “Quando se fala ‘Bom dia Maria’, está claro que alguém está se dirigindo à Maria.”

No entanto, não é sempre que isso acontece.

“Em alguns casos, não separar o vocativo com vírgula gera ambiguidades que só aquele sinalzinho poderia eliminar: ‘'É preciso de regime, militar / É preciso de regime militar.’Nesse exemplo, sem a vírgula, a oração ganha outro sentido, bastante diferente", detalha.

Silvia Brandão conclui que as gramáticas normativas servem justamente para evitar ocorrências como essa e reforça que o uso da pontuação correta na comunicação é fundamental, mesmo que mantida somente na comunicação formal.