Os ataques às urnas nas Américas durante eleições e em campanhas eleitorais ao longo de 2026 mostraram que a democracia na regiãoainda convive com a memória do autoritarismo. A ofensiva contra os sistemas de votação vem tanto da direita quanto da esquerda.
Em alguns países, autoridades questionam a segurança do voto ou colocam em dúvida os resultados das urnas, sem apresentar evidências de fraude. Em outros, o problema é mais profundo: instituições eleitorais são pressionadas, opositores são impedidos de disputar eleições ou a própria competição política é restringida.
Em um caso ainda mais grave, o regime foi posto em xeque, a ponto de que os requisitos democráticos deixaram de ser atendidos.
Há um terceiro caso: o da Venezuela, que está sob um governo interino desde a captura do ex-ditador Nicolás Maduro, mas sem qualquer perspectiva de eleições em vista.
Mas, afinal, o que explica essas ofensivas contra as urnas nas Américas?
Segundo a professora de ciência política da USP,Lorena Barberia, o descrédito das urnas na América Latina é o resultado de umpassado autoritário recente. Os países das porções centrais e do Sul do continente ainda lutam para enraizar a cultura democrática.
Já osEstados Unidosvivem um processo inverso, de deterioração das instituições.
Séculos de democracia em risco
Os EUA são a república constitucional contínua mais antiga do mundo, com eleições presidenciais regulares desde 1789. O país só perde o título de democracia mais velha do planeta para a Inglaterra, que adotou o regime parlamentar cem anos antes, em 1689.
➡️Desde a posse de George Washington, após a primeira eleição presidencial realizada entre 1788 e 1789 sob a nova Constituição, os EUA mantém eleições nacionais regulares e transferências de poder por vias institucionais, sem interrupção do calendário eleitoral. Ao longo de mais de dois séculos, o sistema atravessou guerras, crises econômicas, disputas políticas e profundas transformações sociais, preservando a realização periódica de eleições como um dos pilares de sua democracia.
Dois séculos e meio de história democrática não foram suficientes, no entanto, para blindar a democracia americana de ameaças.
Um estudo do Instituto Variedades da Democracia (V-Dem) mostra queos EUA perderam o status de democracia liberalpela primeira vez em mais de meio século de pesquisa. Em apenas um ano, a pontuação dos EUA caiu 24%, e a sua classificação mundialdespencou do 20º para o 51º lugar, entre 179 nações.
“O atual governo dos EUA tem minado os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, politizado o funcionalismo público e os órgãos de fiscalização, e intimidado o Judiciário, além de atacar a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes”, resume o fundador do V-Dem, Staffan Lindberg.
💣Especialistas têm alertado para sinais de erosão democrática nos EUA nos últimos anos, a partir da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Críticos também apontam tentativas de ampliar os poderes do Executivo em detrimento dos mecanismos de freios e contrapesos, incluindo o uso extensivo de decretos presidenciais, disputas com o Congresso sobre gastos públicos e descumprimento ou contestação de decisões judiciais por parte do governo.
Autoritarismo exaltado na América Latina
A professora Lorena Barberia explica que as democracias latinas, por sua vez, sofrem solavancos de quando em quando porqueainda não se estabilizaram- tanto por razões culturais, como o comportamento dos políticos, quanto técnicas, como os mecanismos de estabilidade institucional.
“Os presidentes daqui tem dificuldade de aceitar as derrotas e fazer as transições de poder. Não temos um histórico de desapego do poder. Na maioria das vezes, quando alguém senta na cadeira presidencial, não quer sair mais”, afirma a professora.
O enfraquecimento da democracia está longe de ser uma exclusividade das Américas - ao contrário, é uma tendência global. O mundo inteiro vive uma crise da democracia representativa, em que o sistema eleitoral é um dos alvos preferenciais.
Mas Barbeira explica que essa inclinaçãoencontrou terreno fértil por aquipor dois motivos: a eleição de líderes que fazem apologia aos regimes autoritários do passado e pelas mudanças das regras eleitorais aprovadas por esses mesmo políticos.
Nas últimas duas décadas, mais de25% dos países da América Latina sofreram retrocessos autoritários, mas com uma face de legalidade, segundo um estudo de 2022 liderado por Barberia no instituto Kellogg para estudos internacionais.
Em vez dos golpes militares do século XX, os retrocessos democráticos recentes na Venezuela, na Nicarágua, na Bolívia e no Equador foram conduzidos por presidentes que, após vencerem eleições limpas,alteraram as Constituições e as regras do jogo para se perpetuarem no poder.
Uma vez no cargo, governantes mudaram as leis e as regras das eleições para se manterem no poder a qualquer custo, impedindo a alternância política que dá vida à democracia.
Apesar dos retrocessos, a região mostra resiliência: Bolívia, Equador e Honduras conseguiram realizar novas eleições competitivas e reiniciar suas transições democráticas.
De acordo com os autores do estudo, o cenário deixa claro que a consolidação democrática na região não é um evento rápido, mas um processo longo, sob constante disputa e queexige vigilância contra o autoritarismo disfarçado de legalidade.
O pêndulo latino-americano
Para a professora de relações internacionais da Unifesp,Regiane Bressan, os principais fatores para explicar a instabilidade democrática na América Latina estão odesgaste dos governos,o voto de protesto,a insatisfação dos eleitorese aalternância natural de poder.
"É aquele clássico pêndulo político latino-americano, que tem gerado ciclos de alternância cada vez mais curtos", afirma.
Os Estados Unidos podem, na avaliação dela, aproveitar a mudança política para estreitar relações com governos ideologicamente próximos. Isso não significa, porém, que Washington seja o motor dessas transformações.
🔵A América Latina vive hoje uma guinada à direita chamada de "onda azul"- um movimento oposto à “onda rosa” que levou governos de esquerda ao poder no início da década. Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Panamá, Peru e Colômbiapassaram a ser governados por forças de conservadoras, impulsionadas sobretudo pela insatisfação com a economia, a criminalidade e a instabilidade política.
A geopolítica da crise
Para Bressan,a política externa do governo de Donald Trumptambém tem contribuídopara o enfraquecimento da democracia na região.
A professora explica que a diplomacia legítima pressupõe consentimento, transparência e respeito às instituições do país em questão.
A ingerência ocorre quando um governo estrangeiro tenta "coagir, tutelar e influenciar deliberadamente a escolha do eleitorado e a legitimidade das instituições locais", afirma.
Bressan cita como sinais de interferência, por exemplo, o questionamento da segurança das eleições,ameaças tarifárias,sanções,restrições de vistos, financiamento direto e campanhas digitais coordenadas.
A retomada da Doutrina Monroe
A influência dos EUA sobre a América Latina remonta àDoutrina Monroee atravessa a Guerra Fria, mas mudou de método durante os governos do final do século XX e início do XXI, à medida que Washington passou a enfatizar relações comerciais e cooperação com a América Latina.
➡️ Criada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, a Doutrina Monroe estabelecia que as potências europeias não deveriam interferir nos assuntos do continente americano, sob o princípio de “América para os americanos”. Críticos afirmam que a doutrina serviu para transformar a América Latina no "quintal dos EUA", legitimando intervenções políticas ao longo dos séculos XIX e XX.
O histórico americano de interferência na região inclui episódios documentados:
Após a queda do muro de Berlim, no entanto, a política externa americana mudou de rumo. No governo deBill Clinton, as relações regionais se afastaram da lógica de intervenção direta e passaram a priorizar a democracia, o livre comércio e a integração.
George W. Bushmanteve a defesa de uma "nova parceria" com a região, embora sua diplomacia tenha recolocado a segurança e a luta contra o terrorismo no centro da agenda - com foco no Oriente Médio.
Já no governo deBarack Obama, a ruptura foi explicitada: em 2013, seu secretário de Estado, John Kerry, declarou na OEA que "a era da Doutrina Monroe acabou", defendendo uma relação entre países do continente baseada em igualdade, cooperação e respeito à soberania.
Donald Trump chegou para inverter novamente essa lógica. Inclusive, a política do republicano para a América Latinaganhou o apelido de "Doutrina Donroe"- uma combinação dos nomes Donald e Monroe.
Sob o seu segundo mandato, a estratégia voltou-se paraa pressão econômica, redes sociais e alianças com lideranças ideologicamente próximas, "sem a mediação de ritos diplomáticos tradicionais ou pudor em relação à intervenção", explica Bressan.
A professora afirma que esse histórico, porém, não significa que as recentes mudanças políticas na América Latina sejam resultado direto de um plano coordenado pelos EUA. As intervenções ocorreram em contextos específicos, e os ataques ao sistema eleitoral são influenciados principalmente por fatores domésticos.
Raio X da ofensiva aos sistemas eleitorais
Donald Trump tem atuado para restringir o voto pelo correio nos EUA e afirma que o sistema é suscetível a fraudes. Mas o próprio Trump recorreu à modalidade em diferentes eleições, inclusive recentemente.
O caso foi parar na Justiça americana - com vitórias tanto do governo federal, quanto dos estados contrários à ofensiva.
Críticos afirmam as investidas de Trump ampliam o poder federal sobre eleições administradas pelos estados e podem reduzir o acesso às urnas. Além disso, dados apontam que os eleitores democratas — que costumam se opor a Trump — são mais propensos a usar o voto pelo correio do que os republicanos.
Na Colômbia, o ex-presidenteGustavo Petroquestionou a apuração das urnas elevantou suspeitas de fraude,após a vitória do conservador Abelardo de la Espriellaem julho deste ano. Petro havia apoiado o candidato governista Iván Cepeda.
As acusações, porém, não foram confirmadas por observadores independentes.A missão eleitoral da União Europeia classificou a apuração como transparentee eficiente e afirmou não ter encontrado inconsistências ao comparar atas eleitorais com os votos físicos. O órgão eleitoral colombiano também informou que a revisão de quase todas as mesas mostrou apenas uma diferença mínima em relação à contagem preliminar.
No Peru, a eleição presidencial de 2026 foi marcada por problemas logísticos e por uma disputa apertada que alimentou acusações de fraude. O segundo turno foi disputado porKeiko Fujimori e Roberto Sánchez.
Após sair derrotado, Sánchez também questionou parte da votação, principalmente os votos no exterior, e chegou a afirmar que poderia não reconhecer o resultado.
Observadores da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia, porém, afirmaram que não encontraram evidências de fraude. A Defensoria do Povo peruana chegou à mesma conclusão, embora tenha apontado falhas logísticas e problemas de coordenação entre órgãos eleitorais.
O senador e candidato à presidência,Flávio Bolsonaro, promoveu um encontro com diplomatas estrangeiros em 21 de julho - ainda na pré-campanha eleitoral -e lançou dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas brasileiras.
Flávio associou os equipamentos utilizados no pleito do Brasil a máquinas da empresa venezuelana Smartmatic, que já foi alvo de acusações de fraude na Venezuela.
OTribunal Superior Eleitoral(TSE) esclareceu que a empresanão fornece as urnas usadas nas eleições brasileirase que todo o projeto do sistema de votação é desenvolvido e administrado pela Justiça Eleitoral.
Questionado sobre o tema em entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto, Flávio negou ter duvidado da confiabilidade do sistema eleitoral e disse que respeita o processo eleitoral:
"Quero dizer a todos vocês que vou respeitar o processo eleitoral, vou respeitar o resultado das eleições. Eu estou concorrendo com essas regras, eu vou ser presidente da República com essas regras."
Em seguida, Flávio foi questionado se respeitará o resultado das urnas, mesmo se perder. E respondeu:
"Com certeza eu vou adorar que você anuncie o meu nome como presidente naquela bancada do Jornal Nacional."
A apresentadora Renata Vasconcellos insistiu na pergunta: "E se perder, candidato?". Flávio respondeu:
"Eu não vou perder essa eleição. E eu digo mais: vou ganhar no primeiro turno".
O candidato também reconheceu ter divulgado uma informação errada ao afirmar que uma empresa venezuelana fabricava urnas usadas no Brasil.
“Eu disse que a empresa que fez as urnas eletrônicas era uma empresa venezuelana. Falei errado. Ela apenas participou de alguns processos ao longo do processo eleitoral que o TSE estava organizando."
Na Nicarágua, a crise eleitoral avançou para um estágio mais radical. O governo deDaniel Ortegaaprovou uma reforma queexclui a oposição das eleições. A medida aprofunda um processo de concentração de poder iniciado após o retorno de Ortega ao governo, em 2007, e escancaraa ditadura familiarno país.
As últimas eleições presidenciais, em 2021, ocorreram depois da prisão de adversários políticos e foram amplamente contestadas internacionalmente. Desde então, reformas constitucionais ampliaram o poder de Ortega e de sua mulher, Rosario Murillo, que passou a ocupar o cargo de copresidenta.
A Venezuela não é entendida como uma democracia. Nos últimos anos, o país foi amplamente classificado por especialistas, organizações internacionais e governos estrangeiros comoum regime autoritário. No entanto, a captura do ex-ditador Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, colocou novamente em perspectiva a realização de eleições justas no país.
No entanto, não há se quer uma data para a realização do pleito. No início do mês, Trump afirmou quea Venezuela ainda "não está pronta" para realizar eleições. A fala foi endossada pela presidente interina, Delcy Rodrigues - que conta com o apoio dos Estados Unidos.
Urnas sob ataque nas Américas: o que explica a ofensiva de políticos contra o sistema eleitoral na região
O passado autoritário do continente e a influência dos Estados Unidos nas disputas regionais têm posto o sistema de votação no centro nas américas do Sul, Central e do Norte.