Surto de hantavírus: desembarque nas Ilhas Canárias gera crise política e deve acontecer em meio a protestos

Surto de hantavírus: desembarque nas Ilhas Canárias gera crise política e deve acontecer em meio a protestos
Governo das Ilhas Canárias amenizou críticas após saber que o navio não atracaria no cais. Segundo especialista, autoridades locais não podem fechar a rota marítima, mas podem barrar o desembarque no porto.
Os 147 passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius, atingido por um surto de hantavírus, devem desembarcar nas Ilhas Canárias neste domingo (10). A chegada acontece em meio a um impasse político interno e deve gerar protestos locais.

Isso porque o governo local das Ilhas Canárias, pertencentes à Espanha, se posicionou, ao menos em um primeiro momento, contra a decisão do governo federal espanhol de receber a embarcação.

Governo espanhol x Ilhas Canárias

O navio, que saiu de Ushuaia, na Argentina, no início de abril, originalmente desembarcaria em Cabo Verde, na África, no dia 6 de maio, mas o governo local não aceitou receber os passageiros após saber dos casos da doença. (veja mapa abaixo)

🔎Três pessoas que viajam no cruzeiro morreram e outras oito pessoas que estavam a bordo estão com suspeita de ter contraído o hantavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde.Leia mais aqui sobre o vírus.

Apesar disso, à pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS), o governo da Espanha aceitou nesta terça-feira (5) receber os passageiros nas Ilhas Canárias.

“A Organização Mundial da Saúde explicou que Cabo Verde não tem capacidade para realizar essa operação”, afirmou o ministério da saúde espanhol. “As Ilhas Canárias são o local mais próximo com a estrutura necessária. A Espanha tem obrigação moral e legal de ajudar essas pessoas, entre as quais também há vários cidadãos espanhóis.”

Mas o governo local das Ilhas Canáriasse manifestou contraa determinação das autoridades federais.

"Esta decisão não se baseia em quaisquer critérios técnicos, nem existem informações suficientes para tranquilizar o público ou garantir a sua segurança", disse o líder do governo canário, Fernando Clavijo, à rádio "COPE", nesta quarta-feira (6).

De acordo com o jornal espanhol El País, as declarações causaram tensão entre os dois poderes, já que as autoridades federais viram as falas de Clavijo como "irresponsáveis" por propagarem medo entre a população.

Nesta quinta-feira (7), contudo, o líder canário conversou com autoridades federais e parece ter acalmado os ânimos. Isso porque ele foi informado pelo governo federal de que onavio não vai atracar no porto e ficará ancorado próximo ao local.

"Consideramos isso uma ótima notícia, pois reduz as potenciais fontes de infecção e risco, e, consequentemente, a evacuação desses passageiros será realizada por meio de um navio, um navio-base que poderá sair, buscá-los, transportá-los e levá-los ao aeroporto", disse Clavijo à imprensa local.

A melhora na relação entre o governo local e o federal é fundamental nesse caso, de acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade Harvard Vitelio Brustolin.

"Apesar de o governo federal ter controle sobre o espaço marítimo nacional, o que impede o governo canário de fechar a rota, a autoridade local controla a infraestrutura terrestre e a segurança pública imediata e, por isso, tem poder para exigir que a operação não ocorra no cais", explica.

Apesar de o impasse político ter sido contornado, ainda há oposição local. Na sexta (8), houve uma manifestação local em Santa Cruz, região do porto de Tenerife, contrária ao desembarque do navio(veja abaixo).

Desembarque em Tenerife

A previsão é que o navio MV Hondius ancore no porto de Granadilla, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, neste domingo pela manhã. O local estará isolado, e não haverá nenhum contato com a população, segundo o governo espanhol.

Depois do desembarque, as 147 pessoas a bordo, entre passageiros, tripulação e médicos, passarão por quarentena e serão repatriadas.

Segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), nenhum dos passageiros está com sintomas da doença.

Os passageiros serão transferidos em botes infláveis e enviados diretamente para aeronaves privadas contratadas pelos governos de seus países, para onde voarão.

Os únicos que vão ficar na Espanha são os14 espanhóis a bordo,que serão levados em um avião militar para o Hospital Gómez-Ulla, em Madri, onde ficarão de quarentena.