Um documento oficial do Ministério da Saúde, emitido em 22 de janeiro de 2026 e obtido pelog1,contradiz uma resposta apontada como corretapelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)no gabarito da primeira etapa do Revalida 2025.02.
A questão que apresentou divergência aborda aprofilaxia da malária em regiões endêmicasdo Brasil(entenda mais abaixo).
Candidatos pedem a anulação da pergunta e afirmam queum ponto a mais na nota teria sido decisivo no resultado final.É o caso de Vitória Sampaio, de 29 anos, brasileira que se formou em medicina na Universidade Upal, em Cochabamba.
“Eu e muitas pessoas seríamos beneficiadas por esse ponto, que é legítimo e tem base sólida e irrefutável. Estamos em uma situação complicada, de angústia e de injustiça", diz.
➡️O Revalida, cujos resultados foram publicados em dezembro de 2025, habilita quemédicos formados no exterior possam trabalhar no Brasil, desde que atinjam o desempenho mínimo nos testes.Classificaram-se para a segunda fase aqueles que acertaram ao menos 61 das 100 questões objetivas.
Qual é a pergunta discutida?
Candidatos reivindicam o cancelamento da pergunta 40, que apresenta o caso de uma médica jovem e saudável que trabalhará em uma comunidade indígena na Amazônia.
Quem fez a prova teve deidentificar o método preventivo medicamentoso mais adequado para a profissional, considerando que ela atuará em uma área endêmica de malária.
As alternativas listam diferentes remédios, exigindo que o candidato selecione a quimioprofilaxia correta para evitar a infecção durante o trabalho de campo. Segundo o gabarito, a resposta correta é doxiciclina.
O que o Ministério da Saúde afirma a respeito disso?
Uma das candidatas do Revalida enviou à pasta uma solicitação de informação pela plataforma Fala.Br. Ela pergunta quais são as diretrizes no Brasil para a profilaxia da malária:
A resposta, enviada em documento protocolado pela Coordenação-Geral da Eliminação da Malária, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, foi a seguinte:
“Não há recomendação de quimioprofilaxia para moradores ou profissionais de saúde residentes ou atuantes na região amazônica e demais regiões do território nacional.O Brasil, especialmente na região amazônica, conta com uma rede descentralizada de serviços de diagnóstico e tratamento da malária, que assegura, de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a realização do exame diagnóstico oportuno e a dispensação do tratamento nos casos confirmados.”
Na segunda pergunta enviada, o Ministério reafirma que não há profilaxia na recomendação brasileira:
“Não há indicação de quimioprofilaxia da malária para moradores ou profissionais de saúde no contexto nacional.
No Brasil, há predomínio de casos causados por Plasmodium vivax, espécie para a qual a eficácia da quimioprofilaxia é considerada baixa. Considerando a malária por Plasmodium falciparum, a profilaxia pode não assegurar a proteção ou cura do paciente, além de favorecer o surgimento de resistência aos antimaláricos utilizados.Dessa forma, considerando a ampla cobertura da rede de diagnóstico e tratamento da malária no país, não se recomenda a quimioprofilaxia para viajantes em território nacional.”
Nenhuma das alternativas da questão, portanto, seria válida.
Qual foi a alternativa apontada como correta pelo Inep?
Em entrevista aog1em dezembro de 2025, logo após a divulgação dos gabaritos, o infectologista da Fiocruz Marcus Lacerda, diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial de Saúde (OMS), já havia afirmado que a avaliação de casos como o da médica da Amazônia é a feitacaso a caso, sem apoio de diretrizes nacionais do Ministério da Saúde.
"Nessa região amazônica, a profilaxia deve ser direcionada sobretudo aoPlasmodium falciparum, já que para malária vivax é limitada. Hoje, a única opção para vivax é a tafenoquina, que no Brasil está aprovada apenas para tratamento, não para profilaxia", explica.
“Considerando isso, o artesunato é descartado porque não existe em apresentação oral, apenas injetável. A cloroquina também está contraindicada, pois só atua na profilaxia da malária vivax e não é eficaz contra o falciparum, comum na Amazônia. Assim, a melhor e única alternativa viável é adoxiciclina, que tem boa eficácia contra o Plasmodium falciparum e é a opção utilizada na prática quando o benefício da profilaxia supera os riscos.”
Diante do documento enviado pela pasta, Marcus reforça o que já havia explicado:
“A minha resposta foi referente à literatura médica mundial disponível [que aponta para a possibilidade do uso de doxiciclina]. Mas, como eu disse, o Ministério da Saúde não faz essa indicação”, afirma.
➡️Como a questão deixa claro que o caso fictício é no Brasil, dentro do Programa Mais Médicos, o esperado é que as diretrizes do país sejam levadas em conta pelo Inep na formulação do gabarito.
O edital do Revalida afirma que a prática médica avaliada na prova deve estar alinhada ao funcionamento e às exigências do sistema público de saúde do Brasil (SUS), que é gerido pelo Ministério da Saúde.
Og1entrou em contato com o órgão do Ministério da Educação (MEC), apresentou os documentos enviados pelo Fala.Br e questionou se a pergunta será anulada. Até a última atualização desta reportagem, não havia recebido resposta.
Por que a mesma questão foi anulada no Enamed, mas não no Revalida?
Como og1mostrou em 15 de dezembro,três questões exatamente iguais estavam presentes tanto no Enamed quanto no Revalida, mas só foram anuladas no primeiro. Uma delas era justamente a da malária.
Ter conteúdos iguais não é um problema, já que a aplicação dos testes ocorreu no mesmo dia, em 19 de outubro.Segundo o Inep alegou à época, a pergunta da quimioprofilaxia só foi cancelada no Enamed por questões técnicas relacionadas à Teoria de Resposta ao Item (TRI)", como "ajustes estatísticos", e não por erro conceitual.Entenda aqui.
Revalida: documento do Ministério da Saúde contradiz gabarito do Inep; candidatos pedem anulação de questão
Pergunta sobre malária discute qual seria o medicamento adequado para proteger uma médica que atuaria em região endêmica da Amazônia. Diretriz do Ministério da Saúde, no entanto, diz que não há indicação para profilaxia neste caso. Pergunta estava na prova do Revalida, usada para avaliar médicos que se formaram no exterior e que desejam atuar no Brasil.