Desde o início da semana, quando a Polícia Federal divulgou que uma pesquisadora teria furtado material biológico de um laboratório daUnicamp, surgiram as seguintes dúvidas:
Veja as respostas abaixo.No fim da reportagem, leia um resumo do caso da Unicamp.
🧫 Por que manter um 'estoque' de vírus causadores de patologias graves é tão importante para a ciência?
Em primeiro lugar, é fundamental entender por que as instituições de ensino precisam armazenar vírus, bactérias e fungos vivos.
“São várias possibilidades: com vírus, por exemplo, nós expandimos o material e o multiplicamos, para entender a estrutura dele e o modo como causa a doença”, explica Paulo Sanches, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas daUnespe coordenador do Laboratório de Virologia.
“É assim que conseguimos posteriormente desenvolver vacinas e antivirais. O risco é mínimo, ainda mais se formos avaliar os benefícios. Em 2015, na epidemia de zika, o vírus foi isolado, ampliado em laboratório de contenção e estudado em minicérebros para compreender como ele se multiplicava.”
🦠 Que tipos de vírus e de outros microrganismos vivos são mantidos em universidades?
Tudo depende do nível de biossegurança (NB) do laboratório— ou seja, do nível de contenção necessário para que os cientistas, os animais, o meio ambiente e a população em geral não sejam colocados em risco.
Os critérios básicos são:
“As micobactérias da tuberculose (Mycobacterium tuberculosis) que cultivamos em laboratório, por exemplo, são multirresistentes a drogas. O pesquisador não pode se contaminar, porque não existe tratamento. Por isso, exigem um nível de cuidado maior”, explica Edison Luiz Durigon, professor titular de virologia na Universidade de São Paulo (USP).
Ao todo, existem 4 níveis de segurança:
Lactobacillus spp; Bacillus subtilis;Microbiota normal (bactérias da flora humana que não possuem potencial patogênico reconhecido)
Schistosoma mansoni(esquistossomose); vírus da rubéola;Clostridium tetani(tétano); Vibrio cholerae (cólera)
“O vírus da febre amarela, em tese, pode ser trabalhado em NB2, porque existe vacina. Mas eu prefiro usar o NB3 para ter mais estrutura e equipamentos melhores”, conta Durigon, da USP.
Mycobacterium tuberculosis(tuberculose);Bacillus anthracis(antraz ou carbúnculo, doença infecciosa grave que pode afetar pele, pulmões ou trato gastrointestinal);Yersinia pestis(peste);SARS-CoV(Síndrome Respiratória Aguda Grave); H5N1 (gripe aviária); vírus do Nilo Ocidental
“No meu laboratório [NB3, na USP], tenho zika, SARS-CoV, chikungunya, gripe aviária… Como há estrutura para isso, a população não fica em risco”, explica Durigon.
Sanches, da Unesp, explica que os vírus são mantidos congelados em freezers ou contêineres, a temperaturas baixíssimas (-80°C a -150°C). Quando o pesquisador vai manipular o material, faz o descongelamento e, depois de tudo, a destruição do vírus em alta temperatura.
Vírus ebola (febre hemorrágica por ebola); vírus da varíola; vírus marburg (febre hemorrágica de Marburg); vírus lassa (febre de Lassa); vírus sabiá (febre hemorrágica brasileira)
😷 Como funciona um laboratório com 'o maior nível de biossegurança disponível no Brasil', como os da Unicamp, da USP, da UFMG e da Unesp?
A professora Rejane Maria Tommasini Grotto, da Unesp de Botucatu, explica queos laboratórios NB3 seguem protocolos rigorosos de contenção e de segurança. Segundo ela, esses espaços ficam em áreas de pequena circulação, têm entrada altamente controlada (por digitais, reconhecimento facial ou senha) e só podem ser acessados por profissionais com treinamento específico.
Ela detalha que o ambiente conta com sistema próprio de exaustão com filtros de ar, de forma que nada do que entra consiga sair para o meio ambiente.E tudo o que é manipulado ali — inclusive o lixo — precisa ser autoclavado (processo de esterilização a vapor sob alta pressão e temperatura) antes de deixar o local.
Entre as características desses laboratórios, estão:
“Você entra na antessala e, só depois de fechar a primeira porta, consegue abrir uma segunda, que leva à área de paramentação, onde vai vestir o macacão especial, as botas e as luvas. Só depois de estar paramentado é que entra na área de manipulação”, explica a professora.
“Se todos os procedimentos forem seguidos, não existirá risco para o operador nem para o ambiente.”
✈️ Vírus podem ser transportados?
Sim, o transporte de vírus e outros materiais biológicos é uma prática rotineira e essencial na ciência mundial. Ele permite o intercâmbio de amostras entre universidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento de vacinas e diagnósticos.
Segundo o professor Durigon, esse trânsito ocorre globalmente sob protocolos de segurança rigorososque garantem que o material não represente risco, mesmo em casos de acidentes durante o trajeto.
Para garantir a segurança, o transporte deve seguir normas técnicas específicas, como as da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), e envolver as seguintes medidas:
⚫Embalagem Tripla Licenciada:O material infeccioso é colocado em um frasco rígido, envolvido por papel absorvente com desinfetante imediato (que mata o vírus em caso de vazamento) e protegido por uma segunda e uma terceira camadas de embalagem. Essas embalagens são projetadas para resistir a quedas de mais de um metro sem sofrer danos.
⚫Controle de Saída:Nos laboratórios de alta segurança (NB3), o material é retirado por um armário de porta dupla. Antes de sair, a embalagem externa pode passar por desinfecção com lâmpada UV germicida e, em alguns casos, borrifamento de desinfetante.
⚫Condições de Preservação: Como os vírus são sensíveis, eles são transportados em condições de congelamento, utilizando freezers de -80°C ou contêineres de nitrogênio líquido a -153°C para manter a viabilidade da amostra.
⚫Documentação e Credenciamento:O transporte só pode ocorrer entre laboratórios credenciados e com as devidas autorizações nacionais e internacionais, envolvendo órgãos como a Anvisa no caso de trâmites internacionais.Esse material jamais é enviado pelo correio comum.
⚫Treinamento Profissional:Apenas pesquisadores devidamente treinados e qualificados podem manipular e preparar essas amostras para o transporte.
Sem o transporte e cultivo de vírus como o SARS-CoV-2 e o Zika, o país não teria ferramentas para diagnosticar doenças ou realizar testes de antivirais em larga escala.
Resumo do caso da Unicamp
Antes, confira um resumo do que ocorreu na Unicamp:
⭕Suspeita:A professora doutora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, foi presa em flagrante pela Polícia Federal em 23 de março de 2026, suspeita de furtar material biológico (amostras de vírus) de um laboratório de virologia do Instituto de Biologia da universidade.
⭕Material furtado:As amostras, que desapareceram em 13 de fevereiro de 2026, incluíam vírus como H1N1 e H3N2 (causadores da gripe tipo A). O material foi transportado sem autorização para laboratórios da FEA, dentro da própria Unicamp.
⭕Investigação:A PF instaurou inquérito após a Unicamp acionar a polícia. Os laboratórios envolvidos foram interditados, e o material, recuperado e encaminhado para análise. As autoridades descartaram risco de contaminação externa à população.
⭕Situação judicial:Soledad foi liberada provisoriamente pela Justiça Federal em 24 de março. Ela responderá em liberdade por: furto, exposição da saúde pública a risco e transporte irregular de material biológico geneticamente modificado.
⭕Outros envolvidos:O marido da pesquisadora, Michael Edward Miller (veterinário e doutorando na Unicamp), também é investigado pela PF por possível envolvimento no caso.
⭕O que diz a defesa:Soledad Palameta Miller (36 anos, argentina) desenvolve pesquisas sobre criação de vacinas e estudo de doenças em animais, incluindo zoonoses. A defesa alega que não houve furto, mas uso compartilhado de estrutura por falta de laboratório próprio na FEA.
Quais vírus perigosos são mantidos em laboratórios de universidades? Entenda por que cientistas armazenam microrganismos vivos
Episódio de furto de material biológico na Unicamp levantou dúvidas a respeito do armazenamento de vírus, bactérias e fungos em laboratórios de grandes universidades.