Presença de peixe da Amazônia no Rio Araguaia acende alerta entre especialistas: ‘Risco ecológico grande’

Presença de peixe da Amazônia no Rio Araguaia acende alerta entre especialistas: ‘Risco ecológico grande’
O tambaqui é considerado um peixe oportunista por se alimentar de tudo que está disponível. Ao g1, o biólogo e professor da UEG, Fabrício Teresa fala sobre a rápida proliferação desse peixe em águas goianas.
A presença do tambaqui no Rio Araguaia está preocupando os especialistas. Originário da Bacia Amazônica, o peixe éconsiderado um "oportunista" por se alimentar de tudo o que encontra, o que pode desequilibrar o ecossistema local. Aog1, o biólogo e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Fabrício Teresa explicou que a rápida proliferação da espécieem águas goianas ameaça a biodiversidade e pode trazer prejuízos econômicos à região.

"O risco ecológico é grande e tende, no longo prazo, também a trazer riscos econômicos, já que o equilíbrio do ecossistema é o que garante que a gente tenha pesca e um ambiente conservado", afirmou o pesquisador.

Fabrício explicou que a presença do peixe é o resultado provável de escapes de pisciculturas da região ocorridos há mais de uma década. Segundo o professor, orompimento de tanques durante grandes chuvas é a principal causa da invasão.

O pesquisador explicou que a espécie já está plenamente estabelecida e em fase de reprodução no rio. Ele informou que estudos recentes confirmaram a presença degrandes populações, além de ovos e larvas, o que descarta a possibilidade de serem registros pontuais ou isolados na bacia.

"O tambaqui tem umhábito oportunista, quer dizer, ele come o que tem disponível. Ecome fruta da época; come até peixes, larvas, come pequenos organismos chamados zooplâncton, come plantas. Por ter esse hábito oportunista, ele pode estar comendo várias espécies nativas", destacou.

Comportamento alimentar

Um dos principais problemas apontados é ocomportamento alimentar do peixe, que consome desde frutas e plantas até larvas e pequenos organismos. Por ser oportunista, ele encontra condições ideais para prosperar, competindo diretamente por recursos com espécies locais, como a caranha.

"Como ele é um peixe que fica às vezes nadando contra a corrente, filtrando a água... se ele está comendo zooplâncton, ele deve também consumir ovos e larvas de peixes durante a piracema, porque esses ovos e larvas vão descendo o rio", disse.

O professor alertou ainda para o risco de hibridização, já que o tambaqui pode cruzar com peixes nativos e gerar descendentes férteis. Esse processo pode causar a deterioração genética de espécies do Araguaia, além de introduzir parasitas para os quais a fauna local não possui defesa.

Embora o tambaqui tenha agradado pescadores esportivos pelo vigor na pesca, o especialista reforça que o benefício imediato esconde uma ameaça futura. Ele explicou que o desequilíbrio ecológico pode, a longo prazo, prejudicar a própria atividade econômica e o turismo da região.

Para tentar controlar a população, a recomendação atual é que os pescadores realizem o abate e retirem o peixe do ambiente sempre que pescá-lo. O professor ressaltou que a legislação permite essa prática como uma forma de contribuição para conter o avanço da espécie invasora.

‘Invasor do Araguaia’

Para entender profundamente esses impactos, o professor coordena o projeto multidisciplinar "O Invasor do Araguaia: estudo multidisciplinar dos padrões ecológicos e genéticos do tambaqui". O estudo analisa a dieta e a reprodução da espécie. O mesmo estudo busca detalhar como o peixe interage com o ecossistema para subsidiar estratégias de conservação e manejo.

Nas redes sociais, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade e Uso Sustentável de Peixes Neotropicais (INCT Peixes) e o professor Fabrício compartilham vídeos sobre o trabalho de pesquisa do tambaqui no Rio Araguaia.

O professor explicou em vídeos que o tambaqui é muito cultivado na aquicultura, e as pessoas gostam de consumi-lo, mas ele não é natural da bacia do Araguaia e pode ameaçar a manutenção de espécies pequenas.

“Será que essa espécie, apesar de ser boa pra pescar, não vai fazer a gente pescar menos outras espécies que a gente quer?", destacou Fabrício.

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