Uma investigação daPolícia Federal,ao qual o Fantástico teve acessoneste domingo (22), expôs novamente a complexidade e o alcance das organizações criminosas envolvidas em fraudes de concursos públicos.
O esquema que, segundo a PF, incluía o chefe de polícia de Alagoas como um dos mentores. Os crimes atingiram processos de grande porte, como o Concurso Nacional Unificado (CNU), além de concursos das Polícias Civis, daCaixa Econômica Federale doBanco do Brasil.
🔍Mas como essas quadrilhas conseguem burlar protocolos de segurança cada vez mais rigorosos e movimentar cifras milionárias em troca de vagas no serviço público?
A resposta pode estar na combinação de técnicas sofisticadas, na exploração de brechas e nas falhas de fiscalização que nem sempre são perceptíveis.
Entre os métodos mais comuns identificados pelas autoridades estão:
Esses métodos demonstram que as quadrilhas não atuam de forma amadora. Elas operam como organizações estruturadas, com divisão de tarefas, hierarquia definida, ramificações em diversos estados e serviços complementares — desde quem aplica as provas até operadores financeiros que administram os lucros obtidos ilegalmente.
Os valores envolvidos são milionários. A Polícia Federal afirma que os valores cobrados variavam conforme o cargo.Para funções mais altas, como é caso de auditor fiscal, o preço podia chegar a R$ 500 mil por aprovação.
Ainda segundo a PF, alguns beneficiados não tinham condições de pagar à vista e faziam acordos, incluindo parcelamentos e entrega de bens como carros e viagens.
Um dos personagens centrais do esquema é Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido como “Mister M”. Ele trabalhava na Cesgranrio, organizadora do CNU e, depois, entrou no Tribunal Regional da Paraíba.
Segundo a PF, ele teve acesso antecipado às provas e explicava como violar os envelopes sem deixar vestígios. "O lacre é fácil demais, tanto romper e botar de novo", disse em um dos áudios vazados.
Além da abertura indevida dos pacotes de provas, a PF identificou o uso de pontos eletrônicos, fotografias de cadernos de questões e até a atuação de pessoas contratadas para fazer provas no lugar dos candidatos inscritos.
Tudo começou com uma denúncia anônima que levou os investigadores até o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, na cidade de Patos, na Paraíba. Ele e dois parentes foram aprovados no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024 para o cargo de auditor fiscal do trabalho, com salário superior a 22 mil reais.
No celular da sobrinha dele, Larissa Neves, a polícia encontrou áudios que ajudam a explicar o esquema. Em uma conversa, o irmão de Wanderlan detalha a necessidade de subornar vigilantes, desligar câmeras e até usar um “boneco” — alguém pago para fazer a prova no lugar do candidato.
Horas antes da prova para auditor fiscal, Larissa enviou mensagens para o pai cobrando as respostas. A investigação aponta que, antes mesmo do início do exame, ela já tinha recebido o tema da redação e o gabarito.
Na última semana, a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão em Alagoas, Paraíba e Pernambuco. Dois professores suspeitos de resolver provas para candidatos foram presos. O delegado-geral de Alagoas foi alvo de busca e apreensão.
O advogado José da Silva Moura Neto, especialista em concursos públicos, ressalta que, embora as bancas tenham reforçado os protocolos de segurança, os métodos utilizados pelas quadrilhas também evoluíram.
"Há casos de vazamento de provas. Em um deles, envolvendo o Cespe, uma quadrilha fazia a prova e repassava as respostas ao candidato", explica Moura Neto. "Hoje, esse tipo de operação está mais difícil, porque as bancas dividiram etapas e reduziram o acesso integral ao material".
Apesar disso, o especialista ressalta que essas organizações se adaptam: mudam os alvos, utilizam tecnologia e contam com redes que atuam em diferentes estados.
Ele também destaca que provas discursivas funcionam como barreira extra:
“A dissertação dificulta a fraude porque exige produção própria. É uma proteção importante, mas não elimina outras formas de manipulação.”
Esse não é um caso novo. Em outubro do ano passado, a Polícia Federal deflagrou uma operação querevelou um esquema de fraudes em concursos públicos que funcionava como uma empresa familiar.
O grupo, com base em Patos, no Sertão da Paraíba,cobrava até R$ 500 mil por vaga e usava tecnologia para burlar os sistemas de segurançadas bancas, incluindo dublês, pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e comunicação em tempo real durante as provas.
Os valores exigidos variavam conforme o cargo e o grau de dificuldade do concurso e, além de dinheiro vivo, o grupo aceitava pagamentos em ouro, veículos e até procedimentos odontológicos como forma de quitar a propina, segundo a investigação.
De acordo com o relatório apresentado pela PF, o esquema era liderado por Wanderlan Limeira de Sousa, ex-policial militar expulso da corporação em 2021 –mesmo nome citado na reportagem do Fantástico.
Ele é apontado como o principal articulador da quadrilha, responsável por negociar com candidatos, coordenar a logística das provas e distribuir os gabaritos. Em dezembro,o Hospital Regional de Patos informou que ele morreu após sofrer com problemas de coagulação.
A investigação indica que os crimes já aconteciam há mais de uma década. Durante todo o período, o grupo teria vendido aprovações, corrompido agentes de fiscalização e utilizado mecanismos sofisticados de fraude e falsificação para garantir cargos de alto escalão.
Segundo a PF, as fraudes alcançaram concursos da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Polícias Civil e Militar, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Banco do Brasil e até o Concurso Nacional Unificado (CNU).Relembre o caso:
O que acontece se a fraude for identificada?
Além da anulação das aprovações e da exclusão dos candidatos, servidores já nomeados podem ser afastados e responder a processos disciplinares e penais.
Os envolvidos podem ser enquadrados por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal informou que, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Gestão e Inovação, estáampliando os mecanismos de fiscalização para garantir mais segurança,transparência e integridade nos concursos realizados em todo o país, inclusive noCNU, que foi aplicado em outubro do ano passado.
Entre as ações que diferenciam esta edição da primeira, realizada em 2024, estão:
Ponto eletrônico, 'boneco' e outros métodos: como quadrilhas fraudam concursos e faturam milhões
Investigações mostram como grupos criminosos burlam protocolos de segurança de concursos de grande porte, envolvendo desde dispositivos eletrônicos a operações financeiras complexas.