A corrida é um dos esportes mais praticados no Brasil. Com a popularização da modalidade, diferentes alternativas têm surgido nas redes sociais, inclusive soluções mais baratas para quem quer praticar.Uma das mais virais é o uso de “óculos de pedreiro” durante os treinos.A prática levantou dúvidas sobre proteção e eficiência. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam se eles podem ou não ser usados e se a economia vale a pena.
Um óculos de corrida custa, em média, entre R$ 150 e R$ 300 e é indicado para proteger os olhos contra raios UV, vento e poeira, além de reduzir a fadiga visual em exercícios ao ar livre. Já os óculos usados por trabalhadores da construção civil e outras ocupações custam, em média, de R$ 20 a R$ 30.A diferença de preço gerou questionamentos sobre possíveis equivalências, mas especialistas afirmam que as funções são distintas.
“Para prática esportiva ao ar livre, recomenda-se o uso de óculos com proteção UV certificada e design adequado para estabilidade, ventilação e amplo campo visual. Modelos específicos para esporte tendem a oferecer melhor desempenho e segurança”, afirma o médico Oswaldo Ferreira Moura Brasil, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO).
O Certificado de Aprovação e atesta que o EPI segue normas técnicas e foi testado para proteção contra impactos e partículas. O selo, porém, não avalia a qualidade óptica das lentes, o que significa que óculos seguros para o trabalho podem não garantir boa visão para atividades esportivas(veja mais abaixo).
O Brasil já conta com mais de14 milhões de corredores de rua amadores, segundo um levantamento da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).
O que muda na prática?
Os óculos EPI (Equipamento de Proteção Individual) são desenvolvidos prioritariamente para proteção contra impactos, partículas, respingos químicos e outros riscos ocupacionais.O foco é a segurança no ambiente de trabalho, seguindo normas técnicas específicas.
Já os óculos esportivos são projetados para desempenho em movimento: leveza, estabilidade no rosto, ventilação adequada, maior campo visual, conforto prolongado e qualidade óptica compatível com atividades dinâmicas ao ar livre. Além disso, costumam oferecer proteção UV e controle de luminosidade mais adaptados à prática esportiva.
Embora ambos possam oferecer proteção mecânica, possuem finalidades e características técnicas diferentes.
“Não há evidências robustas de que o uso ocasional de óculos EPI durante a corrida aumente diretamente o risco de acidentes.A principal diferença está relacionada a conforto, adaptação ao movimento e qualidade óptica.Alguns fatores podem influenciar a experiência e a segurança, como menor campo visual, ventilação insuficiente e possíveis distorções periféricas”, diz Oswaldo.
Segundo o presidente da SBO, nem todo EPI possui filtro UV adequado para exposição solar prolongada.Caso a lente seja escura, mas não tenha proteção UV comprovada, pode haver risco aumentado de dano ocular. Por isso, a proteção solar deve sempre ser verificada.
A oftalmologista Ione Alexim, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que, na corrida, entram fatores que o EPI não necessariamente atende, como estabilidade diante de impacto repetitivo, ventilação para evitar o embaçamento com suor, distribuição de peso no rosto e campo visual ampliado, sem interferência lateral.
Certificado de Aprovação assegura proteção durante a corrida?
O CA (Certificado de Aprovação) é um número emitido pelo Ministério do Trabalho que atesta a conformidade do EPI com normas técnicas, como a NR-6. Ele garante que o produto foi testado para proteção contra impactos, luz intensa, detritos ou produtos químicos.
“O Certificado de Aprovação não avalia a qualidade óptica da lente. Ele avalia principalmente a resistência a impactos, a proteção contra partículas e a integridade física do material.Não garante ausência de distorção ótica, neutralidade da lente ou qualidade da visão para prática esportiva.Embora os óculos possam ser seguros para o trabalho, ainda assimpodem ser ruins para visão e movimento”, pontua Ione.
Embora existam critérios mínimos de qualidade óptica, o foco do CA não é o desempenho visual esportivo.
Além disso, o certificado não garante automaticamente proteção adequada contra radiação ultravioleta (UV). A proteção solar depende das especificações técnicas da lente e deve estar claramente indicada pelo fabricante. Para atividades ao ar livre, é essencial verificar se o produto possui filtro UV com proteção comprovada.
Quais critérios especialistas indicam na escolha?
De acordo com Oswaldo, o consumidor deve considerar critérios relacionados à qualidade óptica e à proteção ocular:
“Para uso ocasional como solução temporária, óculos EPI podem servir, desde que tenham boa proteção contra os raios ultravioleta. Para corrida regular de longa duração, especialmente para atletas, não é a melhor opção.Óculos esportivo adequado deve ter proteção ultravioleta confiável, boa qualidade óptica, estar estável no rosto, promover o mínimo ou zero embaçamento e reduzir a fadiga visual”, explica Ione.
(*Estagiária, sob supervisão de Ardilhes Moreira)
'Óculos de obra' podem substituir os de corrida? Especialistas explicam os riscos e diferenças
Vídeos nas redes sociais popularizaram o uso de modelos mais baratos entre corredores, mas médicos alertam para diferenças na proteção e no desempenho.