O que o governo Trump alegou para ser contra classificar tráfico de escravizados como crime hediondo na ONU?

O que o governo Trump alegou para ser contra classificar tráfico de escravizados como crime hediondo na ONU?
Declarações citam críticas a reparações históricas e risco de hierarquização entre crimes contra a humanidade.
"Não reconhecemos o direito à reparação por injustiças que não eram ilegais quando aconteceram."Essa foi a fala do vice-embaixador dos EUA, Dan Negrea, antes da votação na Organização das Nações Unidas (ONU) que reconheceu otráfico transatlântico de africanos como um dos crimes mais graves contra a humanidade, nesta quarta-feira (25).

A resolução foi aprovada por 123 países.Apenas três —Estados Unidos,Israele Argentina— votaram contra.Outros 52, entre eles Reino Unido, Portugal e Espanha, se abstiveram.

O representante do governo Trump também classificou a proposta como'cínica', argumentando que ela usaria injustiças históricas para justificar a realocação de recursos modernos a 'pessoas e nações que têm pouca relação com as vítimas históricas'.

Tanto a União Europeia quanto os Estados Unidos manifestaram preocupação com o fato de a resolução poder implicar uma hierarquia entre crimes contra a humanidade, tratando alguns como mais graves do que outros.

“Os Estados Unidos também se opõem veementemente à tentativa da resolução de classificar crimes contra a humanidade em qualquer tipo de hierarquia”, disse ele. “A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história”, disse o representante do governo de Donald Trump.

Israel seguiu a mesma linha de argumentação dos norte-americanos, citando preocupações semelhantes. Já a Argentina não apresentou justificativas detalhadas, mas o posicionamento não surpreende — já que desde a posse de Javier Milei o país tem se alinhado com frequência a Washington e Tel Aviv nas votações da ONU.

A resolução ocorreu em sessão especial da assembleia da ONU para marcar oDia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, todo 25 de março.

A proposta, apresentada por Gana, não tem caráter vinculante, mas busca ampliar o reconhecimento internacional das consequências da escravidão transatlântica e abrir caminho para debates sobre reparações.

Segundo o governo ganês, os efeitos da captura e dotráfico de ao menos 12,5 milhões de africanosentre os séculos XV e XIX ainda persistem, especialmente nas desigualdades raciais.

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, disse à Assembleia Geral da ONU que são necessárias "ações muito mais ousadas" de mais Estados para confrontar as injustiças históricas.

O texto aprovado incentiva os Estados-membros a discutirem medidas como pedidos formais de desculpas, devolução de artefatos históricose possíveis compensações financeiras.Para autoridades do país africano, a iniciativa representa um passo em direção à responsabilização por injustiças históricas.

O professor de direito da Universidade Howard, Justin Hansford, afirmou à agência de notícias Reuters que a resolução representa o maior avanço da ONU no reconhecimento da escravidão transatlântica como um crime contra a humanidade e no pedido de reparações.

Por outro lado, apesar da proposta, o governo ganês tem sido criticado por defender a justiça por injustiças passadas no cenário internacional, enquanto simultaneamentepressiona por leis anti-LGBT mais rigorosas em seu próprio país.