Neuralgia do trigêmeo, 'a pior dor do mundo': entenda a condição da apresentadora Lívia Andrade

Neuralgia do trigêmeo, 'a pior dor do mundo': entenda a condição da apresentadora Lívia Andrade
Distúrbio provoca crises súbitas de dor intensa em um lado da face, pode ser desencadeado por estímulos simples — como toque ou mastigação — e afeta principalmente pessoas acima dos 50 anos.
A pior dor do mundo é conhecida como neuralgia do nervo trigêmeo. A condição afeta a apresentadora Lívia Andrade, que contou que teve o problema em stories publicados no Instagram, depois de uma crise de dor.

A condição provoca crises súbitas e extremamente intensas de dor em um dos lados do rosto, que podem durar de alguns segundos a minutos e interromper completamente as atividades da pessoa.

O nervo trigêmeo é responsável por transmitir as sensações do rosto e controlar a musculatura da mastigação. Ele é formado por um par de nervos cranianos com três ramificações que se distribuem pela região frontal — olhos e nariz —, além dos maxilares e da mandíbula.

A neuralgia do trigêmeopode atingir entre 0,03% e 0,3% da população mundial e afeta principalmente adultos, sobretudo a partir dos 50 anos, sendo mais comum entre mulheres.Mas esses números podem ser subestimados, já que muitos casos podem não ser diagnosticados corretamente ou atribuídos a problemas odontológicos ou a outras causas de dor facial.

“É a pior dor que eu senti na minha vida. Dói tudo ao mesmo tempo, cabeça, próximo ao olho, todos os dentes (de um lado), a mandíbula, ouvido, irradia pra garganta, um pedaço da língua e o céu da boca”, disse Lívia Andrade na rede social.

Analgésicos comuns não têm efeito nas dores intensas e o tratamento é feito com anticonvulsivantes – remédios usados para epilepsia – e com antidepressivos que atuam no controle da dor neuropática. Em alguns casos, são adotadas terapias complementares, como a acupuntura.Quando o paciente não tolera bem os efeitos colaterais da medicação, pode ser feita uma cirurgia.

O diagnóstico da neuralgia do trigêmeo é clínico, mas exames de imagem ajudam a excluir outros problemas, como um tumor ou esclerose múltipla, por exemplo.

O neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e especialista em dor Helder Picarelli explicou ao g1 que é fundamental diferenciar a neuralgia do trigêmeo da nevralgia, pois os tratamentos são diferentes.

O termo nevralgia significa dor no território de um nervo: “Uma pessoa pode apresentar dor no território do trigêmeo causada por abscesso dentário, disfunção da articulação temporomandibular, contratura muscular ou bruxismo, por exemplo. Nesses casos, trata-se de uma nevralgia na região do trigêmeo, mas não necessariamente de neuralgia do trigêmeo”, afirma Picarelli.

No caso da neuralgia do trigêmeo, a cirurgia pode ser feita quando o paciente não consegue usar medicação, ou quando o remédio provoca efeitos colaterais intoleráveis, como tontura, vertigem, sonolência, constipação, prejuízo cognitivo ou alterações hepáticas.

Há três tipos de cirurgiasque podem ser feitas – sempre por neurocirurgião:

Picarelli afirma que o problema não é tão raro e queo tratamento clínico normalmente funciona bem. Menos de 10% dos pacientes costumamoperar e pode ocorrer de alguns deixarem de ter o problema depois de 4 ou 5 anos de medicação, sem explicação.

“É uma doença dos canais de sódio, uma alteração em nível celular. É como se esses pacientes tivessem o nervo mais sensível. Muitas vezes, pacientes são encaminhados de outros médicos suspeitando de nevralgia do trigêmeo, quando na verdade o problema é outro”, explica o médico.

Crises podem ocorrer várias vezes ao dia e causar grande sofrimento

A dor costuma ser descrita como um choque elétrico e muito intensa.As crises geralmente duram poucos segundos ou minutos e podem ser desencadeadas por estímulos aparentemente simples, como toque no rosto, mastigação, falar, ingerir líquidos frios ou até um vento.

Por ser uma doença crônica, com episódios que se repetem ao longo do tempo, pode causar grande sofrimento e impacto na qualidade de vida. Em alguns casos, isso pode levar a distúrbios de humor importantes, como ansiedade e depressão, e até a pensamentos suicidas.

Picarelli afirma que, por essa razão, na literatura anglo-saxônica a neuralgia do trigêmeo já foi chamada de “doença suicida”, justamente para destacar a intensidade da dor e o sofrimento associado à doença.

Causas desconhecidas

A causa da neuralgia do trigêmeo não é conhecida. Ela surge por causa de uma alteração nos genes, mas isso ocorre ao acaso, não é hereditário, segundo Picarelli.

A principal teoria é que a dor seja desencadeada pelo contato de um vaso sanguíneo, geralmente uma artéria do cérebro, com uma região específica do nervo trigêmeo, justamente onde ele entra no sistema nervoso central.

“Esse contato vascular provoca uma irritação do nervo, e é como se a pulsação da artéria desencadeasse descargas elétricas anormais, gerando a dor. Hoje se acredita que isso ocorra principalmente em pessoas com alguma predisposição, possivelmente relacionada a alterações nos canais de sódio das fibras nervosas, o que deixaria o nervo mais excitável e mais propenso a disparar esses episódios de dor”, explica Picarelli.

Em alguns casos, a doença pode ser causada por esclerose múltipla, quando placas desmielinizantes acometem essa região do nervo. Nesses casos, a dor costuma surgir dos dois lados do rosto.

Mais raramente, um quadro semelhante pode ser provocado por processos inflamatórios ou tumores que comprimem o nervo. Nesses casos, trata-se de uma neuralgia do trigêmeo secundária.