Não é só a bebida: como evitar álcool falsificado e gelo contaminado na folia

Não é só a bebida: como evitar álcool falsificado e gelo contaminado na folia
Fraudes costumam ser discretas e difíceis de perceber; quadro com vômitos persistentes, confusão mental ou piora rápida exige atenção imediata.
Com blocos lotados e aumento do consumo de álcool, o Carnaval também amplia a circulação debebidas de origem duvidosa. O problema é que a adulteração quase nunca é visível —e, quando envolve substâncias tóxicas,pode levar a intoxicações graves.

Identificar uma bebida irregular é difícil.Cor e aparência costumam permanecer inalteradas, e o sabor raramente denuncia o problema.

Segundo Eduardo Grecco, gastrocirurgião e professor de Medicina da Faculdade do ABC, mesmo consumidores atentos têm dificuldade para perceber alterações sensoriais. Em alguns casos, pode haver leve diferença no cheiro ou no gosto, mas isso nem sempre é evidente.

Já o toxicologista Alvaro Pulchinelli, diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, reforça quenão existe teste caseiro capaz de detectar adulteração. Do ponto de vista prático, o consumidor não tem como saber se houve adição de substâncias indevidas —a confirmação só é possível por análise laboratorial.

A dificuldade aumenta porque os esquemas de falsificação são organizados. Lacres, rótulos e embalagens podem ser reproduzidos com alto grau de fidelidade. Em festas e blocos, muitos consumidores recebem o drink já pronto, o que elimina qualquer chance de conferir a garrafa.

Quais bebidas oferecem maior risco?

Os produtos mais visados são destilados vendidos emgarrafas de vidro, especialmente vodca e gin. Por serem transparentes e de sabor neutro, tornam-se mais fáceis de adulterar sem que o consumidor perceba alterações.

Bebidas enlatadas tendem a oferecer mais segurança, porque esse tipo de embalagem é mais difícil de reutilizar ou falsificar. No caso da cerveja, especialmente em lata ou long neck, fraudes em larga escala são menos frequentes.

Ainda assim, especialistas recomendamatenção ao abrir a embalagem e durante o consumo, evitando deixar a bebida desacompanhada ou fora de vista.

Como reduzir o risco na folia

Os médicos ouvidos pela reportagem apontam medidas simples que ajudam a diminuir a chance de consumir bebida adulterada ou gelo contaminado.

Ainda há perigo de intoxicação por metanol?

O principal risco nas bebidas falsificadas é a possívelpresença de metanol, um tipo de álcool usado na indústria como solvente e combustível, impróprio para consumo humano.

Diferentemente do etanol —o álcool presente nas bebidas regulares—o metanol é altamente tóxico. Em esquemas de adulteração, ele pode ser misturado ao etanol para reduzir custos. Quando ingerido em concentrações elevadas, provoca danos graves ao fígado, ao coração e ao sistema nervoso.

Nos casos mais severos, pode causarvômitos intensos, dor de cabeça forte, confusão mental, alterações visuais, insuficiência hepática, coma e até morte. A substância também pode provocar sequelas neurológicas permanentes, inclusive comprometimento da visão.

Após episódios recentes de intoxicação no país, o governo federal chegou a montar uma sala de situação para monitorar os casos. O grupo específico já não está ativo, mas isso não significa que o risco tenha desaparecido.

Ressaca comum ou sinal de alerta?

Os primeiros sintomas podem se confundir com uma ressaca habitual. Dor de cabeça, náusea, mal-estar, tontura e vômitos leves são efeitos esperados do consumo excessivo de álcool e costumam melhorar com hidratação e repouso.

A diferença está na intensidade e na evolução do quadro.

Pulchinelli explica que, quando há ingestão de bebida adulterada com metanol,os sintomas tendem a ser mais intensos e desproporcionais ao que foi consumido.

Vômitos repetidos ou incontroláveis, dor de cabeça muito forte, tontura acentuada, confusão mental, fraqueza importante, palidez, suor frio e sensação de desmaio fogem do padrão de uma ressaca comum.

Não se trata apenas de acordar pior do que o habitual. Piora rápida do estado geral ou sinais neurológicos —como dificuldade para se manter consciente ou desorientação —indicam gravidade.

Quando procurar ajuda médica?

Diante de sintomas intensos, diferentes do habitual ou com evolução rápida, a orientação é procurar atendimento hospitalar imediatamente.

Existem antídotos específicos para intoxicação por metanol disponíveis no sistema público de saúde. A rapidez no tratamento é determinante para evitar complicações graves. Esperar “passar” pode agravar o quadro.

E o gelo também pode oferecer risco?

Não é apenas a bebida que exige atenção.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa quegelo produzido com água contaminadaou manipulado de forma inadequada pode transmitir microrganismos como Escherichia coli, Salmonella e norovírus.

Mesmo sendo incolor, o gelo pode carregar agentes capazes de causarinfecções gastrointestinais, com diarreia, febre e vômitos. O risco é maior quando a manipulação ocorre em locais sem condições adequadas de higiene.

Durante o Carnaval, as ações de fiscalização são descentralizadas e conduzidas por órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária, que costumam intensificar operações voltadas à segurança do consumo de bebidas alcoólicas no período.