'Momento de voltar às ruas está próximo', diz Reza Pahlavi; quem é o filho de ditador que se apresenta como príncipe herdeiro

'Momento de voltar às ruas está próximo', diz Reza Pahlavi; quem é o filho de ditador que se apresenta como príncipe herdeiro
Adversário do regime de Ali Khamenei é filho do monarca que comandou ditadura secular no país entre 1941 e 1979 e foi deposto pelos aiatolás. Curta história da dinastia é marcada por golpe de Estado, modernização da economia e apoio dos EUA e do Reino Unido.
O príncipe herdeiro doIrãpublicou uma mensagem na rede social X momentos após EUA e Israel lançarem ataques à cidades iranianas. Na mensagem, Reza Pahlavi diz que a "ajuda americana finalmente chegou" e afirma que é o "momento de retornar às ruas está próximo".

A ajuda que o presidente dos Estados Unidos prometeu ao bravo povo do Irã chegou agora. Trata-se de uma intervenção humanitária; e seu alvo é a República Islâmica, o aparelho de repressão e sua máquina de matar — não o grande país e o grande povo do Irã.

Ao longo dos protestos de janeiro contra o regime dos aiatolás no Irã, um nome surgiu como favorito a sucederAli Khamenei: o deReza Pahlavi. Para alguns, ele seria a principal figura de oposição do país, além de príncipe herdeiro do trono em Teerã.

Pahlavi, que saiu do país na juventude e não pisa em sua terra natal desde 1978,está longe, contudo, de ser uma unanimidade entre analistas e até mesmo em seu espectro político.

O jornalista Guga Chacra descreveu Pahlavi como um "playboy filho de ditador que vive no exterior".

"Não é ele que tem que governar o Irã", disse Chacra.

Para entender sua posição no xadrez político iraniano, é preciso recuar até meados do século XX, antes da Revolução Islâmica.

Reza Pahlavi nasceu em 31 de outubro de 1960, filho do então xá (rei, em persa)Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980), que governava o país como uma ditadura, com apoio ocidental.

Em 1967, o então xá promoveu uma cerimônia de coroação, na qual seu filho foi nomeado legítimo herdeiro do trono.

O jovem Pahlavi seguiu, então, a carreira militar tipicamente reservada aos filhos da nobreza, primeiro como cadete da Força Aérea Imperial Iraniana. Em 1978, ele se mudou para o Texas, nos EUA, onde realizaria treinamento de piloto na Base Aérea de Reese.

O período de Mohammad Reza Pahlavi no poder foi marcado por uma rápida modernização do país, acompanhada de grande crescimento econômico, a taxas de 8% a 11% do PIB ao ano. Ao mesmo tempo, porém, uma forte oposição se mobilizava contra o monarca.

O xá possuía um temido serviço secreto, oSavak, para capturar, torturar e suprimir opositores. A desigualdade de renda alimentava a insatisfação popular, mobilizando a esquerda e intelectuais marxistas, influenciados pela União Soviética, contra seu reinado.

Foi uma figura religiosa, no entanto, que galvanizou todos esses setores e se tornou a maior liderança contra a monarquia.

Ruhollah Khomeiniera um aiatolá (título religioso xiita, corrente do Islã majoritária no país) que passou a se opor ao xá em 1963, depois de uma série de reformas laicizantes promovidas por Mohammad Reza Pahlavi. No ano seguinte, ele foi preso e, posteriormente, mandado para o exílio.

Quando os protestos contra o xá começaram a ganhar corpo, em 1978, eles foram reprimidos com brutalidade, culminando na “Sexta-Feira Negra” em Teerã, quando forças governistas atiraram e mataram dezenas de manifestantes, deixando outras centenas de feridos.

A repressão brutal insuflou a onda de protestos. Em janeiro de 1979, diante de uma situação insustentável, o primeiro-ministro convenceu Mohammad Reza Pahlavi a sair do país.

Khomeini foi indultado e desembarcou em Teerã em 1º de fevereiro do ano seguinte.Dias depois, ele aboliria a monarquia e instauraria a República Islâmica do Irã, concentrando o poder em torno de si e dos aiatolás.

Longe de seu país, Reza Pahlavi acompanhou a queda de sua dinastia à distância, juntando-se novamente a seu pai no exílio. A família percorreu diversos países, até a morte de Mohammed, no Cairo, em julho de 1980, vitimado por um câncer.

Pahlavi aguardou seu aniversário de 20 anos, em 31 de outubro, para se declarar “Reza Xá II”, ou o novo monarca do Irã.

Com um círculo reduzido de apoiadores, ele e sua família de apátridas viveram no Egito e no Marrocos, até Pahlavi se mudar para Maryland, nos EUA, em um subúrbio de Washington.

Em meio a tragédias familiares (ele perdeu dois irmãos mais novos, por overdose e suicídio), Pahlavi manteve-se opinando regularmente sobre a política de seu país.

"Acredito que o Irã deveria ser uma democracia parlamentar secular, e o povo decidir a forma final do Estado", disse em 2018, durante uma conferência no Washington Institute for Near East Policy, em fala reproduzida pela BBC.

Apesar de ser ambíguo sobre sua ascensão ao poder, parte da comunidade iraniana fora do Irã apoia sua condução ao trono após a queda de Khamenei.

Durante um protesto em janeiro em Los Angeles contra o aiatolá, umcaminhão carregava uma faixa com a frase: "Não ao regime, não ao Xá. EUA: não repitam 1953".

A placa no caminhão fazia referência também a um dos momentos mais críticos da dinastia Pahlavi. Entre 1941 e 1953, regime viveu um momento de liberdade política, que acabou quando Mohammad Reza destituiu o primeiro-ministroMohammed Mossadegh.

Mossadegh, uma figura política eleita pelo Parlamento com grande apoio popular, assumiu com apromessa de nacionalizar as abundantes reservas de petróleo iranianas – que ele cumpriu.

O movimento desagradou o Reino Unido, que tinha o monopólio da exploração de petróleo no país.

Em uma articulação entre Reino Unido e EUA, denominada “Operação Ajax” pela CIA, os governos Churchill e Eisenhower garantiram o apoio a Mohammed Reza Pahlavi para derrubar Mossadegh, o que ocorreu em 19 de agosto de 1953. Na época, os aiatolás – contrários à tendência laica do primeiro-ministro – apoiaram o golpe, organizando protestos contra Mossadegh.

O episódio é visto como o momento em que o regime dos xás se inclinou em direção ao autoritarismo.

Ao contrário do que pode parecer em um país cuja história remonta a impérios milenares, a dinastia Pahlavi tem uma história relativamente curta, iniciada em 1925.

Ela foi fundada porReza Khan, um militar apoiado pelo Reino Unido que derrubou a dinastia Qajar, já enfraquecida, em 1921.

Reza Khan pensou em transformar o Irã em uma república, tal qual Mustafa Kemal Atatürk fizera com a Turquia, mas foi dissuadido pelos britânicos, bem como pelos clérigos. Em dezembro de 1925, ele foi coroado sob o nomeReza Xá Pahlavi.

Seu reinado foi encerrado abruptamente em 1941, quando britânicos e soviéticos, aliados na Segunda Guerra, lançaram um ataque por ar, terra e mar ao Irã, que havia permanecido neutro no conflito.

Os aliados temiam que o país fosse ocupado por alemães, provendo um ponto estratégico e recursos naturais para o Eixo. O ataque ocorreu sem declaração de guerra e foi uma derrota humilhante para as Forças Armadas que o xá havia fortalecido ao longo de seu regime. Teerã foi fortemente bombardeada.

Diante da recusa do xá em entregar cidadãos alemães aos soviéticos, os soviéticos ocuparam a capital, e o monarca temia ser executado pelo Exército Vermelho. O Reino Unido ofereceu um acordo: que ele renunciasse em nome de seu filho Mohammed Reza Pahlavi.

O primeiro xá Pahlavi morreu nas Ilhas Maurício, em 1944 – no exílio, tal qual ocorreria com seu herdeiro, e de onde seu neto talvez possa retornar.