Um ataque daUcrâniacontra um navio comercial doIrãaumentou as tensões entre os dois países. No domingo (26), o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que a ação "não pode ficar sem resposta", levantando dúvidas sobre o risco de as guerras no Oriente Médio e no Leste Europeu evoluírem para um único conflito.
▶️ Contexto:O ataque aconteceu no sábado (25), no Mar Cáspio — região que liga o norte do Irã ao sul daRússia. Segundo o governo iraniano, um marinheiro morreu e outro ficou ferido.
Já o chanceler Abbas Araghchi prometeu uma resposta e acusou a Ucrânia de agir a mando de Israel para tentar envolver a Europa no conflito no Oriente Médio.
"Zelensky atacou uma embarcação comercial iraniana, matando um marinheiro. Uma violação flagrante da Carta da ONU, cometida a mando de Israel para arrastar a Europa para a guerra israelense", publicou o chanceler, citando o presidente ucraniano.
No mesmo dia do ataque, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que a Rússia está fornecendo ao Irã informações obtidas por satélite sobre posições militares no Oriente Médio. Segundo ele, os dados seriam usados para planejar ataques na região.
As tensões surgem em um momento de escalada nos dois conflitos. No Oriente Médio, Irã e EUA voltaram a trocar ataques sem conseguir avançar em um acordo para encerrar a guerra. Já no Leste Europeu, Rússia e Ucrânia intensificaram os bombardeios.
Esse cenário levou analistas a discutir a possibilidade de uma junção entre as duas guerras. Em um cenário extremo, Rússia e EUA poderiam acabar envolvidos em um mesmo conflito.
👉 Mas qual é a probabilidade de isso acontecer?
🔎 Para Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, mesmo existindo pontos de contato entre as duas guerras, nem Rússia nem Estados Unidos têm interesse em unificar os conflitos.
"Não deve acontecer porque nenhum dos atores quer pagar o preço dela. O que vemos é cada governo instrumentalizando o vínculo entre as guerras sem jamais assumi-lo por inteiro", afirma.
Apesar de os dois conflitos ainda estarem separados, não é de agora que as guerras na Ucrânia e no Irã têm elementos em comum.
➡️ Desde oinício da invasão russa da Ucrânia, em 2022, Moscou usa drones desenvolvidos pelo Irã para atacar alvos ucranianos. Já Kiev tem sistemas de defesa fornecidos pelos Estados Unidos para interceptar ataques.
⬅️ Quando Estados Unidos e Israel lançaram aguerra contra o Irã, em fevereiro deste ano, a Ucrânia ofereceu ajuda para interceptar drones iranianos em países do Oriente Médio atacados por Teerã, dizendo que é experiente no combate a esse tipo de armamento.
Além disso, na semana passada, a agência Reuters revelou que os Estados Unidos têm indícios de que a Rússia ajudou o Irã a atacar instalações da inteligência americana no Oriente Médio.
Fancelli afirma que a União Europeia também enxerga essa ligação entre os dois conflitos e tenta convencer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pressionar a Rússia pode ser uma forma de enfraquecer o Irã.
Segundo o especialista, a avaliação do bloco é que, se os EUA querem impedir que o Irã continue atacando interesses americanos, Trump precisa reduzir a capacidade da Rússia em apoiar Teerã.
"E a mesma Europa que oferece esse argumento recusa qualquer papel da Otan contra o Irã, embora siga cedendo suas bases como plataforma para as operações", diz.
Na avaliação de Fancelli, o Irã faz um movimento semelhante, mas na direção oposta. Ao retratar a Ucrânia como um instrumento de Israel para arrastar a Europa para a guerra no Oriente Médio, Teerã tenta dividir o bloco ocidental.
Já a Rússia, segundo ele, tenta dosar o apoio ao Irã para distrair e desgastar os Estados Unidos, em uma estratégia que ele define como um"caos administrado".
Apesar de os dois conflitos já terem certa relação, Trump e Putin dão sinais de que não têm interesse em que as guerras virem uma só neste momento.
Para Fancelli, manter os conflitos separados permite que Rússia e Estados Unidos avancem com seus próprios objetivos sem assumir os custos de uma escalada direta entre os dois países.
🔎 Na avaliação do especialista, uma guerra unificada exigiria concessões que nenhum dos principais atores envolvidos nos conflitos estariam dispostos a fazer:
A Europa perderia margem para defender a própria autonomia.Trump colocaria em risco o canal de diálogo com Putin.O Irã aumentaria a ameaça à própria sobrevivência do regime.
"Acredito que o paradoxo final é que o principal seguro contra a guerra única é o egoísmo de todos os envolvidos. Cada um lucra mais com duas guerras acopladas do que com uma guerra só, porque a fusão cobraria de cada ator exatamente aquilo que ele mais protege", afirma.
Ainda assim, Fancelli avalia que esse equilíbrio é frágil. Segundo ele, o ataque ucraniano ao navio iraniano mostrou que a escalada pode sair do controle.
Para o especialista, se o Irã cumprir a promessa de retaliar a Ucrânia, os países que apoiam cada lado poderão ser pressionados a demonstrar, na prática, até onde estão dispostos a sustentar seus aliados.
"É nessa linha tênue, e apenas nela, que as duas guerras podem virar uma. Não por projeto de ninguém, mas provavelmente por um acidente de todos."
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Ataque ucraniano a um navio comercial iraniano elevou as tensões entre os países. Possível união entre os conflitos colocaria Rússia e EUA em lados opostos de uma mesma guerra.