O dramaturgoBenedito Ruy Barbosa morreunesta terça-feira (7), aos 95 anos. O autor de novelas como "Pantanal", "O Rei do Gado" e "Renascer" enfrentavainsuficiência renal crônica havia três anos,segundo boletim médico divulgado pelo Hcor, hospital em que estava internado, em São Paulo.
A unidade de saúde informou ainda que o escritor tinhahistórico de reinternações por infecções recorrentes do trato urinário.
O que é a insuficiência renal crônica
A insuficiência renal crônica faz parte do quadro conhecido como doença renal crônica (DRC), condição marcada por alterações na estrutura ou no funcionamento dos rins por mais de três meses, com impacto para a saúde, segundo o Ministério da Saúde.
A doença tem curso prolongado e, muitas vezes, evolui sem sintomas por anos. Por isso, parte dos casos pode ser identificada apenas quando já existe umaperda mais importante da função dos rins.
Osrins funcionam como filtros do organismo: ajudam a eliminar substâncias que não são mais necessárias ao corpo, além de participarem do equilíbrio de líquidos e sais minerais.
Nos estágios iniciais, a doença renal crônica é assintomática.
Mas quando a função renal diminui, resíduos que deveriam sair pela urinapodem se acumular no sangue. Esse acúmulo pode causaralterações em diferentes partes do corpo, como inchaço, cansaço, náuseas, perda de apetite, anemia, alterações na pressão arterial e desequilíbrios nos níveis de sais minerais.
“Há um acúmulo de várias substâncias, como ureia, creatinina e de eletrólitos como potássio, que pode levar a arritmia”, acrescenta o nefrologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo Hugo Abensur.
O descontrole dos eletrólitos do sangue e o desequilíbrio do ácido básico também pode afetar a saúde dos ossos. Quem tem uma doença renal crônica avançada não tratada pode ter os ossos mais fracos, aumentando o risco de fratura, explica a nefrologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas Maria Julia Nepomuceno.
Além disso, o rim também é um órgão endócrino, que produz hormônios. Um deles é a eritropoetina que ativa a produção de glóbulos vermelhos na medula. Na doença renal crônica, pode surgir anemia por falta desse hormônio.
O rim também ativa a vitamina D e, quando há insuficiência renal crônica, ocorrem deficiência de vitamina D ativa e doenças ósseas.
Como a doença renal crônica evolui
A gravidade da doença renal crônica é avaliada principalmente pelataxa de filtração glomerular (TFG), medida que estima a capacidade dos rins de filtrar o sangue. Quanto menor essa taxa, maior o comprometimento da função renal e maiores os riscos associados à doença.
Segundo o Ministério da Saúde, a DRC é dividida em estágios, que vão dos quadros mais leves aos mais avançados:
À medida que o paciente vai perdendo a função renal, ele vai ficando mais sintomático. Segundo Abensur, nos estágios iniciais, o rim funciona em torno de 60% a 40%. Abaixo de 30%, é chamado de estágio quatro. Abaixo de 15%, é o estágio cinco e o paciente precisa iniciar diálise ou de um transplante, quando ele tem menos que 10% de função renal, segundo o médico.
Nos casos de perda significativa da função dos rins, os pacientes podemnecessitar de tratamentos como hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal. As três modalidades são oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
As duas principais causas que levam à morte de pacientes em programas de diálise são, primeiramente, as doenças cardiovasculares e, em segundo lugar, infecção. Isso porque o paciente em diálise tem uma imunidade um pouco diminuída em relação a população geral, acrescenta Abensur.
Diabetes e pressão alta entre principais causas
A doença renal crônica pode ter diferentes origens. Entre os principais fatores associados à evolução para perda avançada da função dos rins estão odiabetes mellitus e a hipertensão arterial,segundo o Ministério da Saúde.
Isso acontece porque essas condições podem provocardanos progressivos aos vasos sanguíneos e às estruturas responsáveis pela filtração nos rins.
"O diabetes é uma doença do descontrole da glicose. E essa glicose vai se tornando tóxica quando está nos níveis muito altos para o rim, causando a doença renal crônica", explica Nepomuceno.
As outras causas são menos comuns, comoinflamações das estruturas do rim, que são os glomeros, as chamadasglomerulonefrites, que são causadas por doenças próprias do rim ou por outras doenças, como o lúpus, que é uma doença autoimune, destaca Abensur.
Há também apossibilidade de doença renal crônica por doença genética. A mais comum é a doença policística e há também situações como calculose renal e infecções urinárias altas, que também podem levar a doença renal crônica.
O envelhecimento da população e o aumento de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares, tornam a DRC um desafio crescente para os sistemas de saúde.
De acordo com boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que adoença renal crônica afete cerca de 10% da população mundial. No Brasil, a prevalência estimada pelo critério laboratorial é de 6,7% entre adultos e chega a triplicar em pessoas com 60 anos ou mais.
Diagnóstico precoce pode retardar avanço
Apesar de poder evoluir de forma silenciosa,a doença renal crônica pode ser detectada com exames considerados simples e de baixo custo.
A avaliação costuma incluira dosagem de creatinina no sangue, usada para calcular a taxa de filtração dos rins, e exames de urina capazes de identificar alterações como a presença de proteínas.
“Normalmente, a gente não deve perder proteína na urina, então adosagem de albuminana urina é um outro exame simples. Se o indivíduo estiver perdendo mais que 30 miligramas por dia de albumina, é um indicativo que tem doença renal crônica”, explica Abensur.
Segundo o nefrologista e vice-presidente Sudeste da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Pedro Túlio Rocha, a confirmação exige alterações persistentes por 3 meses ou mais.
Outros exames, como ultrassonografia, também mostram alterações renais e ajudam no diagnóstico de insuficiência renal crônica.
Segundo o Ministério da Saúde, o diagnóstico nos estágios iniciais, o tratamento adequado e o controle dos fatores de risco podemajudar a retardar a evolução da doençae trazer benefícios para a qualidade de vida dos pacientes.
Na maioria dos casos,a insuficiência renal crônica não tem cura. A doença vai se estabelecendo ao longo do tempo e danificando o tecido renal, que não consegue voltar. O tratamento busca controlar a causa do problema, evitar novas lesões e preservar a função renal pelo maior tempo possível.
Já na insuficiência renal aguda, o rim para temporariamente. O paciente usa antibiótico e, às vezes, até precisa do suporte de diálise. Mas depois ele volta, pontua Nepomuceno.
"Na insuficiência renal crônica, o que a gente tem que fazer são medidas para evitar a progressão, para que o paciente não venha a necessitar de diálise. E hoje existem diversas medicações para esse objetivo. O importante na prevenção da progressão da doença renal crônica étratar adequadamente o diabetes e a hipertensão", destaca Abensur.
O médico destaca que até mesmo as canetas agonistas de GLP, usadas no tratamento de pacientes com diabetes com perda de proteína na urina, também protegem o rim.
"Hoje em dia, se a gente consegue detectar a doença renal crônica nos seus estágios iniciais, quando está assintomático, a gente tem muitas medicações que conseguem frear a progressão da doença. Aí, o paciente não chega até aquele ponto de precisar de hemodiálise", diz Nepomuceno.
Abensuralerta ainda para o uso de anti-inflamatórios, que provocam perda aguda da função renal e agravam principalmente os pacientes que têm doença renal crônica.
“A gente não deve usar anti-inflamatórios indiscriminadamente, como por exemplo, diclofenaco. É bom sempre usar quando necessário analgésicos e não usar anti-inflamatórios”, reforça.
Túlio Rocha destaca ainda a importância de mudança de hábitos com cessação do tabagismo e introdução de atividade física, para o sucesso no tratamento.
Diálise substitui a função de filtração do rim de maneira parcial
A hemodiálise torna-se necessária quando a creatinina está em torno de seis miligramas por decilitro ou quando o paciente tem menos de 10% de função renal.
A diálise substitui a função de filtração do rim, mas de uma maneira parcial. O paciente em diálise precisa ser submetido, em média, a três sessões de hemodiálise por semana, com duração de 3h30 a 4h. Com isso, ele fica com uma função renal em torno de 10%.
Além disso, a diálise não substitui a função endócrina do rim. Pacientes em diálise precisam receber o hormônio que ativa a medula, que é a eritropoetina, para tratar a anemia. E esses pacientes também precisam receber a vitamina D ativa, que é produzida no rim, que é o calcitriol.
“E se o paciente tiver condições clínicas, ele pode fazer um transplante renal, se ele tiver um doador vivo. Ele vai fazer um transplante renal direto, sem precisar eventualmente fazer diálise”, complementa Abensur.
Cerca de 20% dos idosos têm algum grau de disfunção renal
Abensur destaca que a doença renal crônica é bastante prevalente.Uma em cada dez pessoas tem algum grau de doença renal crônicae a prevalência é aumentada nos idosos.Cerca de 20% dos idosos têm algum grau de disfunção renal.
Dados do boletim epidemiológico mostram que os atendimentos de pessoas com doença renal crônica na Atenção Primária à Saúde cresceram no Brasil nos últimos anos:passaram de cerca de 74 mil registros em 2019 para mais de 188 mil em 2023.
As internações pela doença também aumentaram no período analisado pelo Ministério da Saúde. O total passou de 84,3 mil internações em 2010 para 140,6 mil em 2023.
A maior parte dos atendimentos registrados na Atenção Primária entre 2019 e 2023 ocorreu em pessoas entre 50 e 79 anos, reforçando a relação entre a doença e o envelhecimento da população.
Insuficiência renal crônica: doença que Benedito Ruy Barbosa enfrentava faz rins perderem função gradualmente
Escritor tinha diagnóstico havia três anos e histórico de reinternações por infecções urinárias recorrentes. Doença pode evoluir silenciosamente e, nos casos mais graves, exigir diálise ou transplante.