Inep contraria edital do Enem e nega tempo extra para parte dos alunos com transtornos mentais: 'desesperada', diz jovem com bipolaridade

Inep contraria edital do Enem e nega tempo extra para parte dos alunos com transtornos mentais: 'desesperada', diz jovem com bipolaridade
Ao g1, órgão afirma que os casos de indeferimento ocorrem quando a documentação não atende aos critérios estabelecidos. No entanto, laudos médicos enviados pelos candidatos ouvidos pela reportagem seguiram todas as orientações previstas no edital.
Mesmo com o envio de laudos médicos corretos, que respeitaram todas as normas previstas no edital do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),o sistema de inscrição do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negou o atendimento especial solicitado por parte dos candidatos com transtornos mentais.

São estudantes com ansiedade, déficit de atenção e bipolaridade que, de acordo com o próprio Inep, teriam direito a recursos de apoio, como:

Eles enviaram a documentação correta, mas receberam como resposta que“o CID [Classificação Internacional de Doenças] informado no ato da inscrição não caracteriza uma condição para acesso ao tempo adicional de provas”.

➡️Aog1, o Inep afirmou que os casos de indeferimento ocorrem quando a documentação necessária não é apresentada ou não atende aos critérios estabelecidos.

A reportagem teve acesso aos laudos enviados pelos alunos citados abaixo —todos os documentos seguiram as exigências do edital.Apresentam nome completo do paciente, diagnóstico, assinatura e identificação do profissional competente, e, no caso dos pedidos de tempo extra, a descrição da necessidade.

Leticia Evelyn, por exemplo, de Fortaleza, enviou pelo sistema de inscrição o laudo de transtorno bipolar.

O documento médico afirma que “[...] a paciente apresenta instabilidade de humor, senso de razão aumentado, impulsividade, taquipsiquismo [aceleração do ritmo do pensamento], inquietação e dificuldade de concentração”. Diz também que “tais sintomas comprometem o tempo de execução de suas atividades, sendo necessário tempo adicional em provas [...]”.

Todos os dados exigidos estão no laudo. Ainda assim, o sistema mostra que ela não terá direito aos 60 minutos extras no Enem.

“Entrei em contato no Fale Conosco do MEC, mas ainda não tive resposta”, afirma. “Meu documento tem CID, os medicamentos controlados que tomo, a descrição… é tudo respaldado. Estou desesperada.”

À reportagem, o Inep acrescenta que “os participantes puderam recorrer da decisão entre 29 de junho e 3 de julho de 2026”.

No entanto,como og1noticiou, houve casos de alunos que haviam recebido a confirmação do atendimento especial, mas que, semanas depois,quando o prazo para recursos já estava encerrado, viram o status da solicitação mudar misteriosamente para “recusado”.

Na última sexta-feira (21) , o Inep admitiu o erro e afirmou que o sistema já estava normalizado e corrigido. O que se viu, no entanto, foi a manutenção dos erros relatados.

'Que isonomia é essa?'

Sarah Serpa, de Brasília, enviou o laudo de ansiedade com todas as exigências do edital cumpridas. Primeiro, o site de inscrição confirmou que a solicitação de tempo extra havia sido liberada. Em agosto, após o fim do prazo de contestação, a página passou a mostrar que o CID não caracterizava condição para tempo adicional.

“Por que aceitaram inicialmente, então? Não faz sentido… Outras pessoas com o mesmo diagnóstico de TAG [transtorno de ansiedade generalizada] conseguiram a concessão de 60 minutos adicionais. Que isonomia é essa, em que uns conseguem e outros não?”, questiona Sarah.

Essa falta de coerência também é apontada por Ana Isis Guimarães. O laudo dela, de transtorno de déficit de atenção (TDAH), foi reprovado de imediato — provavelmente, por se limitar à descrição dos sintomas e dos medicamentos tomados, sem explicitar a necessidade do tempo extra.No entanto, exatamente esse mesmo documento foi aceito nas últimas edições do Enem.

“Em todos os anos anteriores, eu fiz a prova com os meus direitos garantidos. Esse seria um ano inteiro de estudos perdido por uma situação que eu não consigo entender. Não mudei de médico, e o laudo deste ano é o mesmo dos anos anteriores”, diz.

De fato, no cartão de confirmação de Ana Isis no Enem 2025, há a menção ao recurso especial de 60 minutos extras, por causa do TDAH.