Talvez só uma tarefa seja mais difícil do que enfrentar as seleções favoritas a serem campeãs da Copa do Mundo:pronunciar corretamente o nome de todos os jogadores.
Muharemović, Hadžikadunić, Gvardiol e Sebelebele são só alguns em uma escalação extensa de sobrenomes que complicam a vida de narradores, comentaristas e torcedores de outras nações.
Isso porque, de Bósnia Herzegovina a Croácia, passando por Marrocos e África do Sul, cada país traz especificidades da língua que tornam muitas palavras quase impronunciáveis em português.
Os linguistas explicam que a maior dificuldade para os falantes da nossa língua vai acontecer com relação àpronúncia de nomes eslavos, isto é, de nações comoCroácia, Tchéquia e Bósnia.
"Não se trata apenas de desconhecer a língua, mas de não conhecer a correspondência e pronúncia, que são muito específicas de cada idioma", analisa Gueorgui Hristovsky, diretor do Centro de Línguas e Culturas Eslavas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Mas erros ao falarnomes de origem africanacomo Mbappé, Mbatha e Ndamane também são bastante comuns, especialmente por conta da união de consoantes sem uma vogal no meio.
➡️De forma geral, as principais confusões acontecem por conta dos seguintes motivos:
Abaixo, nesta matéria, você entende mais sobre oserros mais comunsrelacionados a esses nomes, aorigem dos problemasequais são as pronúncias corretas.
Croácia, Tchéquia e Bósnia: o terror dos nomes eslavos
Entre os tantos nomes e sobrenomes estampados nas camisas das seleções, os de equipes eslavas (Croácia, Tchéquia e Bósnia) são os que muitas vezes mais assustam na hora de serem pronunciados.
Segundo Hristovsky, essas línguas utilizam a mesma base do alfabeto que o português, o latino, mas apronúncia acaba se afastando do que está escrito.Existemdiferenças fundamentais na quantidade de letrase napresença de caracteres especiais.
Isso fica claro em sobrenomes como Hadžikadunić e Hadžiahmetović, que à primeira vista são ilegíveis para nós.
"A sequência 'dž' corresponde exatamente ao som de 'dj' do português do Brasil, como em dia ou Diana. A dificuldade surge porque a representação gráfica é diferente, e os falantes de português não conhecem as regras de leitura do alfabeto bósnio", analisa o linguista.
Outro erro muito comum nesses casos é com relação à leitura do final "ić". A regra das línguas eslavas determina que a pronúncia deve ser como "itch", mas a tendência dos brasileiros é ler como "ic".
Além disso, o fato de muitos sobrenomes serem morfologicamente compostos e, consequentemente, mais longos, é mais um ponto que acrescenta dificuldade.
Nomes africanos e a junção de consoantes
Já no caso dos nomes de origem africana, a maior dificuldade é ajunção de consoantes, principalmente no início das palavras.
Margarida Peter, mestre em linguística, especializada em linguística africana e professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica que sons como os da união "mb" e "nd" são incomuns na língua portuguesa – e, portanto, mais complicados de serem pronunciados.
"Nesses casos, há uma consoante nasal ('n' ou 'm') ligada a outras consoantes ('b' ou 'd') que têm o mesmo local de articulação: os lábios. E esses sons são muito próprios das línguas africanas", analisa.
Ele pontua que o que acontece nesses casos é um aportuguesamento na hora de falar, da mesma maneira que acontece com palavras como "nhoque" ou "M'Boi Mirim".
➡️O mais comum é que, na pronúncia, se coloque uma vogal antes da sílaba com duas consoantes, como um apoio vocálico. Assim, os termos viram "inhoque", "IM'Boi Mirim", "IMbappé".
"O que nós fazemos quando estamos diante de outra língua é tentar nos aproximar da pronúncia de um falante nativo. Mas nós nunca vamos produzir ou com muita dificuldade vamos reproduzir a pronúncia nativa", comenta a professora.
Peter também destaca o processo de modificação da grafia desses nomes ao longo do tempo, especialmente por conta da colonização inglesa e francesa em países africanos.
A forma como vemos essas palavras escritas atualmente é o modelo europeu. Ou seja, Mbappé, por exemplo, é a versão da língua francesa de representar o nome, já muito diferente do original africano.
"Se fôssemos escrever exatamente como seria na língua africana seria diferente e leríamos de forma diferente. No português nós temos acento, mas não temos tom. Em línguas africanas as palavras podem ter tons altos e baixos", compara.
Os especialistas indicam que o principal conselho para ler nomes e sobrenomes em línguas desconhecidas é buscar se familiarizar com os sons mais comuns das palavras.
Hristovsky comenta que, no caso das línguas eslavas, o mais recomendado é buscar atransliteração corretajunto a embaixadas.
🆎Atransliteraçãoé oprocesso de converter uma palavra de um alfabeto ou sistema de escrita para outro, focando na pronúncia correta.
"A transliteração nunca garantirá 100% de precisão, mas aproxima muito o leitor português da pronúncia real", afirma.
Peter defende que não há uma regra universal que oriente a pronúncia de locutores e comentaristas, mas o ideal é sempre tentar se aproximar do som que as palavras têm na língua de origem.
E ainda reitera que, por mais que para os idiomas eslavos e africanos as dificuldades sejam mais comuns, elas podem acontecer com todas as línguas.
"O que nós fazemos com todos os nomes de pessoas em outras línguas é tentar ler de acordo com aquilo que a gente consegue ler. [...] Dificilmente a gente vai conseguir reproduzir perfeitamente os nomes em outras línguas", pondera.
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