Gasolina, indústria e agro: veja como a guerra no Irã pode pesar no bolso do brasileiro

Gasolina, indústria e agro: veja como a guerra no Irã pode pesar no bolso do brasileiro
Conflito no Oriente Médio já causou um salto nos preços do petróleo e pode desencadear também uma valorização do dólar. Especialistas se preocupam com uma nova pressão sobre a inflação que estava sob controle.
Aescalada da guerra no Oriente Médioe ofechamento do Estreito de Ormuzjá mostraram os primeiros efeitos econômicos nesta segunda-feira (2). Odólar subiu e passou dos R$ 5,15, eos preços do petróleo dispararam, com o barril do Brent subindo mais de 7,5% e se aproximando de US$ 80.

O que começa no mercado financeiro, logo pode se transferir para obolso dos brasileiros.Com dólar e petróleo mais caros, cresce a expectativa deaumento nos preços de combustíveis e de energia, que têm efeitos indiretos sobre o transporte, a indústria e até o agronegócio.

Segundo especialistas ouvidos pelog1, essa pressão sobre a inflação brasileira pode começar a aparecerem cerca de um mês, a depender da intensidade do conflito e de quanto pode durar ofechamento do Estreito de Ormuz.

Caso os preços se mantenham elevados, oBanco Central do Brasil(BC) pode desistir de reduzir os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), mantendo a Selic no maior patamar em 20 anos e desacelerando ainda mais o crescimento da economia brasileira.

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Petróleo, indústria e agro

Desde o ataque dos EUA e de Israel ao Irã, o salto no preço do petróleo no mercado internacional foi o efeito mais marcante.Em relação ao fim de 2025, quando a commodity fechou cotada a US$ 60, a alta é de 27,5%.

“Quanto mais o conflito se prolongar e comprometer o fluxo de petróleo pelo mundo, maior será a tendência de alta nos preços do barril”, afirma André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGVIbre).

O petróleo é matéria-prima de combustíveis —como gasolina, diesel, querosene de aviação e gás de cozinha— e de diversos insumos, comoplásticos, borracha, fertilizantes e medicamentos. Isso gera um efeito em cadeia, pressionando os custos de produção e a logística da indústria e do agronegócio.

Uma alta no preço do diesel, por exemplo, tende aelevar o custo do frete rodoviário, o que pode resultar em aumento nos preços de produtos transportados por estradas. “Além disso, a gasolina é um dos itens mais relevantes para a inflação, representando 5% do IPCA”, afirma o especialista.

Além do transporte, o agronegócio sofre com o custo defuncionamento das máquinas agrícolase com oencarecimento dos fertilizantes químicos— que também são parte relevante das importações brasileiras vindas do Irã.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que adubos e fertilizantes químicos responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.

Há impacto também na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas.Elas geram energia a partir de combustíveise costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos.

“A indústria brasileira está inserida em cadeias globais, e qualquer instabilidade em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz repercute nos fretes, nos seguros e na energia”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Flávio Roscoe.

Por outro lado, o aumento nos preços do petróleo costuma favorecer a balança comercial do Brasil, já que o país é um grande exportador da commodity e seu valor influencia diretamente o resultado financeiro das petrolíferas.

“Isso já pode pressionar por um ajuste no preço da gasolina. Se houver anúncio, é provável que o valor acompanhe a tendência do petróleo e permaneça elevado enquanto a commodity continuar em alta”, afirma André Braz.

Pressão no dólar e nos juros

Sempre que ocorre um evento geopolítico — como as rusgas entre grandes potências militares —, o dólar costuma ser uma opção de proteção para os investidores.

“O dólar normalmente se valoriza em momentos de incerteza e cautela internacional, o que pode aumentar a pressão inflacionária causada por insumos importados”, explica Lilian Linhares, da Rio Negro Family Office.

Embora o impacto do dólar dependa de um período mais prolongado de valorização da moeda, a especialista diz que esse é um fator ao qual o BC deve estar atento ao definir a política de juros no país.

“A projeção para a inflação no médio prazo continua alinhada à meta, o que permite que o Banco Central conduza a política monetária nesse cenário de incerteza, com cautela e atenção a eventuais choques de oferta”, afirma.

Linhares ressalta, no entanto, que uma postura mais rígida por parte do BC depende de como a guerra deve se desenrolar daqui para frente.

“Caso o conflito se prolongue no médio e longo prazo, podemos ver ajustes na magnitude dos cortes de juros ou até na duração do ciclo de redução no Brasil. Mas isso ainda depende de quanto o choque nos preços do petróleo vai se traduzir em pressão inflacionária”, afirma.

“Ainda é cedo para prever como isso vai evoluir, e o mercado continuará acompanhando os desdobramentos do conflito”, conclui a executiva.