g1 20 anos: o caminho da ciência para tentar chegar à cura do HIV

g1 20 anos: o caminho da ciência para tentar chegar à cura do HIV
Após décadas de avanços no tratamento e na prevenção, pesquisadores tentam agora vencer um dos principais obstáculos à cura: o vírus que permanece escondido no organismo.
Quarenta e cinco anos depois do início da epidemia de HIV, a ciência consegue falar de uma palavra que durante muito tempo pareceu distante:cura.

Ela ainda não existe como umtratamento simplesedisponívelpara quem vive com o vírus. Mas já deixou de ser apenas umapossibilidade teórica. Segundo aSociedade Internacional de AIDS (IAS, na sigla em inglês), 13 pessoas são consideradas curadas do HIV — todas em situações muito específicas,principalmente após transplantes de células-tronco feitos para tratar cânceres graves.

O desafio agora é outro:conseguir o mesmo resultado sem depender de um transplante de medula, procedimento de alto risco quenão é indicado para tratar o HIV.

No Brasil, uma das pesquisas que tentam chegar a esse objetivo é conduzida pelo infectologistaRicardo Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“A gente está mais próximo agora. Então, é possível que a gente ainda consiga, nos próximos anos, observar alguma coisa diferente, que é a cura das pessoas sem precisar de um transplante de medula e começar a aumentar essa escala”, afirma Diaz.

Para entender por que isso ainda é tão difícil, é preciso olhar para uma característica do próprio HIV:a capacidade de se esconder dentro das células do organismo.

O vírus que fica escondido

Osmedicamentos antirretroviraisdisponíveis hoje conseguem impedir que o HIV se multiplique e reduzir a quantidade de vírus no sangue a níveis indetectáveis.

Com o tratamento correto, uma pessoa pode ter boa qualidade de vida e chegar àcarga viral indetectável,condição em que o HIV não é transmitido por via sexual.

O tratamento, porém, não elimina todo o vírus.

Parte do HIV permanece dentro de algumas células, principalmente do sistema de defesa, sem se multiplicar. Esses esconderijos são chamados dereservatórios virais.

➡️ Como o vírus está praticamente adormecido, os medicamentos não conseguem atingi-lo da mesma forma que combatem o HIV em atividade.

Por isso, quando o tratamento é interrompido, o vírus que estava escondido podevoltar a se multiplicar.

“O reservatório viral, que é a persistência do vírus, é o grande obstáculo para a cura”, explica Diaz.

Justamente por isso, eliminar ou controlar de forma permanente esse reservatório virou uma das principais frentes da pesquisa mundial sobre cura do HIV.

A prova de que a cura é possível

Os casos já registrados de cura mostraram que eliminar o HIV do organismo é possível. O primeiro deles foi o americanoTimothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”.

Ele e os demais pacientes curados precisavam de transplantes para tratar doenças graves, como leucemia ou linfoma.Em alguns desses casos, os doadores tinham uma alteração genética que dificulta a entrada do HIV nas células.

O transplante também substitui grande parte das células dosistema imunológicoe pode ajudar a eliminar células que ainda carregavam o vírus.

Mas esse caminho não pode ser reproduzido simplesmente em milhões de pessoas com HIV. O transplantetraz riscos importantese só se justifica quando há outra doença grave que exige o procedimento.

Por isso, os pesquisadores tentam descobrir quais mecanismos levaram à cura nesses pacientes e como reproduzi-los de maneira mais segura.

A infectologista e pesquisadora australiana Sharon Lewin, uma das principais especialistas mundiais em cura do HIV, afirma que provavelmente vários mecanismosatuam ao mesmo temponos casos de transplante.

Segundo ela, novas abordagens que reforçam a resposta imunológica já conseguiram fazer alguns participantes de estudos controlar o vírus mesmo depois da suspensão dos antirretrovirais.

“Acho que a cura será possível sem transplante. Ensaios clínicos recentes com anticorpos e também com anti-PD-1 [tipo de imunoterapia que estimula a resposta do sistema imunológico] mostraram que, em alguns participantes, a imunidade natural específica contra o HIV pode ser reforçada o suficiente para permitir que eles controlem a replicação do vírus mesmo sem a terapia antirretroviral”, afirma Lewin.

O paciente de São Paulo

Uma dessas tentativas ganhou atenção internacional justamente no Brasil.

Em um estudo liderado por Diaz, um paciente que vivia com HIV recebeu uma combinação de medicamentos e outras intervenções que buscavam atingir o reservatório e fortalecer a resposta do sistema imunológico.

Depois da interrupção dos antirretrovirais, ele ficou cerca de umano em remissão, sem sinais detectáveis do vírus em exames. O HIV, porém, voltou posteriormente.

O caso ficou conhecido como “paciente de São Paulo”.

Para Diaz, o resultado chamou atenção porque o paciente chegou a apresentarcaracterísticas semelhantes às observadas em pessoas curadas por transplante, apesar de não ter passado pelo procedimento.

O caso, porém, também mostrou uma das dificuldades desse campo: um período sem vírus detectável não significa necessariamente que o HIV desapareceu do organismo. Pequenas quantidades podem permanecer escondidas e voltar a se multiplicar meses ou até anos depois.

Acordar ou manter o HIV adormecido

Entre as estratégias em estudo, uma tenta “acordar” o HIV escondido para que as células infectadas possam ser eliminadas. Outra busca fazer o contrário: manter o vírus silenciado de forma permanente, mesmo sem os antirretrovirais.

Também são testados anticorpos, terapias celulares e edição genética. NaUnifesp, a equipe de Ricardo Diaz prepara umestudo de fase 2com cerca de60 voluntáriospara testar uma combinação de estratégias.

Nenhuma delas, até agora, resultou em uma cura segura e disponível para a população.

Mas os avanços no tratamento transformaram o HIV em umacondição controlável, e a prevenção também ganhou novas ferramentas, como a PrEP. A cura, porém, ainda exige estudos longos e acompanhamento por anos.

“A gente mostra os casos de sucesso, mas registra os casos que deram errado também. Não é uma coisa que é 100%. Todo esse processo científico é longo”, diz Diaz.

Hoje, a ciência já sabe que o HIV pode ser eliminado ou controlado por longos períodos sem medicamentos em casos raros.

O desafio é transformar esses resultados em umaestratégia segura, duradoura e acessível.