Fogão, panela e rótulo falso: como anabolizantes eram produzidos em condições precárias e vendidos no Brasil

Fogão, panela e rótulo falso: como anabolizantes eram produzidos em condições precárias e vendidos no Brasil
Investigação aponta que produtos eram preparados em laboratórios improvisados e poderiam apresentar riscos de contaminação e erro na dosagem.
Os anabolizantes falsificados investigados pela polícia eram produzidos de forma improvisada e sem os controles encontrados em uma fabricação regular de medicamentos. Segundo as investigações, parte dos produtos era preparada em laboratórios clandestinos mantidos em diferentes estados brasileiros.

Um dos principais investigados é Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraiya. De acordo com a polícia, ele teria mantido três laboratórios clandestinos, em Brasília, João Pessoa e São Paulo. A investigação aponta que o grupo produzia os anabolizantes a partir de matérias-primas que entravam no Brasil pela fronteira com o Paraguai.

Produção era feita com fogão e panela

Conversas encontradas em um celular apreendido pela polícia ajudaram a revelar como funcionava parte da produção.

Segundo a investigação, os anabolizantes eram preparados de maneira bastante precária, com uso de fogão e panela. Em determinados casos, quando a preparação não dava certo, a mistura era levada novamente ao fogo para tentar dissolver as substâncias.

Em um dos áudios analisados pelos investigadores, há referência ao uso de banho-maria e à necessidade de "dissolver tudo de novo".

A polícia considera que esse tipo de manipulação representava risco tanto para quem trabalhava na produção quanto para os consumidores. Sem condições adequadas de fabricação e controle, havia possibilidade de contaminação das substâncias e dos próprios produtos.

Matéria-prima vinha do Paraguai

A fabricação começava antes mesmo de os produtos chegarem aos laboratórios.

Segundo a investigação, os insumos usados na produção entravam clandestinamente no Brasil pela fronteira com o Paraguai. Uma loja localizada em Cidade do Leste seria responsável pelo fornecimento do material.

De acordo com os investigadores, os insumos eram escondidos dentro de peças de motocicleta para atravessar a fronteira. Em Foz do Iguaçu, do lado brasileiro, o material era embalado e posteriormente distribuído para outros locais.

A Polícia Federal também já identificou, em outras investigações sobre o mercado clandestino, a existência de laboratórios no país que utilizam insumos importados para a fabricação irregular de anabolizantes.

Produtos para emagrecer também eram fabricados

O esquema não se limitava aos anabolizantes.

Segundo a investigação, um dos envolvidos também produzia produtos destinados ao emagrecimento. Em um deles, era utilizado clembuterol, substância descrita no material como um medicamento de uso veterinário.

O problema apontado pelos investigadores era agravado pela ausência de informações adequadas nos rótulos. Segundo um dos áudios recuperados pela polícia, clientes chegaram a apresentar sintomas após consumir os produtos.

Erro na dosagem aumentava o risco

A produção clandestina também levantava preocupação com a quantidade de substâncias presentes em cada produto.

Em uma conversa apreendida pela polícia, um dos envolvidos chama atenção para a necessidade de precisão na dosagem do clembuterol e menciona o risco de uma quantidade excessiva provocar consequências graves. Outro trecho relata o caso de uma cliente que teria acordado durante a madrugada com falta de ar.

O problema central, segundo a investigação, era que o consumidor não tinha garantia de saber exatamente o que havia dentro do produto nem em qual quantidade. Um especialista ouvido na reportagem alerta que essa falta de controle pode representar risco à saúde.

Rótulos davam aparência de produto confiável

Depois de preparados, os produtos recebiam embalagens e rótulos que, segundo a investigação, buscavam transmitir uma aparência de maior credibilidade.

A polícia identificou o uso de rótulos com linguagem associada a outros países, estratégia que poderia fazer o consumidor acreditar que o produto tinha uma origem mais confiável do que realmente tinha.

A produção clandestina, portanto, não terminava no laboratório: depois da manipulação, os produtos eram embalados e inseridos em uma cadeia de venda que incluía redes sociais, lojas de suplementos e clínicas de estética.

Da cozinha improvisada ao consumidor

A investigação descreve uma cadeia que começava com a entrada clandestina de matérias-primas no país, passava pela manipulação em laboratórios improvisados e terminava na venda de produtos apresentados aos consumidores como suplementos, termogênicos ou anabolizantes.

O caso chama atenção principalmente pela distância entre a aparência comercial dos produtos e as condições em que, segundo a polícia, eles eram produzidos: enquanto as redes sociais mostravam resultados físicos e embalagens com aparência profissional, parte da fabricação ocorria de maneira improvisada, com fogão e panela.

Os investigados são acusados de crimes como tráfico de drogas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal. As defesas citadas no material afirmam que os fatos serão esclarecidos no decorrer do processo.

A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraiya, Allan Manuel e Ana Luiza.