Estamos caminhando para a Terceira Guerra Mundial ou este é um receio exagerado?

Estamos caminhando para a Terceira Guerra Mundial ou este é um receio exagerado?
Mais de um mês depois do início do conflito, surge o receio de que o conflito dos Estados Unidos e Israel contra o Irã possa gerar algo muito maior, como a Terceira Guerra Mundial. Quais são as possibilidades de que isso realmente venha a acontecer?
Mais de um mês depois do início da guerra dosEstados UnidoseIsraelcontra oIrã, existe o receio de que o atual conflito no Oriente Médio possa se transformar em algo muito maior.

A guerra atingiu, além doIrã, mais de 10 outros países da região, como osEmirados ÁrabesUnidos,Iraque,Bahrein,Kuwait,Arábia Saudita,Omã,Azerbaijão,Chipre,Síria,CatareLíbano, além daCisjordâniaocupada.

Muitos receiam que o conflito atual possa deixar de ser regional e se tornar uma guerra mundial. Maseste receio realmente tem fundamento?

Quando um conflito se torna uma guerra mundial?

"As pessoas tendem a pensar que as guerras são cuidadosamente planejadas e que aqueles que vão para a guerra sabem exatamente o que estão fazendo", explica a professora emérita de história internacional Margaret MacMillan, da Universidade de Oxford, noReino Unido, em entrevista ao programa de rádioThe Global Story, do Serviço Mundial da BBC.

"De fato, se você observar as guerras do passado... a Primeira Guerra Mundial [1914-1918]... muito do que gerou o seu início ocorreu por acidente e porque as pessoas subestimaram seus oponentes", prossegue ela. "Pense nisso, às vezes, como uma espécie de briga no pátio da escola."

Foi o assassinato do sobrinho do imperador austro-húngaro Francisco José (1840-1916), o arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), que gerou toda a cadeia de eventos que levou à Primeira Guerra Mundial, segundo MacMillan.

Em questão de semanas, um grupo de alianças empurrou a Europa para o conflito. O Império Austro-Húngaro se levantou contra a Sérvia, a Alemanha apoiou a Áustria, aRússiase mobilizou em apoio à Sérvia, a França apoiou aRússiae oReino Unido, em nome da honra e da estratégia, também entrou na guerra.

Tudo o que se seguiu se tornou uma catástrofe global, explica a professora.

O professor de história internacional Joe Maiolo, do King's College de Londres, define "guerra mundial" como uma guerra generalizada, envolvendo todas as grandes potências.

"Na Primeira Guerra Mundial, teriam sido as potências imperiais europeias", explicou ele à BBC. "Na Segunda Guerra Mundial, teriam sido incluídos osEstados Unidos, o Japão e aChina."

Muitas pessoas descreveriam as tensões atuais no Oriente Médio como majoritariamente regionais. Mas estariam presentes as condições para uma escalada mais ampla?

Em entrevista à BBC em fevereiro, o presidente daUcrânia,Volodymyr Zelensky, disse acreditar que o presidente russoVladimir Putinjá havia dado início à Terceira Guerra Mundial e que a única resposta seria aplicar intensa pressão militar e comercial para forçarMoscoua se retirar.

"Acredito que Putin já a começou. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo... ARússiaquer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si", destacou o presidente ucraniano.

Então, qual é o risco atual de ocorrer a Terceira Guerra Mundial?

"Acho que o país com mais probabilidade de escalar o conflito é, provavelmente, oIrãou seus aliados, como os houthis doIêmen", afirma MacMillan.

As possíveis ações doIrã, comoatacar rotas de navegação ou fechar o Estreito de Ormuz, poderão ter consequências globais, interrompendo o abastecimento de energia e trazendo as principais potências para o conflito, segundo a professora.

O envolvimento dosEstados Unidostambém aumenta os riscos. E outros países, mesmo que não estejam diretamente envolvidos, são afetados econômica ou estrategicamente, explica ela.

MacMillan aponta ainda mais um risco: de que o conflito em uma região possa criar oportunidades em outros locais.

AChina, por exemplo, pode perceber que essa distração do Ocidente representa uma oportunidade para que ela se movimente em direção aTaiwan. Ou aRússiapoderá intensificar suas ações naUcrânia, enquanto a atenção global estiver em outro ponto do planeta.

"Sempre existe a possibilidade de que um conflito se espalhe para fora de uma região, em parte porque países fora daquela área observarão oportunidades, já que a guerra envolve pessoas que poderiam impedi-los de fazer o que desejam", explica MacMillan.

Maiolo acredita que o conflito permanecerá regional, atraindo os países do Conselho de Cooperação do Golfo, que inclui aArábia Saudita. Masele não vê aChinae aRússiasendo levadas para a guerra.

Para ele, "esta ideia de que algo acontece no mundo e aChinairá se lançar contraTaiwan, simplesmente... não faz nenhum sentido".

"Mas, se estivermos falando em Guerra Mundial, sabe, a Terceira Guerra Mundial, não acho que haja alguma inclinação para que aChinae aRússiase envolvam diretamente e, muito menos, é claro, a Europa."

Ele acredita que aChinatem outros planos para sua diplomacia com o presidente americanoDonald Trump.

"Quando seu rival está cometendo um enorme erro estratégico, você simplesmente deixa que ele vá e continue o que está fazendo", explica o professor.

Seria do interesse daChinanão desempenhar um papel diplomático, mesmo sofrendo as consequências da flutuação dos preços do petróleo?

Para Maiolo, este é um preço pequeno a pagar.

"Na hierarquia dos interesses estratégicos como um todo, é muito mais interessante para aChinater osEstados Unidospreocupados com o Oriente Médio do que suas fontes de petróleo."

Segundo MacMillan, a história tem demonstrado que a guerra, muitas vezes, é deflagrada por orgulho, senso de honra ou por medo dos oponentes.

Ela indica que a história também mostra que os líderes individuais podem estabelecer o curso dos eventos.

"O então primeiro-ministro francês, Georges Clémenceau [1841-1929], na Primeira Guerra Mundial, declarou que fazer a paz é mais difícil que fazer a guerra", relembra a professora.

Para ela, muitas vezes existe o argumento de que, se houver grandes perdas ou sacrifícios das pessoas, os líderes decidem que precisam "continuar para ganhar a guerra".

MacMillan afirma que o orgulho pode ser importante para os líderes e indica Putin como exemplo. "Ele claramente cometeu um erro real ao tentar invadir aUcrânia."

Pouco depois doinício da invasão, quatro anos atrás, Putin declarou que seu objetivo era "desmilitarizar e desnazificar" a Ucrânia, mas aRússiadiz que seus objetivos militares ainda não foram atingidos, destaca a professora.

O ministro da Defesa doReino Unidocalcula que aRússiatenha sofrido um total de 1,25 milhão de mortes. Acredita-se que este número seja subestimado e, mesmo assim, é muito maior do que todas as mortes americanas ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial[1939-1945], segundo o ministro britânico das Forças Armadas.

MacMillan destaca que oslíderes que se recusam a recuar ou admitir o fracasso podem prolongar e aprofundar os conflitos.

Ela acrescenta que, no passado, figuras como Adolf Hitler (1889-1945) continuaram lutando, mesmo quando a derrota era inevitável, levados pela ideologia, orgulho ou ilusão. E estas decisões podem transformar conflitos limitados em guerras devastadoras.

Caminhos para a contenção

Para atingir a contenção, a diplomacia é muito importante, destaca MacMillan.

"Você precisa conhecer o outro lado... e precisa ficar em contato com eles."

Ela explica que as comunicações melhoraram de todos os lados nos últimos tempos da Guerra Fria (1947-1991) e com o envolvimento da Otan.

"Existem muitos exemplos em que as pessoas disseram 'espere um minuto, isso está ficando uma maluquice'", prossegue a professora. "Eles compreenderam que estava ficando volátil demais e que eles precisavam reduzir a temperatura."

A existência de armas nucleares é sempre uma consideração nas políticas de desescalada, quando grandes potências estão envolvidas.

Maiolo concorda. Para ele, "é preciso haver um reconhecimento... em Tel Aviv, Washington e Teerã... que eles atingiram os limites do que pode ser alcançado".

O professor explica que a continuação da guerra não irá "produzir um resultado desejado" para todos os lados.

"Haverá necessidade de algum tipo de acordo sobre o levantamento de sanções, algum tipo de acordo de segurança, alguma espécie de entendimento sobre o lugar doIrãna política global", segundo ele.

Maiolo afirma que, somente pela mediação, as potências envolvidas podem chegar a um cessar-fogo e, depois, transformá-lo em um acordo mais duradouro.

Edição de Alexandra Fouché