Equipe econômica estima alta de gastos públicos três vezes acima do limite da regra fiscal em 2026

Equipe econômica estima alta de gastos públicos três vezes acima do limite da regra fiscal em 2026
Aumento é impulsionado por despesas fora do limite da regra fiscal e medidas adotadas pelo governo Lula, como política do salário mínimo e reajustes salariais aos servidores.
A equipe econômica está prevendo que as despesas totais do governosomem R$ 2,63 trilhões em 2026, com um crescimento real (acima da inflação) de 7,95%, ou R$ 194 bilhões.

Os números constam no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, encaminhado neste mês ao Congresso Nacional.

Em 2025, os gastos do governo somaram R$ 2,44 trilhões.

➡️Com umaalta real (acima da inflação) projetada de quase 8% em 2026, um ano eleitoral, as despesas totais subirão3,2 vezes acima do limite de 2,5%existente noarcabouço fiscal, a regra para as contas públicas.

➡️De acordo com o Ministério da Fazenda, o aumento real das despesas pode apresentar "valores distintos" do limite de 2,5% do arcabouço fiscal por conta de alguns fatores. São eles:

Og1entrou em contato com o Tesouro Nacional e questionou se o arcabouço fiscal está falhando em conter as despesas, apesar do limite de 2,5% fixado.

"Sim, a regra está em pleno funcionamento, com observância por todos os Poderes. Conforme mencionado, há seção específica do relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas do 1º bimestre de 2026 que demonstra a compatibilidade das projeções com o limite de despesas estipulado pela LC nº 200/2023", disse o Ministério da Fazenda.

Crescem as exceções ao limite de gastos

➡️Conforme a explicação do governo, um motivo para alta real projetada dos gastos quase três vezes acima do teto do arcabouço, em 2026, são gastos fora do teto de 2,5%.

Veja despesas não sujeitas ao limite da regra fiscal:

A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado Federal, estima quecerca de R$ 250 bilhões em gastos (sem contar as transferências constitucionais aos estados e municípios) estarão fora do limite do arcabouço fiscal neste ano.

➡️O órgão observou, em estudo divulgado no fim de 2025,que as exceções ao arcabouço fiscal cresceram nos últimos anos.

Avaliou, ainda, que o "uso contínuo" dessas exceções pode trazer um "indesejável enfraquecimento dessas regras como âncoras fiscais".

"No limite, as regras deixariam de orientar os rumos da política fiscal, diminuindo a previsibilidade da atuação do poder público em relação à execução das despesas primárias", avaliou a instituição.

Estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, divulgado em 2025, chega à mesma conclusão.

"As novas exclusões e constituição de arranjos extraorçamentários cumulativamente reduzem a universalidade da regra e podem afetar a credibilidade do arcabouço fiscal (...) A consolidação do regime fiscal dependerá da capacidade do Congresso Nacional, do Poder Executivo e dos órgãos de controle em resistir à proliferação de exceções e fundos privados", diz o texto.

Previdência e gastos com servidores

➡️Grande parte da pressão de aumento dos gastos, porém,está relacionada àsdespesas previdenciárias—estas dentro do limite do arcabouço fiscal —, com estimativa de umaalta real (acima da inflação) de 7,6% neste ano, o equivalente a quase R$ 80 bilhões.

O crescimento de gastos da Previdência, por sua vez, tem a ver com apolítica de aumento do salário mínimo acima da inflaçãoadotada pelo presidente Lula.

Além do reajuste do salário mínimo, o governo também informou quebuscará reduzir a fila do INSS, o que também pressionará as despesas em 2026.

➡️O governo estima ainda que osgastos com os servidores públicos terão forte alta neste ano, somandoR$ 457 bilhões, um aumento real de quase 12%(bem acima do limite de 2,5% do arcabouço fiscal).Nesse caso, o aumento estimado é de R$ 47 bilhões.

O governo Lula retomou a política dereajustes salariais aos servidores públicos, interrompida na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, e também vem concedendoaumento de outros benefícios, como o vale alimentação.

Pressão sobre os gastos livres

➡️Como os gastos com benefícios previdenciários e com servidores estão dentro do limite do arcabouço fiscal e são obrigatórios, eles não podem ser cortados pelo governo federal.

➡️Para atingir a meta fiscal e limitar as despesas sujeitas ao teto dentro do limite de alta real de 2,5%, aárea econômica terá de comprimir os gastos livres, chamados de "discricionários".

Entre os gastos livres (discricionários) do governo, estão:

Com essa dinâmica de expansão dos gastos obrigatórios,economistas avaliam que será necessária umanova reforma fiscal no futuro, pois oarcabouço, com as regras atuais, ficará insustentável.

Crescimento da dívida pública

A dinâmica de crescimento dos gastos também está pressionando a inflação, o que demanda juros mais altos por parte do Banco Central. Atualmente,a taxa básica da economia está em 14,5% ao ano,patamar historicamente elevado.

Esse chamadociclo vicioso de aumento de gastos e de juros elevados,por sua vez,pressiona a dívida pública brasileira — que já está acima dos países emergentes e da Zona do Euro.

💵Em termos práticos, com uma dívida mais alta há uma pressão maior sobre a taxa de juros brasileira. Isso se reflete nos juros cobrados pelo mercado financeiro ao setor produtivo da economia, restringindo o crescimento do país.

🔎 A dívida do setor público consolidado é considerada um termômetro da chamada "solvência" de uma nação, ou seja, da capacidade de honrar seus compromissos futuros. Quanto maior o indicador, maior o risco de um calote em momentos de crise.

Para conter o endividamento público,analistas apontam que o governo deveria retomar superávits nas contas públicas por meio de reformas mais profundas nos gastos obrigatórios (previdenciários, pessoal e sociais, por exemplo).

Apesar da ausência de medidas mais duras no primeiro mandato do presidente Lula, a equipe econômica já deu sinais de preocupação sobre o aumento dos gastos obrigatórios.

Umcontrole maior dos gastos públicos é algo que vem sendo pedido por economistas do mercado financeiro desde o início do governo Lula.

Além dareforma de gastos sociais e de uma nova reforma previdenciária, eles também recomendam uma reforma administrativa, a desvinculação do salário mínimo das despesas previdenciárias e a desindexação de despesas com saúde e educação, entre outras medidas.