Nas últimas semanas,Israeltem promovido intensos ataques aéreos contra posições doHezbollahnoLíbano, avançando por terra sobre parte do território do país vizinho. Na capital,Beirute, bombardeios israelenses atingiram áreas residenciais e deixaram mais de 200 mortos.
A ofensiva israelense, que ocorre paralelamente à guerra no Irã, foi deflagrada após o grupo terrorista xiita disparar mísseis contraIsraelem apoio ao Irã, no início de março.
A escalada marcou o fim definitivo de um frágil cessar-fogo que estava em vigor desde novembro de 2024.
Da perspectiva da liderança israelense, Tel Aviv não está apenas reagindo aos ataques, e sim perseguindo vários objetivos estratégicos — desde enfraquecer oHezbollahe estabilizar a fronteira norte até conter a influência iraniana na região.
Mas, conformeIsraelcontinua a expandir suas operações e a ordenar a explusão de centenas de milhares de pessoas,cresce o temor de uma nova ocupação de longo prazo do sul doLíbano.
Hezbollahé considerado ameaça militar
Israelconsidera oHezbollahuma das maiores ameaças militares ao país. Fontes de segurança afirmam queo grupo é capaz de alcançar praticamente todo o território israelense com suas armas—o grupo xiita é classificado como organização terrorista por diversos países do Ocidente, possui um amplo arsenal de foguetes e uma estrutura militar relativamente bem organizada.
O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa deIsrael, Eyal Zamir, declarou, segundo o jornal "Haaretz", queIsraelnão encerrará a guerra enquanto a ameaça representada peloHezbollahnão for eliminada.O objetivo é enfraquecer ou destruir, a longo prazo, as capacidades militares do grupo noLíbano.
O cientista político Peter Lintl, da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, vê nisso uma mudança na lógica militar israelense. "Essa é, de modo geral, a nova orientação estratégico-militar deIsrael, que se desenvolveu após o 7 de outubro", afirma. O objetivo deixou de ser apenas conter os adversários e passou a ser "combatê-los de forma que deixem de representar qualquer perigo".
Mas Lintl considera improvável a eliminação total da organização, que é também um partido político com presença no Parlamento."OHezbollahestá amplamente enraizado na sociedade e é parte da estrutura social libanesa." Por isso, é mais provável queIsraeltente "estabelecer uma zona de segurança no sul e ocupar ali posições" do grupo.
Retorno de civis ao norte deIsrael
Outro objetivo deIsraelé estabilizar permanentemente a situação de segurança no norte do país. Desde os ataques terroristas do Hamas contraIsraelem outubro de 2023 e os confrontos subsequentes com oHezbollah, inúmeras localidades próximas à fronteira libanesa foram evacuadas, e dezenas de milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo o jornal "Times ofIsrael", o governo israelense busca "o retorno seguro dos moradores do norte às suas casas".
Mas Lintl observa quese causar o maior dano possível aoHezbollahpode dar tempo aIsrael, não resolve de forma duradoura o problema político subjacente.
"Não se pode bombardear uma ideologia política até fazê-la desaparecer", ressalta, apontando para a falta de uma proposta política para oLíbano.
Enfraquecimento da rede de aliados iranianos
Israeltambém considera oHezbollahparte de uma aliança regional maior sob a liderança do Irã.Além do grupo terrorista noLíbano, esse bloco inclui grupos pró-Irã no Iraque e na Síria, bem como os houthis no Iêmen.
Segundo o jornal "Jerusalem Post", o chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou queIsraelpretende eliminar a ameaça representada pelo "eixo xiita" liderado pelo Irã. Analistas israelenses argumentam que Teerã exerce sua influência na região por meio desses aliados e frequentemente trava seus conflitos comIsraelde forma indireta, através desses grupos.
Para Lintl,Israelaproveitou a oportunidade, após os ataques doHezbollah, para agir militarmente contra o grupo."Todo Estado tem o interesse legítimo de proteger seus habitantes", pondera. Ao mesmo tempo, ele destaca quea proteção da população israelense frequentemente implica impactos massivos noLíbano:"A tentativa de criar uma zona de segurança significa, ao mesmo tempo, que dezenas de milhares de pessoas no sul doLíbanoprecisam ser evacuadas."
Ocupação do sul doLíbano?
No final de março, o ministro israelense da Defesa,IsraelKatz, anunciou planos para acriação de uma "zona-tampão defensiva"que vai desde a fronteira até o rio Litani, a 30 quilômetros dali, com ademolição em larga escala de casas e pontes na região, sinalizando uma possível ocupação de longo prazo de parte do território libanês.
"Ao final da operação, as Forças Armadas deIsraelse estabelecerão em uma zona de segurança dentro doLíbano, em uma linha defensiva contra mísseis antitanque, e manterão o controle de segurança sobre toda a área até o rio Litani", disse Katz no fim de março.
Katz disse que aocupação vai durar até depois das operações contra oHezbollah.O ministro não deu um prazo específico, mas disse que, no período, todas as casas de vilarejo na faixa do sul doLíbanoperto da fronteira comIsraelserão demolidas, seguindo um modelo adotado porIsraelna Faixa de Gaza.
Pelos planos,os cerca de 600 mil civis libaneses que viviam ali não poderão retornar para suas casasaté "que a segurança dos residentes de norte deIsraelesteja garantida". Segundo Katz, essas centenas de milhares de libaneses deslocados serão "completamente impedidos" de retornar no período.
A remoção de civis do sul tem atingido especialmente xiitas, grupo étnico muçulmano que compõe a base de apoio doHezbollah, informou o jornal norte-americano "The New York Times".
Na prática, a zona-tampão significa a ocupação de uma área equivalente a quase 10% do território libanês. OHezbollahavisou que resistirá aos planos.
Israelacusa o governo libanês de não fazer "nada" para desarmar o grupo, embora uma confrontação direta pudesse levar o país à guerra civil.
Não seria a primeira vez queIsraelabre a porta para uma ocupação de longo prazo do sul doLíbano. Isso já aconteceu de 1982 a 2000, com o nome de "zona de segurança". Na época, a ocupação foi encerrada pelo novo governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, que havia feito da retirada uma promessa de campanha, em meio à crescente rejeição da opinião pública israelense à manutenção de tropas na região.
Enfraquecer Hezbollah e criar 'zona-tampão': o que Israel busca na guerra no Líbano
Exército israelense avançou no início de março sobre o sul do Líbano. Ofensiva visa enfraquecer grupo terrorista Hezbollah e neutralizar influência do Irã, mas Israel também tem sedimentado controle sobre parte do país.