ADoença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), diagnosticada no especialista em aviação e influenciador Lito Sousa, é umacondição neurológica rarae deevolução rápida, que pode provocar perda de memória, alterações de comportamento, dificuldade de coordenação e comprometimento dos movimentos.
Estimativas internacionais apontam para cerca de1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano.
No Brasil, neurologistas ouvidos pelog1avaliam que parte dos casos pode nem chegar ao diagnóstico, o que ajuda a explicar a diferença entre os registros nacionais e a frequência observada em outros países(entenda mais ABAIXO).
Um dos principais desafios é reconhecer a doença no início. Os primeiros sintomas podem se parecer com os de outras condições neurológicas, comoencefalitese outras causas dedemência rapidamente progressiva.
➡️ Além disso, a DCJ costuma avançar em poucos meses, o que torna importante investigar cedo e descartar outras doenças que podem ter tratamento.
A investigação combina avaliação clínica com exames comoressonância magnética,eletroencefalogramae análise dolíquor, o líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal.
Um ponto importante, porém, é o acesso aoRT-QuIC, um dos testes mais específicos para ajudar a identificar a doença.
E apesar de ter melhorado a precisão do diagnóstico nos últimos anos, o exame ainda não está amplamente disponível no Brasil.
Mas por que a DCJ é tão incomum? E o que torna seu diagnóstico tão complexo? Entenda mais abaixo.
Por que a Doença de Creutzfeldt-Jakob é tão rara?
A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) está entre as condições neurológicas mais incomuns do mundo.
Estimativas usadas por órgãos como oNHS, o sistema público de saúde do Reino Unido, apontam para cerca de 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano.
➡️ Isso significa que, mesmo em países comsistemas de vigilância muito bem estruturados, a doença aparece poucas vezes por ano.
No Brasil, porém, especialistas avaliam que o número conhecido pode estar abaixo do real.
“A gente não sabe por que essa doença é tão rara, mas ela não é tão rara quanto os dados que a gente tem no Brasil”, afirma Jerusa Smid, neurologista do Hospital das Clínicas da USP, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital Israelita Albert Einstein.
Entre 2005 e 2021, o Ministério da Saúde recebeu1.576 notificaçõesde suspeita de DCJ. Desse total,547 foram confirmadas, 457 descartadas e 572, ou 36,3%, ficaram sem classificação final informada.
👉 Mas para entender por que a DCJ é tão incomum, é preciso olhar para o que acontece no cérebro.
A doença é causada porpríons, proteínas que assumem uma forma anormal. Quando isso acontece, elas podeminduzir proteínas saudáveis do cérebro a também mudar de formato.
“Uma vez que haja essa transformação, essa forma transformada entra em contato com outra proteína normal e faz com que essa normal também seja transformada em príon”, explica Jerusa.
Com o avanço da doença, o processo vai se repetindo e leva ao acúmulo dessas proteínas anormais, resultando em umdano progressivo às células cerebrais.
📝 Na forma mais comum da condição, chamadaesporádica, os cientistas ainda não sabem por que essa transformação começa.
Também não há uma causa identificada que explique por que ela ocorre em algumas pessoas e não em outras.
E DCJ também não é a única doença causada por príons. Existem outras condições ainda mais raras dentro desse grupo, como a síndrome deGerstmann-Sträussler-Scheinkere ainsônia fatal,quadro queimpede um paciente de dormir.
⚠️ A raridade, portanto, não significa que todos os casos sejamnecessariamente identificados.
Como a doença é pouco frequente, evolui rapidamente e pode se parecer com outros problemas neurológicos, parte dos pacientes pode passar por diferentes hipóteses antes que a DCJ entre na investigação.
Por que o diagnóstico pode ser tão difícil?
Um dos principais obstáculos é que não existe umsintoma inicial exclusivoda DCJ. O quadro pode começar de formas diferentes e se confundir com outras doenças neurológicas.
Entre os sinais que podem aparecer estão:
Todos esses sinais também podem aparecer emdoenças muito mais frequentes.
“Se você pensar nas demências, no geral, a mais clássica é a doença de Alzheimer, que pode levar anos, às vezes até décadas, de evolução dos sintomas. A Creutzfeldt, em geral, se instala de forma mais rápida e tem uma sobrevida bem mais curta”, explica Marcio Luiz Figueredo Balthazar, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
“Ela entra num diagnóstico diferencial do que a gente chama de demência rapidamente progressiva, que pode ter várias causas”, acrescenta Balthazar.
📌Entre as possibilidades que precisam ser investigadas estão, por exemplo,encefalites,doenças autoimunes, outrosquadros neurodegenerativosealterações metabólicas.
Isso é importante porque algumas dessas doenças têm tratamento. Por isso, a investigação precisa descartar outras causas de piora rápida da memória, do raciocínio e dos movimentos antes de fechar o diagnóstico de DCJ.
A velocidade da doença ajuda a levantar a suspeita?
Sim. A progressão rápida é uma das pistas.
No Alzheimer, os sintomas costumam evoluir ao longo de anos. NaDCJ, mudanças importantes podem aparecer empoucos meses.
Também podem surgir problemas motores, como desequilíbrio e mioclonias, pequenos movimentos involuntários.
“É uma doença de instalação e progressão muito rápida”, afirma Balthazar.
➡️ Mas a velocidade, sozinha,NÃOconfirma o diagnóstico.
Quais exames são usados na investigação?
Não existe umúnico exame de rotinaque, sozinho e em todos os pacientes, resolva a investigação.
Geralmente, o neurologista combina a história clínica e o exame do paciente com diferentes testes.
📝 Entre os principais estão:
A ressonância é especialmente importante porque determinados padrões cerebrais podemfortalecerbastante a suspeita.
Já oRT-QuIC(do inglêsReal-Time Quaking-Induced Conversion, ou conversão induzida por tremor em tempo real) representou um avanço no diagnóstico nos últimos anos porque consegue detectar, de forma indireta, a atividade característica dos príons.
“Esse exame ajuda no diagnóstico na maior parte dos casos. O problema é que ele ainda não está disponível com tanta facilidade no Brasil”, afirma Jerusa.
Quando disponível, o RT-QuIC é feito a partir de uma amostra do líquor e busca sinais de proteínas priônicas anormais.
➡️ No laboratório, a amostra é colocada em contato com proteínas normais. Se houver príons, eles induzem essas proteínas a mudar de forma, e a reação pode então ser detectada.
O teste começou a ser usado clinicamente em meados dadécada passadae passou a ter um papel importante na investigação da DCJ.
A principal vantagem é a alta precisão. Em alguns estudos com grupos de pacientes, o RT-QuIC apresentou especificidade próxima de 100%.
Na prática, isso significa que, quando o teste dá positivo, há umachance muito altade o resultado realmente apontar para a doença.
A sensibilidade, porém, pode variar. Esse é o índice que mostra a capacidade do exame de identificar quem de fato tem a doença — e alguns casos podem escapar do teste.
E por que pode haver subnotificação no Brasil?
A própria raridade cria uma primeira barreira:é preciso lembrar da doença para investigá-la.
Um neurologista pode atender milhares de pessoas com queixas de memória, mas encontrar pouquíssimos casos de DCJ ao longo da carreira.
Além disso, os exames necessários podem exigir centros com maior estrutura.
“É uma doença rara mesmo, difícil de suspeitar muitas vezes”, diz Balthazar.
Jerusa também chama atenção para a diferença entre a ocorrência estimada internacionalmente e o número de diagnósticos registrados no país. Para ela, há casos que provavelmentenão são identificados.
Os próprios registros oficiais brasileiros apresentam lacunas. No levantamento de 2005 a 2021, mais de um terço das notificações não tinha classificação final informada.
O boletim do Ministério da Saúde também registrou ausência de informação sobre a evolução clínica em mais da metade das notificações analisadas.
Isso não permite concluir quantos casos de DCJ deixam de ser diagnosticados no Brasil, mas mostra que avigilância da doença ainda tem limitações.
“Como são casos de rápida evolução, de demência e perda cognitiva, o neurologista tem que estar atento e fazer essa investigação o quanto antes”, afirma Jerusa.
Creutzfeldt-Jakob: por que a doença é tão rara e difícil de diagnosticar?
Condição que afeta o especialista em aviação e influenciador Lito Sousa atinge cerca de 1 a 2 pessoas por milhão ao ano. Evolução rápida e sintomas que se confundem com outras doenças neurológicas estão entre os desafios para identificar os casos.