O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), realiza esta semana uma missão em Goiás que investiga a atuação de grupos neonazistas no estado, além da ocorrência de manifestações de discurso de ódio. A iniciativa faz parte do desenvolvimento de um relatório nacional sobre os temas.
Em entrevista aog1, Carlos Nicodemos Oliveira Silva, relator especial de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, Extremismo e Neonazismo do CNDH, disse que o objetivo das ações é produzir um diagnóstico, a partir de encontros com órgãos da segurança pública e integrantes dos três poderes do estado, para o combate à disseminação de conteúdos de cunho racista, xenófobo, misógino e homofóbico, além de intolerância religiosa contra adeptos de religiões de matriz africana.
"Ficou evidente a necessidade de investimentos na parte de formação e letramento quanto ao enfrentamento ao neonazismo, o discurso de ódio e o extremismo", afirmou.
Nicodemos destaca que os relatos de adeptos do neonazismo não se restringem a Goiás e nem apenas ao Brasil. O crescimento desses grupos tem sido identificado também em outros países, principalmente entre os jovens.
"Por isso, a necessidade de ter mecanismo de detecção e tratamento de fatos e denúncias que acabam ocorrendo nesse universo, especialmente jovem", disse.
Seis células neonazistas em Goiás
Antes de Goiás, o levantamento do CNDH já esteve em:
A missão em Goiás, entre os dias 23 e 25, abrangeu reuniões privadas com autoridades e eventos públicos para ouvir a sociedade goiana sobre os casos. Na terça (24), os integrantes da missão visitaram um terreiro no bairro Itatiaia, na capital, onde ouviram lideranças.
Nesta quarta-feira (25), a Câmara Municipal deGoiâniarealizará uma audiência pública para receber denúncias e dialogar com a sociedade civil, como pesquisadores, especialistas e outros cidadãos. Em entrevista aog1, o vereador Fabrício Rosa (PT), responsável pela organização do evento na Casa, disse que, além de subsidiar as políticas públicas localmente, os relatórios realizados pelo CNDH em cada um dos estados são encaminhados para agências internacionais, especialmente para a Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo Rosa, os grupos extremistas, que incluem os neonazistas, têm como alvo diversas comunidades, mas a LGBTQIAPN+ é a mais afetada.
"O que está mobilizando o conselho neste momento é o crescimento das células neonazistas, especialmente entre a juventude, nos estados", disse.
O vereador cita uma pesquisa realizada pela antropóloga Adriana Dias, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que mostrou a existência de pelo menos seis células neonazistas em Goiás, sendo quatro delas em Goiânia, uma em Luziânia e outra emPirenópolis.
A pesquisa à qual o parlamentar se refere foi divulgada em 2019 pelo jornal "O Popular". Segundo a reportagem, ela fez parte da tese de doutorado da pesquisadora, que concluiu que a maior célula, identificada como Azov, fica em Goiânia e foi inspirada por uma organização paramilitar da Ucrânia.
O discurso principal do grupo era de limpeza étnica e perseguição a homossexuais. "O movimento chegou até Goiás vindo da Ucrânia e da Rússia", afirmou à reportagem.
Já no interior, a antropóloga identificou grupos inspirados nos movimentos neonazistas dos Estados Unidos.
Segundo Carlos Nicodemos, o relatório com as conclusões dessa missão deve ser lido entre 30 e 60 dias no plenário do Conselho, com um conjunto de recomendações para o Estado de Goiás. Já a previsão para a conclusão do relatório total, de todo o país, é o final de 2026.
Conselho Nacional de Direitos Humanos investiga neonazismo em Goiás
Missão especial reúne depoimentos e informações de autoridades da segurança pública sobre casos de discursos extremistas. Goiás tem pelo menos seis grupos neonazistas, que atraem principalmente jovens.