Nacoluna de terça, escrevei sobre um novo estudo que mostra o risco do excesso de medicamentos depois de uma alta hospitalar. Os achados reforçam a importância da revisão da medicação e da desprescrição (a retirada de fármacos desnecessários) para otimizar os resultados da reabilitação. Aproveito para retomar um tema já abordado aqui: os Critérios de Beers.
Criada pela Sociedade Americana de Geriatria em 1991, essa é uma das diretrizes mais respeitadas no mundo para orientar prescrições seguras para idosos. O objetivo não é proibir o uso de remédios, mas alertar sobre Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos superam os benefícios.
Em 2023, houve uma atualização da lista. Segue um resumo das principais categorias e as orientações que estão em vigor:
Medicamentos que devem ser evitados (em geral): fármacos com alto risco de efeitos colaterais ou eficácia limitada em idosos
Medicamentos a serem evitados em doenças específicas: a diretriz lista interações entre fármacos e condições clínicas pré-existentes
Medicamentos que devem ser usados com cautela: o uso é permitido, mas exige monitoramento rigoroso
Interações medicamentosas preocupantes: combinações perigosas que aumentam o risco de hospitalização
Na lista de 2023, a varfarina se tornou um medicamento a ser evitado no início de tratamento de certas condições – a opção são os novos anticoagulantes orais, como apixabana – devido ao alto risco de sangramento. Em relação ao diabetes, houve um alerta mais rígido contra todas as sulfonilureias, pelo risco prolongado de hipoglicemia grave em idosos. Reforçou-se a cautela no uso de aspirina para prevenção primária (em quem nunca teve evento cardíaco), pois o risco de sangramento estomacal ou cerebral supera os benefícios após os 60-70 anos.
É bom lembrar: a polifarmácia (uso de cinco ou mais remédios) frequentemente inclui itens incluídos na Beers. Se um idoso está usando um benzodiazepínico para dormir, ele terá menos equilíbrio e força para as sessões de fisioterapia, o que explica por que o ganho funcional será menor.
Em julho de 2025, a Sociedade Americana de Geriatria liberou um recurso complementar: a Lista de Alternativas aos Critérios de Beers. Enquanto os critérios dizem o que não usar, essa relação foca no que os médicos podem prescrever em substituição para tratar problemas comuns como insônia, ansiedade e dor, ajudando na prática da desprescrição. Seguem algumas das opções:
Higiene do sono e Terapia Cognitivo-Comportamental, além de melatonina em doses baixas ou agonistas de melatonina (como ramelteona), que não aumentam o risco de quedas ou confusão mental.
Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina, como a sertralina ou escitalopram. Demoram algumas semanas para fazer efeito, mas não causam a dependência dos ansiolíticos comuns. Como opção não farmacológica, são recomendadas a psicoterapia e técnicas de relaxamento.
Para dor crônica (artrite/artrose):
A alternativa de primeira linha é o paracetamol (respeitando o limite diário) para dores de leves a moderadas. Para serem aplicados na pele, géis ou adesivos de diclofenaco sódico ou lidocaína, pois a absorção sanguínea é mínima, protegendo os rins e o estômago. Por fim, fisioterapia assistida e exercícios de baixo impacto.
Para sintomas urinários (bexiga hiperativa):
Muitos remédios para bexiga são anticolinérgicos, associados ao declínio cognitivo. A mirabegrona é um medicamento de uma classe diferente, que combate a urgência urinária sem afetar a parte cognitiva ou provocar confusão mental.
Confira se seus medicamentos fazem parte dos Critérios de Beers
A lista, criada pela Sociedade Americana de Geriatria, aponta remédios potencialmente inapropriados, cujos riscos podem superar os benefícios.