Como falas de Trump mexem no preço do petróleo — e como ele reage com respostas do Irã

Como falas de Trump mexem no preço do petróleo — e como ele reage com respostas do Irã
Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que mercado reage mais às expectativas da guerra no Oriente Médio do que à oferta real de petróleo. Quando as sinalizações mudam, preços podem oscilar rapidamente.
O mercado reage a cada manifestação dos EUA e reação doIrã.Após discurso deDonald Trumpsobre a guerra noOriente Médio, o preço do petróleo Brent teve alta de 4,9%, chegando a US$ 106,16 (cerca de R$ 547,78) por barril nesta quinta-feira (2).

Mais cedo nesta quarta-feira (1º), Trump afirmou que as Forças Armadas dosEUA devem deixar o Irã "muito rapidamente"e que o país pode retornar para "ataques pontuais", se necessário.

Em mais um indicativo de que a guerra no Oriente Médio pode chegar ao fim,Trump também disse que o Irã pediu um cessar-fogono conflito entre os dois países.

OIrã negou a informação, assim como tem negado a existência de negociações diretas com os EUA.

Não é a primeira vez que essa disputa de versões ocorre, e tem impactado o mercado de petróleo —que subiu de cerca de US$ 70 para US$ 110 ao longo do conflito, gerando uma crise energética sem precedentes.

Recentemente, a primeira postagem de Trump falandosobre possíveis negociações com o Irã para encerrara guerra provocou uma reação imediata.Em poucos minutos, o preço do barril caiu quase US$ 15, mesmo que a interrupção da guerra não tenha se concretizado.

Para o Instituto de Estudos de Energia de Oxford (OIES), o episódio ilustra o peso que declarações políticas podem ter sobre um mercado altamente sensível a notícias sobre conflitos e riscos de interrupção na oferta de petróleo.

“A administração dos EUA tem intervindo pesadamente no mercado de petróleo por meio de fluxos de informação e mensagens, que nem sempre são precisas ou corretas”, afirma Bassam Fattouh, diretor do IOES.

Segundo ele, Washington tem buscado “soluções criativas diariamente para manter o preço do petróleo estável”.

Esse tipo de estratégia tende aaumentar a volatilidade das cotações no curto prazo, mas também revela a preocupação das autoridades em conter osimpactos econômicos da guerra.

Tensão no Oriente Médio mexe com o petróleo

Quando surgem declarações que indicam negociações, possíveis tréguas ou mediação internacional, a tensão dos investidores diminui e, com isso, o temor de problemas no transporte de petróleo também recua, explica Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

“As quedas no preço do petróleo ocorrem invariavelmente sempre que surgem sinais de redução na tensão geopolítica”, afirma.

O economista explica que qualquer indicação de melhora nofluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuzmuda rapidamente a leitura do mercado.

“A expectativa de que as tensões diminuam já é suficiente para que os preços caiam imediatamente. Mesmo que nada tenha mudado efetivamente na produção ou na logística de distribuição.”

Um desses episódios ocorreu em 9 de março.Na ocasião, Trump afirmou que a guerra contra o Irã estaria “praticamente concluída” e poderia terminar em breve. A declaração levou parte do mercado a reduzir as apostas em uma interrupção prolongada no fornecimento de petróleo.

Como resultado,o preço do barril do tipo Brent caiude cerca deUS$ 98,96paraUS$ 87,8no dia seguinte. A queda, porém, durou pouco.

No dia seguinte, autoridades iranianas rebateram as declarações de Trump edescartaram qualquer cessar-fogo ou negociação com Washington. O chanceler do país, Abbas Araghchi, afirmou que o desfecho do conflito seria decidido por Teerã e indicou que não haveria diálogo.

Com a sinalização de continuidade da guerra e da possibilidade de novas tensões na região, o mercado voltou a revisar suas expectativas.O resultado foi uma nova alta nas cotações, com o petróleo subindo deUS$ 87,8paraUS$ 91,98.

Retórica vira estratégia geopolítica

O peso das declarações políticas também foi analisado por Javier Blas, colunista de energia e commodities da Bloomberg. Ele descreve a estratégia adotada por Donald Trump como uma forma de “jawboning”.

“O presidente Donald Trump fez intervenções verbais constantes e eficazes”, escreveu o colunista. “Seu ‘jawboning’ sobre o fim da guerra ajudou diretamente a conter compras motivadas por pânico.”

Para Blas, essas declarações ajudaram a evitar movimentos mais bruscos de alta, mesmo diante de preocupações com a oferta global de petróleo.Mas quando as declarações não se confirmam ou são contestadas, o movimento se inverte.

É o que aponta o analista Pedro Galdi, da AGF, ao destacar que o conflito tem sido marcado por versões divergentes entre os envolvidos.

“O presidente dos EUA sinaliza que está ocorrendo avanços nas negociações, por outro lado fontes do Irã desmentem”, diz Galdi.

Segundo ele, esse desencontro de informações dificulta a leitura do que está acontecendo emantém o mercado em constante ajuste. Em um momento, prevalece a expectativa de trégua. No seguinte, o risco de continuidade da guerra volta a ganhar força.

Para o analista, essa dinâmica explica por que o petróleo segue sob influência de movimentos especulativos.

“O preço do petróleo internacional segue em patamar elevado e com forte influência de movimentos de especulação”, afirma.

Expectativas ganham peso sobre a oferta

Esse padrão de reação — com quedas após sinais de negociação e altas quando essas sinalizações perdem força — ajuda a entender a rapidez com que o mercado tem reagido a declarações políticas.

Segundo Bassam Fattouh, diretor do Oxford Institute for Energy Studies (OIES), esse tipo de dinâmica ganhou força porqueos instrumentos tradicionais para lidar com crises no petróleo têm alcance limitado.

Medidas mais concretas, como ouso de estoques estratégicosou aadoção de sanções e regulações,costumam levar tempo para produzir efeitos e nem sempre conseguem resolver interrupçõesno fornecimento de grande escala.

“Autoridades estão intervindo pesadamente no mercado de petróleo em termos de fluxos de informação e mensagens (muitas vezes com certo grau de 'licença criativa')”, afirma o diretor do OIES .