Só nesta semana, duas grandes empresas recorreram à Justiça para reorganizar suas dívidas. OGrupo Gennius, dono das redesHabib’s,RagazzoeTendall, pediu recuperação judicial. Já apetroquímica Braskemprotocolou pedido de recuperação extrajudicial.
Com os novos episódios, agosto já somacinco casos emblemáticos: três de recuperação judicial e dois de recuperação extrajudicial. E há diversos fatores em comum entre eles.(entenda abaixo)
A lista deste mês inclui aAlliança Saúde, aMarabraze asCasas Bahia. Considerando todo o ano de 2026, são12 pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial.
As dificuldades financeiras têm atingido empresas de diversos setores, como saúde, indústria e energia. A maior concentração de casos, no entanto, está novarejo e no consumo.
“É no varejo de bens duráveis que dói mais, e por um motivo simples: ele é atingido pelas duas pontas do negócio ao mesmo tempo", afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
O especialista explica que, de um lado, os varejistas enfrentamdívidas mais caras e precisam manter estoques elevados.Do outro, osconsumidores dependem de parcelamentospara comprar.A combinação desses dois fatores pressiona o setor.
Para Matos, porém, os pedidos de recuperação não representam um risco sistêmico. “Esses casos foram amplamente telegrafados, com ressalva de auditor, patrimônio negativo e reestruturação anterior. Ou seja, não foram surpresa.”
Como ficam os consumidores?
Especialistas ouvidos pelog1avaliam que a onda de recuperações deve continuar, mas não representa, por ora, uma ameaça mais ampla a consumidores e à economia.
"Se as medidas econômicas não forem firmes, até pode haver retrocesso em pontos como qualidade de emprego e renda.Mas não vejo como um risco imediato", aponta Júlio Moretti, CEO da NEOT, especializada em dados sobre recuperações na Justiça.
Ele estima que o cenário turbulento para as empresas deve se prolongar pelos próximos 2 ou 3 anos. “É consenso que não se trata de algo que vai durar pouco tempo”, acrescenta.
Por que tantas recuperações?
Os pedidos derecuperação judicial e extrajudicialtêm algumas causas em comum. Entre as principais estão:
Para Cristina de Mello, professora da PUC-SP,os problemas financeiros das empresas podem ter origens diferentes, ainda que alguns fatores se repitam.“A gente não pode associar a todas o mesmo problema. Tem causas comuns, sim, mas há causas muito específicas e muito particulares”, afirma.
No caso da Marabraz, por exemplo, ela cita conflitos societários e familiares que comprometeram a renovação de linhas de financiamento e dificultaram o acesso a crédito.
O cenário também é especialmente difícil para companhias do varejo porque muitas trabalham com margens estreitas.“São empresas que precisam muito de capital de giro”, diz Mello.
Segundo Eduardo Terra, fundador da BTR Retail,o momento em que as dívidas foram contraídas ajuda a explicar parte dos problemas.Ele afirma que diversas empresas cresceram no período pós-pandemia recorrendo a empréstimos na expectativa de recuperar os lucros de antes da Covid-19. Depois, porém, se depararam com um custo maior do que o previsto para pagar essas dívidas.
“[A taxa Selic] veio aumentando por uma série de motivos econômicos e chegou a 15%. Agora, está em um ciclo lento de baixa. O problema é que o endividamento dessas empresas, que cresceram durante a pandemia, ficou muito caro”, explica.
E não é só isso. O Grupo Gennius, doHabib's, afirmou em seu pedido de recuperação que a mudança no comportamento dos consumidores depois da quarentena foi um dos fatores responsáveis pela crise financeira. Para os restaurantes, o aumento dos pedidos por delivery e a menor circulação de pessoas nas unidades contribuíram para o fechamento de diversas lojas.
Paula Sauer, professora da FIA Business School, afirma que a rede enfrenta custos elevados com matérias-primas, energia, salários e aluguel, enquanto atua em um segmento de preços baixos e com muitas opções para o consumidor.
Relembre abaixo os casos e as empresas em dificuldades financeiras.
OGrupo Toky, dono das marcas Tok&Stok e Mobly, entrou compedido de recuperação judicialpara reorganizar cerca deR$ 1 bilhãoem dívidas.
A empresa vinha enfrentando dificuldades financeiras desde a pandemia, quando fechou mais de 17 lojas, e afirmou que o cenário do setor de móveis e decoração agravou os problemas.
O Grupo Hortus, controlador doSt Marche, entrou com pedido derecuperação judicialpara renegociarR$ 574,3 milhõesem dívidas. A rede também acertou sua venda ao grupo chileno Cencosud, operação que depende da aprovação da Justiça e do Cade.
Uma das maiores redes de tratamento contra o câncer do país, aOncoclínicasentrou compedido de recuperação extrajudicialpara renegociar cerca deR$ 5,1 bilhõesem dívidas financeiras. Segundo a empresa, o processo não interrompe o atendimento aos pacientes nem as atividades do dia a dia.
AAlliança Saúdeentrou na Justiça com um plano derecuperação extrajudicialpara renegociar cerca deR$ 1,1 bilhãoem dívidas. A proposta prevê diferentes formas de pagamento aos credores, incluindo a conversão da maior parte da dívida em participação na empresa.
A rede de móveisMarabrazprotocolou pedido derecuperação judicialpara reorganizar as finanças e renegociar cerca deR$ 140 milhõesem dívidas. A empresa afirmou que as lojas continuam funcionando normalmente.
O Grupo Casas Bahia entrou com pedido derecuperação judicialpara reorganizar as finanças e renegociar cerca deR$ 17,3 bilhõesem dívidas. A medida é resultado de um processo de reestruturação iniciado em 2023, que incluiu fechamento de lojas e redução de funcionários.
ABraskem, uma das maiores petroquímicas do país, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca deUS$ 10,9 bilhões(R$ 56 bilhões) em dívidas. O valor chega a aproximadamente R$ 187,1 bilhões quando são incluídas dívidas entre empresas do próprio grupo.
Esse é o pedido de recuperação mais recente. Dono das marcas Habib's, Ragazzo e Tendall, oGrupo Genniusentrou com pedido de recuperação judicial para reorganizarR$ 265,2 milhõesem dívidas. As lojas próprias continuam funcionando normalmente, enquanto as franquias ficaram fora do processo.
Casas Bahia, Habib’s, Braskem: o que está por trás da onda de recuperações em 2026
Juros altos, crédito restrito, dívidas acumuladas e mudanças no consumo estão entre os fatores que levaram empresas de diferentes setores a buscar proteção da Justiça para reorganizar as finanças.