Câncer do cacique Raoni: entenda o tumor e por que médicos descartaram tratamento com intenção de cura

Câncer do cacique Raoni: entenda o tumor e por que médicos descartaram tratamento com intenção de cura
Confirmado por exame de tecido, o tumor tem origem nas células das glândulas e se revelou por uma obstrução no intestino. Em pacientes com mais de 80 anos, o tratamento muda de foco e prioriza o controle dos sintomas, explicam especialistas.
Ocâncer confirmado no cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, tem um nome técnico —adenocarcinoma pouco diferenciado—, mas uma origem que os médicos não conseguiram determinar com certeza.

A doença não apareceu em um exame de rotina: se anunciou por uma de suas complicações mais graves, a obstrução do intestino que levou o líder indígena a uma cirurgia de emergência em São Paulo, em junho.

O adenocarcinoma é o tipo mais comum detumor maligno do aparelho digestivo e recebe esse nome porque começa nas glândulas, estruturas que produzem substâncias como muco e enzimas ao longo do tubo digestivo.

O termo "pouco diferenciado" descreve células que já perderam boa parte da aparência e da organização das células saudáveis, uma característica associada a um comportamento mais agressivo.

O aparelho digestivo é um dos conjuntos de órgãos onde os tumores mais aparecem, e isso tem relação com a intensa renovação de suas células.

"É uma região em que as células nascem, crescem e morrem o tempo todo, em grande quantidade. Quanto mais divisão celular, maior a chance de surgir uma alteração genética que, somada a fatores do paciente e de comportamento, dê origem a um adenocarcinoma", explica o cirurgião Pedro Luiz Bertevello, doutor pela Universidade de São Paulo e especialista em cirurgia oncológica e do aparelho digestivo da Beneficência Portuguesa.

Decisiva, biópsia foi descartada

Todo diagnóstico de câncer depende, quase sempre, da retirada de um fragmento do tumor. Esse material é analisado por um patologista, que identifica exatamente de que tipo de doença se trata e, quando necessário, recorre a testes adicionais para caracterizá-la.

Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, esse passo é o que orienta todas as decisões seguintes.

"A biologia da doença é o que define as possibilidades de tratamento e o prognóstico. Sem identificar o tipo exato de tumor, o manejo se torna mais incerto", afirma.

No caso de Raoni, a lesão foi identificada em junho por uma endoscopia digestiva, mas a coleta de tecido foi evitada naquele momento pelo risco de sangramento. A confirmação veio depois: após a cirurgia, o exame anatomopatológico analisou o tecido do tumor e concluiu tratar-se de um adenocarcinoma.Esse exame identifica o tipo de célula que originou o câncer —no caso, uma célula glandular—, mas não aponta, sozinho, em qual órgão a doença começou.

E é o órgão de origem que segue indefinido. Bertevello explica que o adenocarcinoma nasce de células produtoras de muco e secreções, as mesmas que revestem estômago, pâncreas e intestino, entre outros —por isso um único diagnóstico pode ter vários pontos de partida possíveis.

"Quando a massa é muito grande, nem sempre dá para saber qual foi o epicentro. Podia ser estômago, pâncreas, intestino", diz. Um tumor na cabeça do pâncreas, exemplifica, costuma deixar o paciente amarelado —um sinal que ajudaria a apontar a origem.

Sem pistas como essa, e diante de uma doença já avançada em um paciente frágil demais para uma investigação mais ampla, localizar o ponto inicial se tornou inviável e, a essa altura, pouco decisivo para o tratamento.

A importância do diagnóstico precoce

Encontrar a doença cedo é o que mais pesa no resultado do tratamento, e nem sempre isso é possível. Bertevello explica que a localização do tumor influencia diretamente a rapidez do diagnóstico.

"Numa obstrução mais alta, o paciente logo apresenta náusea e vômito, e conseguimos chegar ao diagnóstico mais cedo. Já nas obstruções mais baixas, do intestino, muitas vezes a doença só dá sinais claros quando já está avançada", afirma.

O cirurgião acrescenta que a maioria dos tumores do aparelho digestivo tem na cirurgia o seu principal tratamento, já que são raros os que regridem apenas com terapia clínica. Dependendo do órgão e da localização, o caminho pode incluir quimioterapia antes da operação, como em alguns tumores de esôfago, estômago e reto; em outros, a cirurgia é a primeira escolha.

A obstrução no intestino

O tumor de Raoni fica na altura do duodeno, a primeira porção do intestino delgado, logo após o estômago, uma região por onde os alimentos precisam passar para seguir a digestão. Quando um câncer cresce ali, ele pode bloquear esse caminho.

Tumores nessa localização costumam exigir cirurgia justamente para evitar suas três complicações mais temidas, aponta Stefani: a obstrução, o sangramento e a perfuração do órgão. Foi um bloqueio dessa passagem que provocou os vômitos e as dores abdominais que levaram o cacique ao hospital.

Como o quadro não permitia remover o tumor, a equipe do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), optou por uma gastroenteroanastomose, procedimento que cria um novo trajeto no sistema digestivo para que os alimentos contornem a área comprometida e o paciente volte a se alimentar.

Bertevello observa que, quando a obstrução não pode ser resolvida com uma cirurgia de maior porte, o paciente pode precisar conviver com uma sonda para manter a alimentação. "É um recurso para dar suporte enquanto for possível conduzir a doença", diz.

Sinais que merecem atenção

Alguns sintomas ajudam a levantar a suspeita de um tumor no aparelho digestivo, sobretudo quando surgem sem explicação aparente. Entre eles estão a dor persistente, a perda de peso sem causa identificada, os vômitos e a anemia provocada por sangramento digestivo.

Stefani acrescenta que, em algumas situações, o tumor pode obstruir a via biliar e provocar um amarelamento intenso da pele e dos olhos, parecido com o de uma hepatite, acompanhado de coceira. Diante de qualquer um desses sinais, diz o médico, é preciso procurar avaliação.

Câncer em paciente muito idoso

A idade avançada muda por completo a forma de conduzir a doença. Aos 94 anos, Raoni está no grupo que os especialistas chamam de muito idosos, pacientes acima dos 80 anos que exigem uma abordagem própria.

"Um paciente com mais de 80 anos não é apenas um adulto com câncer. Ele tem uma fisiologia própria, costuma usar vários medicamentos e conviver com outras doenças, e isso muda toda a condução do caso", afirma Stefani, ao se referir à área conhecida como oncogeriatria.

O cacique convive com insuficiência cardíaca, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica e usa marca-passo, além de uma hérnia diafragmática antiga. Esse conjunto de condições eleva o risco de tratamentos mais agressivos, como cirurgias de grande porte ou quimioterapia.

Bertevello reforça que a fragilidade típica dessa faixa etária limita as opções. "Muitos pacientes nessa idade não toleram uma cirurgia maior. Há desidratação rápida, dificuldade para se alimentar, e o próprio corpo vai se consumindo, o que torna qualquer tratamento mais difícil", explica.

Por que o tratamento é paliativo

Diante da impossibilidade de remover o tumor por completo e dos riscos ligados à idade e às outras doenças, o foco do tratamento mudou: deixou de mirar a cura e passou a se concentrar no alívio dos sintomas e na qualidade de vida. É o que a medicina chama de cuidado paliativo —que não significa desistir nem interromper a assistência, mas redirecioná-la.

O objetivo passa a ser controlar a dor e outros desconfortos, prevenir complicações e preservar o bem-estar possível, um acompanhamento que, em muitos casos, caminha ao lado das terapias contra a própria doença.

"Nessas situações, o esforço se concentra em impedir que a doença provoque sintomas e em oferecer o maior conforto possível", resume Stefani. Para Bertevello, trata-se de um cuidado proporcional à condição do paciente, decidido em conjunto com a família. "A prioridade passa a ser o conforto", afirma.

Em casa, em Peixoto de Azevedo, esse cuidado ganha uma dimensão intercultural. O cacique segue cercado pela família e por seu povo, com acompanhamento médico, de enfermagem e de fisioterapia, e mantém a presença dos pajés de sua confiança —a mesma combinação de suporte clínico e referência cultural que organiza, agora, o seu dia a dia.