Brasil x Argentina: veja as diferenças entre as economias em 8 gráficos

Brasil x Argentina: veja as diferenças entre as economias em 8 gráficos
Ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que situação brasileira 'está melhor'. Especialistas avaliam que os dois países vivem momentos econômicos diferentes, o que exige cautela na comparação.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan,afirmou nesta segunda-feira (27) que a economia brasileira está em situação melhor do que a da Argentinae classificou o presidente do país vizinho,Javier Milei, de "palhaço".

A declaração ocorreu apósMilei viajar ao Brasil para participar, no sábado (25), do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. No evento, o argentino fez críticas ao presidenteLula(PT) e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de"lixo careca".

A comparação entre as economias dos dois paísespassou a alimentar o debate entre esquerda e direita, que buscam nos indicadores econômicos argumentos para defender quais governos ou linhas políticas apresentam melhores resultados.

Para especialistas ouvidos pelog1, porém,colocar Brasil e Argentina lado a lado exige cautela:as duas economias têm diferenças importantes de tamanho, estrutura produtiva e trajetória de inflação e estabilidade econômica.

"A situação das duas economias hoje não é estritamente comparável, porque a Argentina vive um cenário similar ao que o Brasil enfrentava em meados da década de 1990", afirma Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV Ibre, em referência ao processo de combate à inflação.

Ainda assim, alguns indicadores ajudam a entender a dinâmica de cada país. Inflação, desemprego, pobreza, dívida pública, reservas internacionais e Produto Interno Bruto (PIB) revelam os principais contrastes entre as duas economias.

Entenda abaixo, em 8 gráficos, as diferenças.

Uma das principais diferenças entre os países hoje está na inflação.Enquanto o Brasil controlou a alta dos preços com o Plano Real, na década de 1990, a Argentina ainda enfrenta inflação elevada, apesar da forte desaceleração registrada nos últimos meses.

Ao afirmar que a economia brasileira está em situação melhor, o ministro da Fazenda, Dario Durigan,citou a inflação como um dos indicadores que sustentam essa avaliação.

O economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, explica que a inflação elevada na Argentina tem diversas causas, mas destaca a forte oscilação do peso argentino em relação ao dólar como um dos principais fatores.

"A Argentina tem uma moeda muito desvalorizada e é bastante exposta aos choques da economia internacional por depender das exportações. Com isso, a desvalorização recorrente do peso acaba pressionando a inflação", diz.

Segundo ele, o Brasil também está suscetível a esses movimentos, mas a inflação se mantém controlada e está "em níveis baixos para os padrões brasileiros".

Na Argentina, a inflação atingiu o pico em abril de 2024, quandoo índice de preços acumulado em 12 meses chegou a 289,4%. O resultado ocorreu em meio ao ajuste do governo Milei, que incluiu a retirada de subsídios para reduzir o desequilíbrio das contas públicas.

A trajetória do desemprego seguiu movimentos semelhantes nos dois países, mas com taxas mais altas no Brasil nos últimos anos, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por lá, a desocupação vinha em queda até 2023.Após o chamadoPlano Motosserra, de Milei— que incluiu cortes de gastos públicos e medidas de ajuste —, a economia retraiu. Nesse cenário, o mercado de trabalho perdeu força e o desemprego passou a subir.

Para o FMI, a economia argentina avançou no processo de estabilização, mas a geração de empregos se tornou um dos principais desafios. A avaliação foi feita pela diretora-gerente da instituição, Kristalina Georgieva, durante visita ao país nesta segunda-feira (27).

“O desemprego na Argentina não é alto na comparação internacional, mas muitas pessoas trabalham na economia informal”, afirmou.

“As pequenas e médias empresas geram a maioria dos empregos. Devemos facilitar o acesso delas ao financiamento para que possam crescer e contratar mais trabalhadores”, acrescentou a chefe do FMI.

No Brasil, o mercado de trabalho passou por uma recuperação após a crise econômica de 2015 e 2016 e a pandemia de Covid-19. Em 2025, o país registrou amenor taxa média de desemprego da série histórica.

Ainda assim, a informalidade também continua como um dos principais desafios. “É um problema comum à maioria dos países em desenvolvimento”, afirma André Galhardo, da Análise Econômica.

Um índice de pobreza calculado pelo Banco Mundial aponta que26,2% da população brasileiravivia abaixo da linha de pobreza social em 2024, contra24,1% na Argentina.

Os dados mais recentes divulgados pelo IBGE apontam que o Brasil atingiu, em 2024, osmenores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica.

A proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 27,3%, em 2023, para23,1%, em 2024— uma redução de 8,6 milhões de brasileiros nessa condição.

Na Argentina, a pobreza aumentou inicialmente após o impacto econômico do Plano Motosserra,mas recuou posteriormente com a melhora de alguns indicadores econômicos.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), a taxacaiu no segundo semestre de 2025 para 28,2% da população, e atinge o equivalente a cerca de8,5 milhões de pessoas.

4. PIB em paridade de poder de compra

A economia brasileira é cerca de três vezes maior que a argentina quando considerado oPIB em paridade de poder de compra (PPP, na sigla em inglês), indicador que leva em conta as diferenças de preços entre os países.

Uma das explicações está no tamanho da economia brasileira:o Brasil tem uma população muito maior, um mercado consumidor mais amplo e uma estrutura produtiva mais diversificada, com destaque para serviços, indústria, agronegócio e energia.

Outro fator é a trajetória econômica da Argentina, marcada por décadas de inflação elevada e instabilidade, que reduziram o peso da economia do país em algumas comparações internacionais.

Galhardo, da Análise Econômica, lembra que o país já enfrentava desequilíbrios macroeconômicos antes da pandemia. “A alta dívida externa e a dependência do dólar tornam a Argentina mais vulnerável a crises e dificultam a recuperação da economia”, diz.

5. Evolução do PIB brasileiro

O PIB do Brasilfechou 2025 com alta de 2,3%, puxado pela agropecuária, no quinto ano consecutivo de crescimento. O resultado, porém, mostrou desaceleração em relação aos anos anteriores.

Naavaliação de economistas, um dos desafios para o crescimento sustentável é o equilíbrio das contas públicas. A expectativa é que uma melhora no cenário fiscal possa abrir espaço para a redução dos juros e favorecer a atividade econômica.

Para 2026, economistas do mercado financeiro projetam nova desaceleração, comcrescimento de 1,99%.

6. Evolução do PIB argentino

OPIB da Argentina cresceu 4,4% em 2025, segundo o Indec. O resultado representou uma recuperação em relação a 2024, quando a economia retraiu 1,3%, conforme valores revisados.

Foi o primeiro avanço do PIB sob a gestão de Milei, queassumiu o cargo em dezembro de 2023. Foi também a primeira alta desde 2022, ano em que o país cresceu 6%, durante o governo de Alberto Fernández.

Paraespecialistas ouvidos pelog1, embora o resultado do PIB tenha sido positivo, ele ainda apresenta desafios estruturais, com crescimento concentrado em setores específicos e consumo interno ainda fraco — ou seja, os argentinos seguem consumindo pouco.(leia mais)

7. Dívida em relação ao PIB

A dívida pública é elevada nos dois países, mas os desafios em relação às contas aparecem em contextos diferentes. Na Argentina, o endividamento se soma a um histórico de crises fiscais, dificuldades de financiamento e vulnerabilidade externa.

No Brasil, a principal pressão vem do aumento das despesas públicas e da trajetória de crescimento da dívida,embora o país tenha maior acesso ao mercado e mais reservas para enfrentar choques.(leia mais abaixo)

Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, ressalta que, sob Milei, a Argentina adotou um forte ajuste nas contas públicas, com cortes de gastos e geração de superávit primário (receitas maiores que as despesas) no curto prazo.

"Já o Brasil enfrenta um cenário de maior pressão fiscal, com aumento das despesas e crescimento da dívida pública", destaca.

Dados compilados pelo FMI mostram quea dívida bruta do governo brasileiro chegou a 93,3% do PIB, enquanto a da Argentina ficou em 80,3%.O indicador mede o total de obrigações do governo em relação ao tamanho da economia.

Para estabilizar ou reduzir a dívida, um país precisa gerar resultado fiscal positivo — ou seja, arrecadar mais do que gasta antes do pagamento dos juros da dívida.

Após o ajuste promovido por Milei,a Argentina voltou a registrar superávits fiscais. No Brasil, o governo tem registradodéficits primários nos últimos anos, com despesas superiores às receitas.

8. Reservas Internacionais

ComUS$ 360,9 bilhões, o Brasil possui um volume de reservas internacionais muito superior ao da Argentina, que temUS$ 49 bilhões.Esse colchão de dólares ajuda o país a enfrentar momentos de turbulência nos mercados e reduz a exposição a choques externos.

A diferença também aparece no risco de crédito.Pelo CDS de 5 anos (Credit Default Swap), um dos indicadores usados pelo mercado para medir a percepção de risco de um país, a Argentina aparece em um patamar muito superior ao Brasil: 1.030,95 pontos, contra 124,40 pontos.

"O Brasil tem como vantagem uma maior disponibilidade de reservas em dólares, uma dívida emitida majoritariamente em moeda local e desemprego controlado. Por outro lado, enfrenta desafios fiscais, com a trajetória de aumento da dívida pública", analisa Servideo, da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira.

Conformemostrou og1, o acúmulo de reservas internacionais ainda é um dos desafios de Milei. Desde janeiro de 2025, porém, o Banco Central da Argentina (BCRA) aumentou emUS$ 20,7 bilhõesseu estoque.