Em 1990, a cada mil crianças nascidas no Brasil,25 morriamantes de completar 28 dias de vida. Em 2024, esse númerocaiu para setea cada mil, uma redução de 72% na mortalidade neonatal em três décadas e meia.
➡️ O mesmo movimento de queda se repete entre crianças menores de cinco anos.
Em 1990, de cada mil crianças que nasciam no país,63 não chegavam ao quinto aniversário. Nos anos 2000, a taxa estava em 34 mortes por mil nascidos vivos. Em 2024, chegou a 14,2, queda de 77% em relação ao início da série histórica.
Todos esses números fazem parte do relatório "Levels & Trends in Child Mortality", publicado nesta terça-feira (17) pelo Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME), organismo liderado pelo UNICEF que também inclui a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Banco Mundial e a Divisão de População da ONU.
Segundo o relatório, o Brasil alcançou as menores taxas de mortalidade neonatal e abaixo dos cinco anos desde que o monitoramento começou a ser feito de forma sistemática.
Em números absolutos, o país registrou cerca de92 mil mortesde recém-nascidos em 1990 e deve ter encerrado 2024 com menos de19 mil— o que representa mais de 70 mil vidas a menos perdidas por ano.
Por trás da queda, o relatório aponta a consolidação de políticas públicas implementadas e ampliadas a partir dos anos 1990, como o Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a expansão da atenção primária no SUS e iniciativas de incentivo à vacinação e à amamentação.
Segundo a avaliação, esses avanços contribuíram diretamente para a redução da mortalidade infantil no país, ao ampliar o acesso a cuidados básicos de saúde e prevenção.
“Estamos falando de milhares de bebês e crianças que não sobreviveriam, e hoje podem crescer, se desenvolver com saúde e chegar até a vida adulta”, afirma Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil.
“E essa mudança foi possível porque o Brasil escolheu investir em políticas que funcionam, como a vacinação e o incentivo à amamentação. Agora, precisamos voltar a acelerar esses esforços, mantendo e ampliando os avanços históricos das últimas décadas e alcançando aqueles nos quais essas políticas ainda não chegam como deveriam", diz.
O Brasil, no entanto, também registra a desaceleração apontada pelo relatório como tendência global.
Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal brasileira caía a uma média de 4,9% ao ano. No período seguinte, entre 2010 e 2024, o ritmo baixou para3,16% anuais.
Cenário global e causas de morte
No mundo, cerca de 4,9 milhões de crianças morreram antes de completar cinco anos em 2024, incluindo 2,3 milhões de recém-nascidos, ainda segundo o relatório.
E a maioria dessas mortes poderia ter sido evitada com intervenções de baixo custo e acesso a serviços de saúde de qualidade.
O documento também aponta que, desde 2015, o ritmo de redução global da mortalidade infantildesacelerou mais de 60%, tendência que preocupa especialistas num momento de retração do financiamento internacional à saúde.
As mortes no período neonatal concentraram quase metade dos óbitos de crianças menores de cinco anos em 2024, indicando que o avanço na prevenção nesse estágio ainda é mais lento.
Segundo o relatório, as principais causas entre recém-nascidos foram complicações da prematuridade, responsáveis por 36% das mortes, e problemas durante o parto, com 21%.
Após o primeiro mês de vida, o perfil muda:doenças infecciosas como malária, diarreia e pneumonia passam a liderar os óbitos infantis.
O levantamento também traz, pela primeira vez, uma estimativa das mortes diretamente associadas à desnutrição aguda grave.
Em 2024, mais de100 mil criançasentre um mês e quatro anos morreram por essa condição, o equivalente a cerca de 5% do total global.
O número, porém, pode estar subestimado, já que a desnutrição costuma agravar outras doenças e nem sempre aparece como causa principal nos registros.
Os dados mostram ainda uma forte desigualdade geográfica. A África Subsaariana concentrou 58% de todas as mortes de menores de cinco anos no ano passado.
Em países afetados por conflitos ou com alta fragilidade institucional, o risco de morrer antes dos cinco anos é quase três vezes maior.
“Nenhuma criança deveria morrer de doenças que sabemos como prevenir. Mas vemos sinais preocupantes de que esse progresso está desacelerando — e num momento em que estamos vendo cortes adicionais no orçamento global”, afirmou Catherine Russell, diretora executiva do UNICEF.
Brasil reduz em 72% mortalidade de crianças menores de cinco anos desde 1990, aponta relatório da ONU
Dados divulgados nesta terça pelo UNICEF mostram queda consistente nas mortes de recém-nascidos e crianças pequenas no país nas últimas três décadas; ritmo de redução, porém, desacelerou.