Bloqueio de nervos da cabeça pode interromper uma crise de enxaqueca? Entenda o procedimento

Bloqueio de nervos da cabeça pode interromper uma crise de enxaqueca? Entenda o procedimento
Técnica recebida por Michelle Bolsonaro consiste em aplicar anestésico perto de nervos da cabeça, da face ou da nuca. Efeito pode começar logo após a injeção, mas resposta e duração do alívio variam entre os pacientes.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou por umbloqueio anestésico dos nervos cranianos e pericranianospara tratar umquadro persistente de dor de cabeça.A informação foi divulgada pela assessoria dela no domingo (2).

Michelle havia sido internada no sábado (1º) para realizarexames que investigavam episódios recorrentes de enxaqueca.

O procedimento foi feito diante da persistência das dores.

Mas como esse tipo de bloqueio funciona? Onde o anestésico é aplicado, quanto tempo o efeito pode durar e em quais casos a técnica costuma ser indicada?

Entenda mais abaixo.

O que é o bloqueio e como ele age?

O bloqueio anestésico consiste na aplicação de uma pequena quantidade deanestésico localperto de um nervo que participa da transmissão da dor. Em alguns casos, o médico também pode usar umcorticoidejunto com o anestésico.

➡️ Apesar do nome, a técnica não envolve umainjeção no cérebronem exige qualquer abertura do crânio. A agulha atravessa apenas a pele e deposita o medicamentoao redor do nervo escolhido.

O objetivo éinterromper temporariamente os sinais de dorque passam por aquele nervo. Com menos estímulos chegando ao sistema nervoso, os circuitos que ajudam a manter a crise podem reduzir sua atividade.

Isso não significa que a causa da enxaqueca tenha seja eliminada. O bloqueio funciona principalmente como umatentativa de interromper o ciclo da dor, sobretudo quando a crise se prolonga ou não responde aos medicamentos habituais.

"O bloqueio anestésico tem finalidades específicas: como ‘ponte’ para retirada de remédios de crise e alimentos estimulantes; na desintoxicação do paciente no início do tratamento", explica Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca e outras dores de cabeça.

"Para tratar um paciente em crise, sem que ele precise ir ao pronto-socorro ou voltar a tomar medicações que provocam dor rebote; para potencializar a eficácia dos tratamentos preventivos; entre outras indicações individualizadas de cada paciente, portanto, a frequência de realização é determinada caso a caso", acrescenta a especialista, que é doutora pela Unifesp e idealizadora do Headache Center Brasil.

📝Na prática, o procedimento pode ser usado para:

O alvo mais frequente é onervo occipital maior, localizado na parte de trás da cabeça. Ele sai da região superior do pescoço e leva sensibilidade a uma grande área do couro cabeludo.

Também podem ser bloqueadosnervos que passam pela testa, pelassobrancelhas, pelocanto interno dos olhose pelaslaterais da cabeça.

☝️ A escolha depende principalmente de onde a dor se concentra. Uma pessoa com dor predominante na nuca pode receber um bloqueio diferente de outra que sente a crise ao redor dos olhos ou na testa.

Embora a expressão “nervos cranianos” seja usada para descrever o procedimento, parte dos nervos tratados fica ao redor do crânio ou tem origem na região cervical. Por isso, também se utiliza o termo “nervos pericranianos”.

Materiais de hospitais universitários ligados ao sistema público de saúde do Reino Unido, o NHS, citam o bloqueio como opção para alguns pacientes com enxaqueca, cefaleia em salvas, neuralgia occipital e outros tipos de dor de cabeça ou na face.

A enxaqueca é uma doença neurológica, e não apenas uma dor de cabeça comum. Além da dor pulsante, pode causar náusea, vômito e maior sensibilidade à luz, aos sons e aos odores.

Quando é indicado e como o procedimento é feito?

O bloqueio costuma ser considerado quando a dor é intensa, frequente ou prolongada e não melhora com os tratamentos usados normalmente. Também pode ser uma alternativa quando o pacientenão pode tomar determinados medicamentosou apresenta muitosefeitos colaterais.

Entre as situações em que a técnica pode ser avaliada estão:

Uma crise de enxaqueca pode durar dealgumas horas a até três dias. Quando se prolonga por mais de72 horas, o quadro pode ser classificado comostatus migranosoe normalmente exige avaliação especializada.

⚠️ Uma dor persistente, contudo, nem sempre é causada porenxaqueca. Antes de indicar o bloqueio, o médico precisa avaliar os sintomas e descartar outras causas, principalmente quando a dor é diferente dopadrão habitual do paciente.

"A duração [do procedimento] é entre 3 a 7 dias ou mais, a depender da resposta individual de cada paciente. A dor melhora ou mesmo desaparece no momento do procedimento", acrescenta Villa.

O procedimento pode ser realizado emconsultório,ambulatóriooupronto-socorro. O paciente normalmente permanece sentado, acordado e consciente durante toda a aplicação.

O médico identifica o trajeto do nervo por meio da anatomia e da região em que o paciente relata maior dor ou sensibilidade. Depois da limpeza da pele, uma agulha fina é usada para aplicar uma pequena quantidade de anestésico.

➡️ A aplicação em si costuma levar apenas alguns minutos. Dependendo do caso,mais de um nervo pode ser tratadona mesma sessão.

Após o procedimento, o paciente geralmente fica em observação por um período curto. Materiais dos hospitais universitários de Leeds e Cambridge (Reino Unido) indicam tempos que variam de cerca de10 a 30 minutos.

Na maioria dos casos, o bloqueio não exige internação. A pessoa pode sentir a picada da agulha, pressão, ardência ou desconforto enquanto o medicamento é aplicado.

Também pode surgirdormência temporária,sensibilidadeou umpequeno inchaço no local. No bloqueio do nervo occipital, por exemplo, a pessoa pode perceber um pequeno volume na nuca logo após a injeção.

Quanto tempo o efeito pode durar?

O anestésico costuma começar a agir rapidamente. Algumas pessoas percebem melhora logo depois da aplicação, enquanto outras só sentem redução da dor após dois ou três dias.

⌛ O efeito direto do medicamento geralmente duraalgumas horas. Mesmo assim, o alívio pode continuar pordiasousemanas, porque o bloqueio pode ajudar a interromper o ciclo de sinais que mantém a crise.

A resposta varia de pessoa para pessoa. Há pacientes que melhoram bastante, outros que sentem alívio parcial e aqueles que não respondem ao procedimento.

Segundo o Cambridge University Hospitals, cerca dedois terços dos pacientes com dores de cabeçacrônicasouincapacitantesapresentam algum benefício temporário com o bloqueio do nervo occipital maior. Aproximadamente um terço não tem melhora considerada útil.

📝 Os próprios serviços de saúde ressaltam que muitos estudos foram feitos comgrupos pequenos. Por isso, ainda não é possível prever com segurança quem responderá melhor nem porquanto tempo o efeito permanecerá.

O bloqueio também pode ser repetido quando o alívio é parcial ou a dor retorna. Quando há corticoide na aplicação, serviços britânicos recomendam intervalos de três a quatro meses entre os procedimentos.

Quais são os riscos e cuidados?

O bloqueio é consideradopouco invasivoe, em geral, causa efeitos leves e passageiros. Os mais comuns são:

⚠️Infecções e reações alérgicas ao anestésico são raras. Quando há corticoide, pode ocorrer afinamento da pele ou queda de cabelo em uma pequena área próxima à aplicação.

Pessoas que usam anticoagulantes ou outros medicamentos que interferem na coagulação devem avisar o médico, porque podem ter maior risco de sangramento. Esses remédios não devem ser suspensos sem orientação.

➡️O bloqueio não cura a enxaqueca nem impede necessariamente novas crises. Ele pode fazer parte de um tratamento mais amplo, com acompanhamento médico, medicamentos e mudanças de hábitos.

O uso excessivo de analgésicos também pode tornar a dor mais frequente. Dores súbitas e muito intensas, acompanhadas de alteração da visão, confusão, desmaio, febre, rigidez na nuca ou fraqueza exigem atendimento médico.