Anular as cinco questões de matemática antecipadas por Edcley já poderia comprometer o Enem 2025, dizem especialistas

Anular as cinco questões de matemática antecipadas por Edcley já poderia comprometer o Enem 2025, dizem especialistas
Inep anulou apenas 3 das 8 perguntas antecipadas pelo estudante de medicina. Dependendo do nível de dificuldade das que não foram canceladas, impacto de descartá-las seria suficiente para reduzir a precisão da prova.
O g1 revelou que 8 questões quase idênticas às do Enem 2025 haviam sido divulgadas antes da aplicação da prova oficial.

Especialistas afirmam que o impacto de anular as 8 questões antecipadas depende sobretudo da dificuldade delas — especialmente das 5 de matemática, que poderiam comprometer a precisão se estiverem concentradas na mesma faixa da escala.

Se os itens cancelados forem “vizinhos” na régua de dificuldade, a nota dos candidatos pode mudar de forma relevante; se estiverem espalhados, o efeito tende a ser mínimo.

Para medir isso, o Inep precisa divulgar os parâmetros psicométricos dos itens (dificuldade, discriminação e acerto casual), avaliados tanto no pré-teste quanto no desempenho real dos estudantes em 2025.

Informar esses detalhes com transparência pode tranquilizar os estudantes, dizem os especialistas ouvidos nesta reportagem.

Desde que og1revelou que8 questões quase idênticasàs do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 haviam sido divulgadas antes da aplicação da prova oficial,estudantes que se sentiram prejudicados passaram a defender a anulação da prova.

O Inep, no entanto, manteve a validade do exame e decidiu cancelar apenas três dos itens que Edcley Teixeira, aluno de medicina, havia antecipado em lives, grupos de Whatsapp e apostilas.(leia as justificativas do órgão aqui).

➡️E se, mantendo a lógica que levou à anulação dessas três perguntas, as oito tivessem sido descartadas? Seria uma quantidade que comprometeria a precisão do Enem 2025?

Segundo matemáticos e especialistas entrevistados pela reportagem,tudo depende das características (principalmente, do nível de dificuldade) de cada um desses itens.

Primeiramente, precisamos ter em vista que os desempenhos são calculados para cada área de conhecimento.Entre essas 8 perguntas sob suspeita, 5 estavam na prova de matemática e 3 na de ciências da natureza.Focando no caso de matemática, em que o impacto seria maior:se as 5 perguntas forem “vizinhas” na “régua de dificuldade”— ou seja, as 5 consideradas fáceis, as 5 consideradas médias ou as 5 consideradas difíceis —,as notas dos alunos seriam alteradas de maneira a interferir em processos seletivos para universidades.Por outro lado, caso o grupo de questões esteja mais “espalhado” pela escala, o impacto da anulação seria praticamente nulo, em termos matemáticos.

Og1entrou em contato com o Inep para solicitar essas informações, mas não havia recebido resposta até a última atualização desta reportagem(leia mais abaixo).

🔴Por que a dificuldade das perguntas importa?

Suponha que as questões “pulem” de 10 em 10 no grau de dificuldade: 10, 20, 30, 40… 170, 180 etc.

“Se eu perder um item de 20 e outro de 180, talvez não faça tanta diferença. Mas, se eu perder os de 40 e 50, a escala vai ficar com uma lacuna e pular do 30 para o 60”, diz Tadeu da Ponte, matemático, especialista em inteligência artificial em avaliações e ex-coordenador do vestibular do Insper.

“A partir de 5 perguntas anuladas, se elas estiverem concentradas em uma determinada parte da escala, com padrão similar (como todas sendo difíceis), a prova perderá precisão”, afirma.

✏️Mark Reckase, professor emérito da Michigan State University (EUA), especialista em métodos quantitativos e em Teoria da Resposta ao Item (TRI - técnica de correção de exames como o Enem), também explica aog1que“não incluir cinco itens poderá ter algum efeito na precisão das notas”.

Isso dependerá dos três parâmetros considerados no Enem:

nível de dificuldade da habilidade cobrada(valores maiores representam questões mais difíceis);discriminação(mostra o quanto a questão diferencia participantes que dominam a habilidade daqueles que não dominam);acerto casual(representa a chance de acertar por “chute”).

“Por exemplo, se só itens fáceis forem descartados, o impacto será maior na precisão das estimativas de estudantes com baixo desempenho. Itens com altos parâmetros de discriminação e baixos parâmetros de acerto ao acaso, ou seja, mais difíceis, influenciarão ainda mais na precisão da pontuação.”

🔴Como avaliar se a anulação dessas perguntas comprometeria a prova?

Para saber exatamente quais as características de cada uma dessas perguntas, o Inep precisaráanalisar tanto as características detectadas nos pré-testes (que já servem para “calibrar” a dificuldade) quanto os desempenhos dos estudantes no Enem 2025 (etapa em que a calibragem do pré-teste é refinada).

Só com o pré-teste, já seria possível ter alguma noção do impacto que as anulações trariam ao Enem, afirmam especialistas.As 5 perguntas de matemática eram “vizinhas” no grupo de dificuldade? Se sim, as notas podem ter sido afetadas de maneira mais significativa.

Bruno Damásio, ex-professor do Departamento de Psicometria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundador da Psicometria Online,reforça a importância de o órgão responsável pelo Enem informar estes dados assim que possível.

“Sem a gente conhecer os parâmetros psicométricos desses itens, não há como dizer se a prova completa está precisa”, afirma.

“Imagine que esses itens antecipados fossem extremamente importantes e estivessem entre os mais difíceis. Anulá-los poderia prejudicar os candidatos. Se forem mais dispersos — alguns fáceis, alguns médios, alguns difíceis — não vai haver prejuízo na estimativa final.”

➡️Informar esses detalhes com transparência pode tranquilizar os estudantes, dizem os especialistas ouvidos nesta reportagem.

Chico Soares, ex-presidente do Inep, concorda que essa divulgação seria essencial para a credibilidade do Enem.

“O governo deveria fazer simulação na universidade X, mostrando que, tirando determinado número de itens, não se alterariam as notas. Não adianta só falar a opinião. É preciso dar uma resposta técnica”, afirma.

Damásio concorda e diz que a população não pode ficar “às cegas”.

“Os candidatos estão às escuras, sem saber o que está acontecendo. Precisamos de um posicionamento técnico, como as informações de como esses itens estavam distribuídos na escala”, diz.

“Uma nota técnica ajudaria substancialmente. O Inep precisa se comprometer em fazer uma investigação extensa, sem medo de cancelar questões que possam ter ferido a isonomia entre os alunos.O órgão consegue estimar com algum nível de clareza o impacto que essas perguntas poderiam ter na estimativa final.Queremos clareza científica, sem querer abafar o caso, porque o que está acontecendo não é situação trivial.”

No mais recente posicionamento oficial, o Inep disse que “a avaliação técnica da autarquia é a de que a eventual memorização parcial e aleatória entre as milhares de questões pré-testadas para o Enem nos últimos anos não compromete a integridade do exame”.

🔴Questões deveriam ou não ser anuladas?

📈CONTEXTO:Edcley Teixeira havia descoberto queum concurso da CAPES (órgão do governo federal), aplicado para alunos do primeiro ano da graduação, serviria como um “pré-teste” para o banco de questões do Enem— ou seja, traria conteúdos que potencialmente fariam parte do exame oficial em edições futuras.

Passou, então,a pagar para que estudantes participassem dessa prova, memorizassem o máximo de itens que conseguissem e passassem o material ao próprio Edcley.Ele vendia tudo em pacotes de “mentoria”. O caso está sendo investigado pela Polícia Federal.

“Em uma das mensagens, Edcley diz que os alunos nem precisariam ler determinada pergunta; seria só dividirem 125/216. Quem não teve acesso a esse material perdeu tempo fazendo as contas. É total injustiça com aquele que estudou direitinho”, afirma Fernando Menezes Campello de Souza, professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor em Engenharia de Sistemas pela Cornell University (EUA).

“Uma coisa é olhar questões de edições anteriores do Enem. Isso é natural. Mas o que aconteceu, de antecipar perguntas quase idênticas, descredibiliza a educação. A isonomia foi ferida.”

Manuel Palacios, presidente do Inep, discorda.

“O fato de se visualizar uma questão que por coincidência caiu em uma prova não altera o resultado de ninguém. Até mesmo porque a probabilidade de acertar uma questão ao acaso, na sorte, já é de 20%. Altera muito pouco o fato de eu ter visto [a pergunta antes]”, diz Palacios.

Segundo ele, somente 3 das 8 questões antecipadas por Edcley foram anuladas, porque, na data da decisão do cancelamento desses itens (18 de novembro), “era uma situação desconhecida, sem diagnóstico claro do que estava acontecendo”. Agora, com a análise completa do caso, ficou evidente que “em nenhum momento o Enem esteve em risco”, afirma. 🔴

Abaixo, compare as questões adiantadas por Edcley às que de fato caíram no Enem:

Pergunta sobre fotossíntese(anulada)

Questão 115 na prova cinza; 121 na amarela; 132 na verde; 123 na azul.

Questão do Enem 2025

Pergunta sobre espécies(continua válida)

Questão do Enem 2025:

Pergunta sobre grito(anulada)

Questão 118 na prova cinza; 115 na amarela; 135 na verde; 132 na azul.

Questão do Enem 2025:

Pergunta sobre desvio padrão(continua válida)

Questão do Enem 2025:

Pergunta sobre parcelamento de R$ 60 mil(anulada)

Questão 172 na prova cinza; 178 na amarela; 168 na verde; 174 na azul.

Questão do Enem 2025:

Pergunta sobre tijolos(continua válida)

Questão do Enem 2025

Pergunta sobre probabilidade/lançamento de dados(continua válida)

Questão 178 da prova azul, 176 da cinza, 169 da amarela e 172 da verde.

Mensagem por Edcley em grupo de WhatsApp em março (à esquerda) mostra alternativa correta de prova aplicada 8 meses depois (à direita)

Pergunta sobresolução com concentração de 99,90%(continua válida)

Questão 140 da prova azul, 144 da cinza, 137 da amarela e 148 da verde.

Questão do Enem 2025

Como Edcley teve acesso às perguntas?

Ele percebeu que o Prêmio Capes de Talento Universitário, voltado a alunos do primeiro ano da graduação, usava questões que funcionavam como um pré-teste para o Enem.Identificou que esses itens podiam aparecer em edições futuras do exame.Passou incentivar que universitários participassem do concurso da Capes.Ofereceu pagamento mínimo de R$ 10 por cada questão que eles conseguissem memorizar.Com esses relatos, montou um "banco de itens", um acervo de perguntas que usava nas aulas.Passou a vender o conteúdo em mentorias para estudantes.