Acordo EUA e Irã: o que pode dar errado e as perguntas ainda em aberto, segundo especialistas

Acordo EUA e Irã: o que pode dar errado e as perguntas ainda em aberto, segundo especialistas
O acordo ainda não foi formalmente assinado, mas analistas se preocupam com os principais desafios futuros para a paz na região.
Depois de semanas de negociações, osEstados Unidose oIrãchegaram a um acordo preliminar — mas as atenções estão se voltando agora para os enormes desafios de acabar com a guerra.

Na quarta-feira (17), funcionários de alto escalão dos EUA leram ummemorando de entendimento de 14 parágrafos para jornalistas, incluindo a BBC.

O acordo deve ser assinado formalmente na Suíça na sexta-feira (19), abrindo caminho para que um "acordo definitivo" seja alcançado dentro de um "máximo de 60 dias prorrogáveis por consentimento mútuo".

O texto estabelece compromissos para iniciar a retirada do bloqueio naval dos EUA, restaurar a navegação pelo Estreito de Ormuz e negociar a suspensão de "todos os tipos de sanções" contra oIrã. O documento também descreve planos para um fundo de pelo menos US$ 300 bilhões para a reconstrução e o desenvolvimento econômico doIrã, além de um compromisso renovado deTeerãde não desenvolver uma arma nuclear.

O presidente dos EUA,Donald Trump, alertou que oacordo preliminar "não é final" e afirmou que os EUA podem "voltar a jogar bombas" caso ele fracasse.

O presidente do parlamento doIrãe principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse à imprensa estatal quesua desconfiança em relação aos EUA permanece, e que oIrãestá "com o dedo no gatilho".

Confira abaixo as três principais ameaças às negociações de paz, de acordo com especialistas.

1) Ofensiva deIsraelnoLíbano

Ambos os lados declararam o "encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo noLíbano", disse o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que atuou como um dos principais mediadores, durante o anúncio do acordo inicial.

O acordo divulgado na quarta-feira também inclui explicitamente oLíbano, garantindo sua "integridade territorial e soberania".

No entanto,Israelcontinuou atacando oLíbano— mesmo após Trump afirmar que o primeiro-ministro israelense,Benjamin Netanyahu, deveria ser "mais responsável em relação aoLíbano" na cúpula do G7 na França.

Na quarta-feira, aviões israelenses atingiram a área de Nabatieh al-Fawqa e os arredores de Kfar Tebnit, informou a agência estatal libanesa National News Agency (NNA).

Além disso, autoridades dos EUA afirmam que, embora oLíbanoesteja coberto pelo cessar-fogo, a retirada das forças israelenses do território libanês não é uma condição do acordo.Israelmanterá o direito de autodefesa, segundo os EUA.

Mas oIrãafirmou que o fim da guerra noLíbanoé uma "parte inseparável do acordo para encerrar a guerra".

OHezbollah, grupo militante libanês apoiado peloIrã, faz coro a essa posição. OIrãassegurou a seu aliado que exigirá a retirada completa das tropas israelenses doLíbanona próxima fase das negociações, disse à Reuters o escritório de relações com a imprensa doHezbollah.

Israeltambém sinalizou claramente que não se considera vinculado à interpretação iraniana do acordo. O ministro da Defesa,IsraelKatz, afirmou que as forças israelenses permanecerão em zonas de segurança noLíbano"por tempo indeterminado" e advertiu que "atacarão com força total" se oIrãatacarIsraelpor causa doLíbano.

Tel Avivtem sido o "principal sabotador" dos esforços de paz, diz H.A. Hellyer, cientista político do Royal United Services Institute, um centro de estudos do Reino Unido.

"A postura militar agressiva israelense, seja direcionada aoIrãou conduzida por meio da devastação contínua noLíbano, representa a maior ameaça individual ao progresso diplomático", afirma.

O processo pode entrar em colapso antes que "negociações substanciais sobre a questão nuclear sequer comecem" seTeerãfor arrastado para um confronto direto, segundo Hellyer.

O presidente libanês, Joseph Aoun, acolheu o acordo preliminar, dizendo esperar que ele se traduza em "medidas práticas que ponham fim definitivo ao ciclo de violência".

Para o próprioLíbano, as consequências da guerra têm sido devastadoras. Mais de 3,7 mil pessoas morreram, cerca de um milhão foram deslocadas e grandes partes do sul sofreram destruição generalizada.

2) Programa nuclear doIrã

Outro ponto de atrito é o urânio enriquecido doIrã, embora Trump tenha dito que não há pressa em confiscá-lo.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), oIrãhavia acumulado cerca de 400 kg de urânio enriquecido a 60% até o ano passado. Para fabricar uma arma nuclear, o nível de enriquecimento necessário é de cerca de 90%.

Teerãtem afirmado consistentemente que seu programa nuclear é pacífico e reiterou no acordo que não buscará desenvolver armas nucleares.

No entanto, as principais questões — incluindo o tratamento do material enriquecido existente — foram deixadas para um acordo final ainda a ser negociado.

Ambos os lados concordaram, em princípio, em decidir como lidar com o material enriquecido armazenado. No mínimo, o urânio será "misturado" — ou seja, reduzido — no local sob supervisão da AIEA.

Pelo acordo nuclear de 2015 negociado pelo presidente Barack Obama,Teerãlimitou o enriquecimento a 3,67%. Após a retirada dos EUA do acordo em 2018 — durante o primeiro mandato de Trump — oIrãexpandiu significativamente seu programa nuclear.

O presidente provavelmente "reiniciará operações militares" se considerar que oIrãestá novamente enriquecendo urânio em nível para fabricação de armas, disse Darin Selnick, ex-subchefe de gabinete do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, à BBC.

Por ora, espera-se que as duas partes mantenham o "status quo" durante o período de negociação de 60 dias: oIrãnão ampliará suas atividades nucleares, enquanto os EUA se absterão de impor novas sanções ou aumentar sua presença militar na região.

3) Estreito de Ormuz

O acordo também visa reabrir o estreito de Ormuz, que está paralisado desde fevereiro. Antes da guerra, cerca de 20% do abastecimento global de petróleo e gás passava por essa importante rota marítima.

O texto afirma que a via será reaberta após a assinatura do acordo na sexta-feira, atingindo operações completas dentro de 30 dias, à medida que obstáculos técnicos e de segurança sejam eliminados, incluindo a remoção de minas realizada peloIrã.

O acordo estabelece que o estreito permanecerá sem cobrança de pedágio por um período inicial de 60 dias, "do Golfo Pérsico ao Mar de Omã e vice-versa". E acrescenta que oIrãmanterá negociações com Omã e outros Estados do Golfo sobre a futura administração da via e serviços marítimos, em conformidade com o direito internacional.

Isso abriria a possibilidade para a implementação de taxas no futuro.

Teerãjá indicou que deseja um papel maior na gestão do estreito. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores doIrã, Esmaeil Baghaei, afirma que o país cobrará das embarcações uma taxa de serviço pela passagem. No entanto, não está claro o que essas taxas cobririam.

Pedágios de passagem não são permitidos pelo direito internacional, embora sejam aceitáveis cobranças por serviços específicos.

Ainda assim, o lado americano expressou confiança de que o estreito permanecerá livre de pedágios após as negociações.

Uma autoridade dos EUA afirmou que oIrãpode tentar insistir na sua posição, mas os Estados do Golfo não aceitarão nenhum arranjo que restrinja o acesso gratuito.

Trump disse que oIrãagirá com "bom senso" e não vai impor taxas, já que a medida poderia aumentar o risco de escalada militar. Os EUA também acreditam que os Estados do Golfo "nunca" aceitariam um sistema futuro com cobrança.

Também permanecem questões práticas.

A remoção de minas pode levar "de semanas a meses", disse à BBC o contra-almirante aposentado da Marinha dos EUA Mark Montgomery.

As empresas de navegação provavelmente agirão com cautela até estarem convencidas de que o cessar-fogo será mantido.

"Seria necessário um capitão extremamente corajoso para atravessar o estreito de Ormuz, dado o cenário atual", disse à BBC Verify Martin Kelly, da empresa de gestão de crises EOS Risk Group.

Hellyer adverte, no entanto, que o acordo para encerrar a guerra segue sendo apenas "um memorando de entendimento — um marco para negociação, não uma resolução".

"O trabalho difícil ainda está por começar", diz.