A fraude investigada pela Polícia Federal no Banco Master funcionava como uma espécie de linha de montagem digital.
Quando os documentos carregavam informações que poderiam revelar sua origem ou a verdadeira data de formalização,funcionários também atuavam para apagá-las ou alterá-las.
Em um dos casos analisados pela perícia, um Termo de Consentimento que trazia originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023 teve esse registro removido em julho de 2025.
A estrutura foi descrita em relatório técnico-pericial da Polícia Federal, elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master.
O arquivo, intitulado “Investigações internas – Banco Master”, tinha 30 slides e documentava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para a produção de documentos relacionados à cessão de créditos consignados ao BRB.
O material mostra que a operação combinava ferramentas comuns de escritório, programação e edição de documentos.O objetivo era transformar dados de operações reais e antigas em uma documentação que desse aparência de existência a uma carteira de créditos atribuída à Tirreno.
De dados reais a contratos que não existiam
O primeiro passo era obter dados de clientes que já haviam realizado operações legítimas.Segundo a investigação, funcionários recorreram a informações armazenadas nos sistemas internos do banco, inclusive relacionadas aoCredCesta– um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, às 14h05,Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, pediu aVinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams.
Vinicius reuniu os CPFs no arquivocpf_cessao.csve, no dia seguinte, executou a consultaContratos_Henrique_Dados.sqlno banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilhaDados_cessão.xlsx, que acabou enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57.
A planilha reunia informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Esses dados passaram a servir de matéria-prima para a montagem dos documentos.
As próprias conversas entre integrantes da área de tecnologia mostram que havia problemas na base utilizada.
Em 20 de junho,Rafael Manfrin da SilvaeThiago Ramalhodiscutiram a filtragem dos dados. Rafael observou que havia CPF de uma pessoa com apenas uma proposta de 2019 e afirmou que a lista estava “meio furada”.
A troca mostra que os próprios responsáveis pela parte tecnológica identificavam incompatibilidades nos dados que estavam sendo utilizados.
2.700 procurações produzidas de uma vez
Com os dados reunidos, uma das etapas era produzir as procurações.Para isso,Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou uma função comum do Microsoft Word:a mala direta.
A ferramenta permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro. No caso investigado, Allan vinculou o arquivoPROCURACAO Master.docxà planilhaBase de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta de trabalhoDemanda BRB-Tirreno 2700 amostras.
O procedimento permitiu gerar 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.
A tecnologia, portanto, não era usada apenas para armazenar os documentos.Ela permitia reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas.
Código para separar páginas de assinaturas
A produção dos documentos também envolveu a área de tecnologia.Thiago Ramalho,Rafael Manfrin da SilvaeRenato M. participaram do desenvolvimento de aplicações emC#registradas no repositório GitHub do Banco Master.
Uma das funções criadas tinha uma finalidade específica:extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais.
A perícia também identificou um arquivo compactado chamadoerros-whatsapp.zip, enviado porAnderson Juliano Caspinelli GarciaaMoacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento.
Essas páginas podiam, assim, ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos de documentos.
A assinatura digital não escondia quando os documentos foram produzidos
Outra etapa envolvia as Cédulas de Crédito Bancário, as CCBs.Henrique PupoeHenrique Gonçalves Silvaextraíram lotes de documentos do sistema idtrust, com arquivos identificados pela raizCCB_credcesta_....
Em 20 de junho, Fabrizio organizou pelo Teams uma força-tarefa para assinar os documentos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.
As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado.Foi justamente nessa etapa que a perícia encontrou uma das evidências mais fortes da manipulação.
Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior — por exemplo, 21 de janeiro de 2025. Já o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
Ou seja, mesmo quando a data apresentada no documento apontava para meses antes, o registro da assinatura digital indicava quando aquela peça havia efetivamente sido assinada.
O apagamento das datas
A diferença entre as datas também aparecia nos Termos de Consentimento. Para evitar que os documentos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado pediu aMoacir Lourenço da Silva Juniorque removesse as informações de data e hora.
A ordem aparece em uma conversa no Teams de 20 de junho:
A perícia identificou um exemplo concreto no Termo de Consentimento deGenilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foiapagado visualmente.
A alteração não eliminava, porém, todos os vestígios analisáveis pela perícia digital. O documento podia deixar de mostrar a data original na imagem,mas outros registros do arquivo e da assinatura digital permitiam reconstruir a cronologia.
Os documentos eram reunidos em um único arquivo
Depois de produzidas e alteradas as diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental.
Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação. A montagem reunia documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data retirada.
Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede chamadasDemanda BRB-Tirreno 2700 amostras,Demanda BRB-Tirreno 299 amostraseDemanda BRB-Tirreno 119 amostras.
Assim, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eramtransformados em um único dossiê.
Até os comprovantes de transferência foram alvo de alteração
A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários.
Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu comRomy Goerck Gentina Klenquena alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB ePIX. O problema era que os documentos apresentavam informações que vinculavam as operações ao histórico original.
Allan queria retirar três elementos:
Entre as informações que apareciam no histórico estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.
A conversa mostra que a dificuldade era fazer isso emescala. Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seriaimpossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes.
A conversa mostra um dos limites encontrados na própria linha de montagem: enquanto procurações e outros documentos podiam ser produzidos em massa por ferramentas automatizadas, a alteração gráfica dos comprovantes bancários encontrava dificuldades quando precisava ser repetida milhares de vezes.
A auditoria também entrou na mira do esquema
As mensagens reunidas pela investigação mostram ainda que a preocupação não era apenas produzir os documentos, masexplicar as inconsistências caso fossem questionadas.
Em 23 de junho, Fabrizio comunicou aAlberto Felix de Oliveira Netoque a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta de Alberto foi direta:
Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025.
Fabrizio afirmou que a base já havia sido enviada anteriormente, mas apresentava um erro que precisaria ser corrigido. Alberto perguntou quais documentos seriam solicitados pela auditoria. Fabrizio respondeu que seriam CCBs e termos.
Os documentos chegaram à cúpula do banco
A investigação também identificou o repasse de amostras da documentação falsificada.
Em 12 de junho de 2025,Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu aAlberto Felixum “kit dos 300 com assinatura digital”.
Alberto respondeu que providenciaria. Minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos.
Ou seja, a documentação produzida na operação não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem.
Uma cadeia que começava no banco e terminava em um dossiê
O conjunto de evidências descrito pela Polícia Federal revela uma cadeia organizada emetapas:
Primeiro,dados de clientes eram extraídosdos sistemas internos;Depois, esses dadosalimentavam documentos produzidosem escala;Páginas de assinaturas eram separadas;CCBs eram assinadasdigitalmente;Datas e informações que poderiam revelar a origem dos documentos eramremovidas;Por fim, as diferentes peças eram reunidas emarquivos únicos.
A tecnologia permitia acelerar praticamente todas essas etapas.
A mala direta do Word produzia procurações em lote. As consultas aos bancos de dados reuniam informações cadastrais. Os programas em C# automatizavam o tratamento dos PDFs. O Acrobat era utilizado para as assinaturas digitais. E o PDF24 reunia os documentos finais.
O objetivo, segundo o material pericial, era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria. O problema é que, mesmo depois da retirada de datas e da alteração de documentos,a própria estrutura digital deixava vestígios.
O choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais é um dos exemplos. A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente.
A operação, portanto, não dependia apenas da criação de documentos falsos. Havia também uma segunda frente: apagar ou modificar informações que poderiam revelar como e quando aqueles documentos haviam sido produzidos. Era uma tentativa de fazer com que uma sequência de arquivos fabricados em 2025 parecesse a documentação de operações realizadas anteriormente.
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