'Eu tinha a sensação de que ia morrer': sobreviventes relatam impacto da epidemia de ebola no Congo

'Eu tinha a sensação de que ia morrer': sobreviventes relatam impacto da epidemia de ebola no Congo
Surto matou quase 4 mil pessoas e se espalhou por sete províncias. Reportagem acompanhou profissionais que enfrentam doença em país com sistema de saúde fragilizado.
Aepidemia de ebola que avança na República Democrática do Congo já deixou milhares de mortos e uma legião de sobreviventes marcados por perdas, traumas e lembranças difíceis. Em meio ao maior surto já registrado no país, pacientes que conseguiram vencer a doença agora ajudam a cuidar de outras vítimas e relatam os desafios enfrentados durante e após a infecção.

Entre eles está uma estudante de medicina que contraiu o vírus, ficou internada e hoje trabalha com crianças afetadas pela doença. Ela lembra do medo vivido durante o tratamento.

"Eu fiquei apavorada durante a minha internação. Eu tinha a sensação de que ia morrer a qualquer momento. Eu vi outras pessoas morrendo e isso traumatiza", afirmou.

Após receber alta, ela decidiu permanecer em uma creche que acolhe crianças vítimas do ebola. Segundo a estudante, o trabalho se tornou uma forma de ajudar pessoas que enfrentam o mesmo sofrimento que ela viveu.

"Eu gosto muito de ficar com as crianças porque eu adoro pediatria. Amo cuidar deles, vê-los sorrir. Não é fácil perder a mãe tão novinho, ficar sem ninguém e ter que se adaptar a alguém desconhecido", disse.

De paciente a cuidador

Outro sobrevivente acompanhou a reportagem após perder 12 parentes para a doença. Ele contou que procurou ajuda médica logo após apresentar sintomas, recebeu resultado positivo para ebola e iniciou o tratamento imediatamente.

"Eu logo fui atendido e o teste deu positivo. O tratamento começou imediatamente, mesmo sabendo que era Ebola, isso me tranquilizou", relatou.

Depois da recuperação, ele passou a atuar ao lado das equipes médicas nos centros de tratamento. Por ter desenvolvido imunidade ao vírus, ajuda no cuidado de pacientes e reduz a exposição de profissionais de saúde ao risco de contaminação.

As consequências da epidemia vão além dos hospitais. O surto deixou centenas de crianças órfãs e separou famílias inteiras. Uma das histórias retratadas é a de um bebê considerado um caso raro de sobrevivência. A mãe morreu durante o parto e o pai faleceu dias depois, ambos vítimas do ebola, mas a criança conseguiu superar a doença.

Outra menina sobreviveu depois de perder toda a família para o vírus. Histórias como essas têm se tornado comuns em uma região onde o avanço da doença se soma à pobreza, aos conflitos armados e às dificuldades do sistema de saúde.

Medo ainda atrapalha combate à doença

Apesar dos esforços de organizações humanitárias e equipes médicas, o medo continua sendo um dos principais obstáculos ao controle da epidemia. Segundo a reportagem, muitas pessoas ainda evitam os centros de tratamento por desconfiança ou falta de informação.

A situação preocupa autoridades de saúde porque parte significativa dos pacientes só busca ajuda quando a doença já está avançada. Em muitos casos, familiares tentam cuidar dos doentes em casa, aumentando o risco de novas transmissões.