Como os candidatos pretendem mexer na economia? Compare propostas para 5 temas

Como os candidatos pretendem mexer na economia? Compare propostas para 5 temas
Planos de governo apresentam caminhos diferentes para contas públicas, endividamento das famílias, comércio exterior e custo do crédito. O g1 compara as propostas dos presidenciáveis para os principais desafios econômicos.
A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, os principais candidatos à Presidência apresentam caminhos diferentes para lidar com alguns dos maiores desafios da economia brasileira.

Entre os temas que estarão na mesa do próximo presidente estão o equilíbrio das contas públicas, os juros, o endividamento das famílias, o crescimento econômico e a produtividade.

Luiz Inácio Lula da Silva(PT), Flávio Bolsonaro (PL),Augusto Cury(Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentam em seus planos de governo propostas para enfrentar esses desafios.

Og1reuniu as principais ideias econômicas dos candidatos para mostrar o que cada um propõe para o país em áreas que afetam diretamente as contas do governo, as empresas e o bolso dos brasileiros.

Confira, a seguir, os principais temas econômicos e as propostas dos candidatos para cada um deles. As medidas foram reunidas a partir dos planos de governo apresentados aoTribunal Superior Eleitoral(TSE).

Bets e apostas online

As bets, como são chamadas as plataformas de apostas online, foram legalizadas no Brasil em 2018 e regulamentadas em 2023.Desde 2025, as empresas autorizadas passaram a pagar impostos sobre a atividade. Naquele ano, o governo arrecadouR$ 8,94 bilhõescom a tributação do setor.

O mercado voltou ao centro do debate em setembro deste ano,quando o governo Lula anunciou uma medida provisória para proibir as apostas de quota fixa, os jogos online e os cassinos virtuais.

A decisão foi apresentada como parte de um pacote de medidas para combater o endividamento das famílias. A MP ainda precisa ser analisada pelo Congresso para se tornar definitiva.

Entretanto, entidades do setorcontestam a proibição e afirmam que a medida pode levar apostadores a plataformas clandestinas, fora do alcance da fiscalização e de mecanismos de proteção ao consumidor.

Para o tema, as propostas dos candidatos são:

Dívida pública e orçamento

A situação das contas públicas pode ser um dos temas centrais do debate. O assunto envolve quanto o governo arrecada, quanto gasta e como financia suas despesas quando as receitas não são suficientes.

O desequilíbrio dessas contas pode contribuir para oaumento da dívida pública e pressionar os juros, com impactos sobre o custo do crédito, os investimentos e o crescimento da economia.

Quando hádéficit, o governo precisa buscar outras fontes de financiamento para cobrir a diferença entre receitas e despesas. Uma das formas é tomar empréstimos, o que pode aumentar o endividamento público.

E, quanto maior a necessidade de financiamento, maior pode ser o custo para captar recursos.

Em agosto,o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 10 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, o déficit chegou aR$ 88,9 bilhões. A dívida pública alcançou 82,9% do PIB, ouR$ 11,05 trilhões, o maior nível desde março de 2021.

Considerando também osjuros da dívida, o déficit chegou a R$ 1,26 trilhão nos 12 meses até agosto, equivalente a 9,48% do PIB.No período, os juros somaram R$ 1,18 trilhão.

Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, o próximo presidente terá de apresentar medidas para controlar o crescimento das despesas obrigatórias, como Previdência, salários e programas sociais, e buscar resultados positivos nas contas públicas.

O analista diz que, sem um plano claro, o mercado mantém os juros longos elevados — ou seja, as taxas cobradas em investimentos e empréstimos com prazo mais longo. Isso dificulta a queda da Selic e pressiona o crescimento porque o crédito fica mais caro e pode desestimular o consumo e os investimentos.

“Uma dívida em trajetória de alta aumenta o prêmio de risco [rentabilidade extra que um investimento oferece para compensar o investidor por correr mais riscos do que em uma aplicação segura], pressiona os juros e acaba reduzindo o espaço para investimento e crescimento.”

Para conter o crescimento das despesas, o governo adotou o arcabouço fiscal em 2023, com regras para a evolução dos gastos.Para 2027,o projeto de Orçamento prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhõese uma meta de resultado equivalente a 0,5% do PIB.

As propostas dos candidatos são:

Endividamento das famílias

O endividamento recorde das famílias e os impactos no orçamento doméstico também devem estar entre os temas do debate.

Em julho,82% dos consumidores tinham algum tipo de dívida a vencer, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC),o maior nível da série histórica da entidade.O cenário envolve principalmente cartão de crédito, carnês, empréstimos e financiamentos.

Já a inadimplência, quando o consumidordeixa de pagar uma dívida no prazo, também permanece elevada.A taxa média nas operações de crédito subiu de 4,9% para 5% entre julho e agosto, segundo oBanco Central do Brasil(BC), atingindo o maior nível da série histórica revisada, iniciada em março de 2011.

Segundo Uarian, o endividamento das famílias éum dos principais obstáculos ao crescimento econômicoe, por isso, deve estar entre os principais temas do debate entre os presidenciáveis.

“O percentual de famílias endividadas está em nível recorde e o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu o maior patamar da série histórica.”

O analista destaca ainda que o consumo representa cerca de 63% do PIB e que o crédito caro, especialmente no cartão de crédito e em modalidades de curto prazo, compromete parte do orçamento doméstico.

“Qualquer proposta de estímulo ao consumo ou de crescimento precisa enfrentar esse gargalo de forma direta.”

Tarifaço, comércio exterior e terras raras

O comércio exterior também pode entrar na discussão, especialmente diante das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. Em julho,o governo de Donald Trump aplicou sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parte dos produtos brasileiros.Em alguns casos, as duas tarifas são cumulativas, chegando a37,5%.

Nesse contexto,entram também as discussões sobre as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como celulares, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, enquanto a China domina cerca de 70% da produção global e também concentra etapas importantes do refino e da fabricação de ímãs.

O interesse dos EUA pelas reservas brasileiras ganhou espaço nas negociações entre os dois países em meio ao tarifaço. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração, representantes americanos demonstraram interesse em acordos para a aquisição de minerais estratégicos do Brasil.

Confira as propostas dos candidatos para os temas:

A taxa de juros é um dos temas que conecta praticamente todos os assuntos econômicos.A Selic está em 13,75% ao ano, após cinco cortes feitos pelo Banco Central em 2026. Para o fim do ano, o mercado financeiro espera mais uma redução, para 13,50%.

A inflação continua acima da meta de 3%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país,acumulou 4,22% em 12 meses até agosto.

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, inflação e juros estão entre os principais temas do debate porque estão diretamente relacionados ao ritmo de crescimento da economia.

“Qualquer proposta econômica que aumente a demanda sem ampliar a capacidade de produção pode dificultar a queda da inflação e manter os juros elevados por mais tempo.”

O analista aponta ainda outros dois desafios para os próximos anos: emprego e renda e a reforma tributária. Segundo ele, o mercado de trabalho continua forte, mas será necessário transformar o aumento do emprego em ganhos sustentáveis de renda, o que depende de produtividade e qualificação.

Sobre a reforma tributária, Lima afirma que “2027 será um período importante da transição para o novo sistema”.

“No fim, acredito que essas questões estão conectadas, já que fiscal, juros, investimento, produtividade e renda vão determinar quanto o Brasil conseguirá crescer de forma sustentável nos próximos anos.”