A jovem que se casou aos 15 anos para fugir de abusos do padrasto e virou advogada 'popstar' na internet

A jovem que se casou aos 15 anos para fugir de abusos do padrasto e virou advogada 'popstar' na internet
Miriane Ferreira tem milhões de seguidores e usa as redes para ajudar mulheres. Ela foi vítima de casamento infantil, realidade que ainda atinge milhares de crianças no Brasil.
Quem vê os vídeos da advogadaMiriane Ferreiranas redes sociais talvez não imagine a história que a levou até ali. Com mais de 2 milhões de seguidores, ela costuma viralizar com vídeos bem-humorados em que responde a dúvidas de mulheres sobre divórcios e outros temas jurídicos.

Mas, antes de se tornar uma "popstar" na internet, a profissional enfrentou situações de violência que ainda fazem parte da realidade de milhares de meninas no Brasil.

Miriane foi vítima de casamento infantil. Aos 15 anos, se casou com um homem quase duas vezes mais velho para fugir dos abusos do padrasto. O caso dela não é isolado. O último Censo identificou32,4 mil crianças de até 14 anosvivendo em uniões conjugais em todo o país.

A atual advogada nasceu emArapongas, no norte do Paraná. Ela conta que cresceu sem a presença do pai e que a mãe precisou criar sozinha quatro filhos pequenos em uma cidade do interior.

"Havia dificuldades financeiras, preconceito e uma responsabilidade enorme sobre os ombros dela", relembra.

Quando Miriane era adolescente, a mãe se apaixonou por um homem. Pouco tempo depois, ela sofreu um aneurisma. A partir daí, a convivência em casa mudou, e o padrasto começou a abusar da menina.

Foi nesse contexto que, aos 13 anos, Miriane conheceu um homem com o dobro da idade dela. Ela se apaixonou e viu no relacionamento uma oportunidade de sair de casa. Dois anos depois, eles se casaram.

"Tudo o que eu queria naquele momento era sair dali. Eu queria que alguém me salvasse", diz. "Sei também que aquilo não era uma história de amor entre iguais. Era um homem adulto e uma menina de 13 anos procurando proteção."

O casamento não durou muito. Miriane seguiu a vida, teve outros relacionamentos e também enfrentou namorados abusivos. Um deles, chegou a impedir de estudar. Além disso, ela engravidou e se tornou mãe.

Mesmo diante das dificuldades, concluiu os estudos e decidiu seguir um sonho que herdou da própria mãe: cursar Direito para se tornar juíza. Mas, depois de tantas experiências difíceis, passou a duvidar da própria capacidade.

Foi a irmã quem a tirou desse ciclo.

"Foi ela quem pagou minha faculdade, mas o apoio dela foi muito além do financeiro. Ela me cobrava, insistia para que eu estudasse, pegava no meu pé mesmo, porque sempre enxergou em mim uma capacidade que, muitas vezes, nem eu mesma consigo enxergar até hoje", conta.

Durante os estágios da faculdade, Miriane começou a atender mulheres que viviam relacionamentos difíceis, dependiam financeiramente dos parceiros e desconheciam os próprios direitos. Nessas histórias, reconhecia situações que ela e a mãe também haviam enfrentado.

A experiência a levou a mudar de planos: em vez de seguir a carreira de juíza, decidiu atuar como advogada para defender mulheres que passavam por situações semelhantes. E foi nas redes sociais que ela encontrou o caminho para ajudar milhares de pessoas.

"As redes sociais acabaram ampliando aquilo que eu já havia percebido nos atendimentos. Muitas mulheres não apenas desconhecem seus direitos, mas também não reconhecem o valor da própria contribuição dentro de uma relação", afirma.

🤔 Com umacaixinha de perguntas, no Instagram ou TikTok, ela responde uma série dúvidas, por exemplo:

👀 Algumas tambémsão curiosas:

Assunto sério e pouco visível

Em 2019, o Brasil aprovou uma lei que proibiu o casamento de pessoas com menos de 16 anos. A legislação, no entanto, ainda permite que adolescentes de 16 e 17 anos se casem com autorização dos responsáveis.

Apesar da mudança, o casamento infantil continua sendo um problema no país.

Florbela Fernandes, representante do UNFPA no Brasil, afirma que essas uniões estão frequentemente associadas à pobreza, ao racismo, à desigualdade de gênero, à gravidez não planejada e à falta de perspectivas. Meninas negras são as mais impactadas.

"Morar com um parceiro mais velho pode parecer proteção ou estabilidade. Mas uma escolha sem alternativas reais não é plenamente livre. A diferença de idade aumenta a desigualdade de poder, o abandono escolar, a dependência econômica e o risco de violência", diz.

Para Florbela, a legislação brasileira precisa avançar para eliminar a possibilidade de casamento entre adolescentes de 16 e 17 anos. Também é necessário melhorar a identificação dos casos e o atendimento às meninas.

Segundo ela, muitas uniões infantis ilegais não envolvem cerimônia ou registro formal. Por isso, famílias, comunidades e serviços públicos nem sempre reconhecem essas situações como casamento infantil.

"Precisamos preparar escolas, serviços de saúde e assistência social, Conselhos Tutelares e toda a rede de proteção para identificar os casos e agir de forma coordenada, sem julgar ou revitimizar as meninas", afirma.

Ao lembrar da própria história, Miriane diz que, se pudesse reencontrar a adolescente que foi, tentaria explicar que aquelas experiências, por mais dolorosas que fossem, um dia a ajudariam a compreender a dor de outras mulheres e a fazer diferença na vida delas.

"Hoje compreendo que o que faltou àquela menina não foram conselhos, mas proteção. E, se eu realmente pudesse fazer alguma coisa, simplesmente a levaria para casa e cuidaria dela com muito amor."

A mãe de Miriane morreu quando ela tinha 18 anos.

Para Bhuwan Ribhu, fundador da organização Just Rights for Children, a legislação precisa deixar claro que o casamento infantil é uma violação dos direitos das crianças e prever consequências para quem organiza ou permite essas uniões.

Ele cita Serra Leoa como exemplo. Em 2024, o país aprovou uma lei que proíbe casamentos e uniões de convivência envolvendo menores de 18 anos. A legislação prevê pelo menos 15 anos de prisão para quem contrai, organiza, facilita ou permite essas uniões.

"O casamento infantil tira as meninas da escola e, posteriormente, do mercado de trabalho. Tira a liberdade delas, impede que tenham autonomia sobre o próprio corpo e a própria vida e pode comprometer o futuro que poderiam construir", afirma.

"É também uma crise de saúde. O casamento infantil expõe as meninas a um risco maior de estupro, violência sexual e outras formas de abuso dentro do casamento."

Os impactos, porém, não se limitam à vida das meninas. Ribhu afirma que essas uniões também geram prejuízos econômicos para toda a sociedade.

O ativista também cita o Brasil como exemplo do que pode ser alcançado com investimentos em educação e proteção social. Segundo ele, programas como o Bolsa Escola provaram a importância de combinar o acesso à educação com apoio financeiro a famílias vulneráveis.

"Essas medidas, aliadas à aplicação efetiva das leis e ao monitoramento regular, podem ajudar a identificar crianças fora da escola e casos de gravidez na adolescência que podem indicar risco de casamento precoce ou forçado", defende.